FESTA DOS SANTOS MÁRTIRES DE MARROCOS - TRAVASSÔ

 Como é Celebrada a Festa             

Nesta Paróquia de Travassô celebra-se todos os anos a Festa dos Santos Mártires de Marrocos.

A festa dos Santos Mártires, que se celebra nesta Paróquia de São Miguel de Travassô, nos dias 15 e 16 de Janeiro de cada ano, pode considerar-se, mesmo, uma festa religiosa muito particular por vários motivos:

Pelo grande número de pessoas que esta festa polariza; por algumas manifestações de religiosidade popular com que está imbuída; pelo facto de ser a única festa que se celebra em todo o País, venerando estes mesmos santos protomártires Franciscanos, e ainda pelo facto de sempre se celebrar nos dias 15 e 16 de Janeiro, independentemente do dia da semana.

Efectivamente, a Festa dos Santos Mártires de Marrocos, é uma festa que congrega um elevado número de pessoas, desde turistas a romeiros e peregrinos. Pode mesmo dizer-se que no dia da festa propriamente dito, 16 de Janeiro, a Freguesia de Travassô quadruplica a população com estes  peregrinos e romeiros oriundos um pouco de todo o lado...

Mas se esta festa é importante para as pessoas de fora também o é, obviamente, para os residentes e habitantes de Travassô. De facto, a população crente, nos nove dias antes da festa começar, prepara a mesma com uma novena orientada pelo pároco e onde, em cada um destes nove dias, se reflecte sobre uma ou outra característica mais marcante da vida dos Santos Mártires e que tem aplicação nos nossos dias.

DIA 15 de Janeiro

O dia 15 de Janeiro é o primeiro dia da festa. Sensivelmente pelas 17 horas há um espaço de confissões, que se prolonga até às 19 horas. Às 20.30 horas começa a festa propriamente dita com a primeira celebração da Eucaristia. Esta Eucaristia é presidida pelo pároco mas o pregador é um Franciscano, uma vez que os Mártires (Berardo, Pedro, Adjuto, Otão e Acúrsio) que deram a vida em Marrocos eram precisamente desta Ordem fundada por São Francisco de Assis.

Após a celebração da Eucaristia e do sermão, faz-se o encerramento da novena (a cargo do Pároco) enquanto a Irmandade dos Santos Mártires prepara as alfaias litúrgicas e começa a organizar a "procissão dos nús" - uma procissão nocturna que principia sensivelmente pelas 21.30 horas, saindo da igreja matriz em direcção à capela de Nossa Senhora do Amparo, em Travassô de Baixo.

 

A PROCISSÃO DOS NUS

A "Procissão dos nus" tem este nome sugestivo, dado que, nos primeiros tempos, há décadas atrás, incorporavam-se nesta procissão peregrinos e romeiros que, para mostrar a sua penitência - e para cumprir as suas promessas - iam amortalhados (vestidos com mortalha, uma espécie de bata branca, que se vestia por cima da roupa) na procissão. Aliás esta "Procissão dos nus" era também muito frequentada há largos anos atrás por soldados que, porque conseguiam regressar ilesos da guerra do Ultramar, participavam nesta procissão carregados com armas às costas.

A "procissão dos nus" sai da igreja, a caminho da capela de Nossa Senhora do Amparo, em Travassô de Baixo e nesta mesma procissão é levada a Sagrada Relíquia, um busto que contém um osso de um dos mártires e que é venerado na Igreja da Paróquia de São Miguel de Travassô.

A procissão termina junto à capela acima referida, onde se proclama a Palavra de Deus e onde o pároco profere um sermão também alusivo à vida dos Santos Mártires - vida esta que é transposta para os nossos dias.

DIA 16 DE JANEIRO

O dia 16 de Janeiro é fundamentalmente o dia principal da festa, dado que foi precisamente neste dia que os mártires foram mortos em Marrocos. Celebra-se a primeira Eucaristia do dia, às 08.00 horas da manhã, e depois, após a mesma, e até às 10.00 horas da manhã, mais de uma dúzia de sacerdotes (do Arciprestado de Águeda e da Ordem Franciscana) atendem em confissão umas dezenas largas de pessoas... que, desta forma, se preparam não só para a Eucaristia campal, que é celebrada no fim da procissão deste dia, como também para dar cumprimento às suas promessas.

A procissão do dia...

A procissão principal principia sensivelmente pelas 10 horas do dia 16 de Janeiro e é animada com a participação de duas bandas filarmónicas, uma das quais a "banda 12 de Abril" de Travassô. A abrir a procissão - e simultaneamente, também, para afastar as largas centenas de pessoas que se aglomeram ao longo da estrada - há dois cavaleiros da GNR a que se segue, as bandeiras, as insígnias, os andores, o palio, as filarmónicas e os devotos.

Nesta procissão além da participação da Irmandade dos Santos Mártires, participam, também, os Escuteiros de Travassô e milhares de romeiros e peregrinos que seguem atrás dos vários andores, de uma forma ou de outra ligados com os Mártires Franciscanos. De facto, nesta procissão são levadas as imagens, dentre outros, de São Francisco de Assis, Santo António, Santa Clara, Santa Rosa, de Santa Margarida, de Nossa Senhora, do Senhor dos Passos, sem esquecer obviamente o andor dos Santos Mártires e a Sagrada Relíquia. A exemplo de outras festas incorporam-se na procissão muitas crianças ("anjinhos") representando alguns santos, indo nomeadamente cinco delas vestidas a rigor, representando, dessa forma, os Mártires Franciscanos.

Passar debaixo do andor de Santa Clara

De referir que ainda há um costume - que já remonta há muitos anos atrás - que consiste em fazer passar debaixo do andor de Santa Clara (a padroeira da fala) as crianças de tenra idade... para que não tenham atraso na aprendizagem da linguagem... Convicções simples de gente simples... Além deste costume, que ainda vigora - não obstante a catequese do pároco para evangelizar estes hábitos -  outros costumes houve que por terem uma tonalidade fortemente pagã e pouco sensata já foram banidos... alguns só há poucos anos: Referimo-nos, nomeadamente, não só ao costume de participar na procissão amortalhados como também no costume de caminhar na procissão, de costas "para a frente". Felizmente que este costume já não acontece... assim como também já se vê pouca gente que faz o percurso da procissão, arrastando-se de joelhos. Felizmente que as pessoas já vão entendendo que Deus, Jesus Cristo, Sua Mãe, e os Santos não são sádicos, e, por isso, não querem obviamente o sofrimento das pessoas...

A procissão do dia 16 que sai da capela de Nossa Senhora do Amparo a caminho da Igreja, logo que chega ao Adro - por volta do meio dia - , começa a Eucaristia. E uma vez que a igreja matriz é exígua para comportar os milhares de peregrinos que participam na festa, celebra-se a Eucaristia campal, no auditório, situado precisamente no adro da igreja, onde se faz o sermão do dia.

Após a celebração terminar, termina a festa propriamente dita, cedendo lugar ao comércio de uma centena de feirantes que vai procurando vender um pouco de tudo...

De referir, que contrariamente ao que costuma ter lugar em outras festas do género, a festa dos Santos Mártires de Marrocos, na freguesia de Travassô, não tem qualquer conjunto musical, nem qualquer arraial, nocturno ou diurno. A festa comporta apenas a dimensão religiosa - excluindo obviamente a dimensão comercial que depois da festa Religiosa terminada, e como já referimos, passa a ser dominante.

Padre Júlio Grangeia

 

Travassô e os Santos Mártires de Marrocos