Chama-se
João. O resto do nome não interessa. Ele também não se importa...e do nome
que tem muito menos... O que interessa o nome se não o pode usar? O que
interessa ser conhecido pelo nome quando, atrelado ao seu nome vem todo o seu
passado que ainda o persegue no presente?
O
João, casado, e pai de uma filha ... é um
“pobre de Cristo” ... poder-se-á dizer ...; Sim... um “pobre”... e
...um “pobre de Cristo” ... apesar de não acreditar muito nessas coisas da
religião, da fé e dos padres...
A
história do João é simples; conta-se em poucas palavras: Um dia
“armou-se” em “xico esperto” ... a “coisa” correu mal... e pronto!
Foi o principio do fim...
Um
passo mal medido... e... zás: foi o suficiente para ir parar à cadeia... De
uma assentada apanhou cinco .... cinco anos...
atrás das grades...
A
vida com a mulher que já não era “famosa”... antes de.... mais complicada
ficou...depois ... depois de...
A
desconfiança que era já o “pão
nosso de cada dia”.... do seu dia, e quando ainda vivia com ela, mais insuportável
se tornou...longe dela...
As
visitas , frequentes que ela, no início, lhe foi fazendo foram escasseando...
escasseando, à medida que o tempo passava... e acabaram, mesmo, por deixar de
acontecer.... Uma única coisa no entanto o animava. A sua filha
– aquela com quem se encontrava mais apegado... - não o esquecia nem
ele tão-pouco. As cartas que ela, a filha,
lhe ia escrevendo, de inicio, eram
lidas com sofreguidão; eram lidas e relidas... apesar de já as saber quase
todas de cor...
o
João lá ia descobrindo em cada
uma delas, uma montanha de coisas novas e
lá ia imaginando, por detrás da caligrafia infantil que os dez anos não
disfarçam... todo um palpitar de vida que ele estava, agora,
privado de ter... mas não de imaginar...
-
Nem me quero lembrar, senhor padre..... – suspirou o João com
olhar húmido, lembrando ainda o pesadelo do passado que, agora, mais do que
nunca, o persegue, no presente...
O
tempo ia assim passando....vagarosamente. Ali, os segundos... duram uma
eternidade ... mas também chegam ao fim! E
eis que esse grande dia também
chegou. O dia da liberdade. Esta, embora condicional... sempre é libertação....
Ninguém
o foi esperar. Ele também, verdade seja dita, também já não contava com
isso...mas ficou sentido. Sentia-se livre, finalmente... mas amargurado também;
chorou lágrimas de alegria mas de raiva igualmente. Uma coisa no entanto o
animava. Ia reencontrar, finalmente a
sua mulher e especialmente a sua
filha...
-
Vou sair daqui mais cedo... e vou fazer uma surpresa... – Pensou
o João. E se assim o pensou melhor o fez...
Chegou
a casa tarde e estoirado... mas feliz. Não...não estava a sonhar. Estava mesmo
livre ...em casa. Na sua casa!
Abriu
a porta...meteu-se pelo curto corredor... Ia finalmente abraçar a filha... a
sua filha que estava agora com 15 anos...
Bateu
à porta, entrou... e
instantaneamente ficou como que paralisado;
mal podia acreditar no que estava a ver: A sua filha, a sua filha de 15
anos estava deitada, sim...
mas, tinha a seu lado, um
tipo qualquer que dormia com ela...
Foi
como que uma autentica bomba explodisse ali mesmo; não teria produzido para
ele, de certo, maior impacto.
-
Ó Senhor padre.... eu vi tudo andar à roda... Fiquei perdido...
O
João, perdido..., acabara de encontrar.... a filha... a sua filha que deixara
com 10 anos, e que agora estava com quinze...quinze anos,
deitada na sua cama com um gajo qualquer...
-
E então não é que o camelo ainda me desejou boa noite...senhor
padre?! – Explica assim o João o tamanho desplante do ... do gajo...
Chama-se
João. Tem uma vida complicada. Fez uma asneira. A sua vida complicada...mais
complicada ficou... e foi parar à
cadeia. Cinco anos ali esteve: o tempo suficiente para não ver a filha
crescer... tempo suficiente para encontrar
agora a mesma filha com quinze ... mas
a dormir já com um gajo...com um gajo qualquer... Um gajo que, ainda por cima,
lhe deseja boa noite... com a maior naturalidade do mundo...do seu mundo!
-
Então... e não disse nada? O que é que a sua mulher pensa? – pergunto eu ao
João, ao pai que apesar de tudo é pai...
-
Disse-me que dormem apenas vestidos ...mas que se amam muito...
Pois
é, amigo ouvinte: a mãe.... a própria mãe concorda! Ela, a mãe, acha que a
filha e o tal gajo se amam muito...e que podem por isso... dormir juntos...
Afinal de contas eles só dormem... vestidos...
-
Ai se eu não estivesse com liberdade condicional... –
lamenta-se o João ...livre...mas preso agora de outra maneira... com outros
grilhões que o deixam como animal ferido...ferido no seu orgulho de homem...e
de pai...
Ele
sabe que o erro do passado é passado, sim, mas é só para a lei...
A
vida, essa, continua a ser um pesadelo...e agora muito mais: no emprego que não
consegue arranjar e no gajo... Sim,
no gajo que dorme com a sua filha...com a sua filha de 15 anos...na casa do João;
na sua própria casa...
Afinal
de contas - diz a mulher - eles amam-se muito...e só dormem vestidos...só
dormem vestidos...
Afinal
qual é o problema?!! O gajo afinal de contas até é bem educado; até lhe diz
boa noite...e tudo... O que é que ele quer mais?
Pois
é amigo ouvinte: Será que um erro
do passado legitima este inferno permanente?
Será
que pelo facto de ser ex-prisidiário ...deixa este homem de ser pai...e de ser
educador?
Será
que apesar de dormirem ...vestidos... legitima que o façam, na sua casa, com a
sua filha....de 15 anos?
Não
concorda comigo!
Até
para a semana!
Padre
Júlio Grangeia
22-03-2000