NA FREQUÊNCIA DA VIDA

DIA DE TODOS OS SANTOS

É sempre assim todos os anos...; digam lá o que disserem...

Há quem pense que tudo acaba; Há quem sustente que tudo termina na cova, na terra, na sepultura...

Por outro lado quase sempre no dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, e por ser feriado; muitas vezes no dia 2... por ser o dia próprio em que se comemora, para a Igreja Católica, o dia dos Finados; às vezes, no dia 1 e no dia 2... tudo depende... mas, seja no dia um ou dois ou em ambos, acontece sempre a mesma coisa.

Eu diria, até, que, nesta altura, acontece sempre o inacreditável, o insólito: O cemitério, o campo onde a morte marca presença e se torna presente, pungente e tétrica, o cemitério, onde a morte está ali, lado a lado com a vida, o cemitério nestes dias encontra-se cheio: cheio de mortos... e de vivos!

Sim... poder-se-á, mesmo, dizer que acontece o insólito: Nestes dias, nos cemitérios, são, até, mais os vivos do que os mortos! Mas porquê? O que levará as pessoas a estragar o seu feriado, e a estar ali, nestes locais tão lúgubres e melancólicos? Porquê?

Será Fé? Será para Guardar memória de quem já partiu à nossa frente? Será por mera tradição? Será por Respeito, superstição, rotina, remorso?...

Se calhar, haverá de tudo um pouco...

Para uns, a maioria, certamente, está ali porque tem fé; porque acredita que, com a morte, não acaba tudo; sente... que a morte não acaba ali; pressente que ali a Vida ganha um outro sentido!

Sim... pessoalmente também acredito... e acredito... não porque "não há nada a perder" - como a célebre actriz Brigitte Bardot dizia há tempos atrás, mas porque temos tudo a ganhar... Sim, amigo ouvinte, a vida, para muitos dos que vão ao cemitério, não acaba com a Morte; esta não é, não pode ser, o fim nem tão-pouco o fim do fim... mas, pelo contrário, é antes, o Princípio do principio. Para muita desta gente - e contrariamente aquilo que se costuma ouvir dizer e até escrever- o Cemitério não é, de forma alguma, a última Morada. A última, se quiser, é mesmo aquela em que nos encontramos junto de Deus. Agora saber onde isso fica: se é lá em cima, se é cá em baixo, isso, para mim, amigo ouvinte, pouco importância terá; E isto porque também acredito que lá, no céu, na vida eterna, não há Lá, nem cá, porque não há espaço, nem tempo; Não há longe nem distância...

Sim, eu sei: Eu sei que não é fácil abarcar tudo isto e muito menos para quem gosta de racionalizar as coisas como também é o meu caso... Mas há coisas e coisas... e então quanto se trata da morte... não será mesmo a linguagem das flores a que melhor expressa o nosso sentir?

Pessoalmente, acredito, tenho esperança em algo de bonito que tem lugar num lugar que não tem espaço nem tempo; eu sou um dos muitos milhões que acredita que Jesus Cristo ao Ressuscitar matou a Morte e deu Vida à Vida; se ressuscitou, se matou a Sua morte... acredito que também, tal como prometeu, há quase 2 mil anos, acredito que vai matar, também, a nossa morte; a morte dos nossos amigos...

Por isso também irei ao cemitério, ao Koimêtérion ,como se diz em Grego e que sintomaticamente quer dizer "dormitório", para pedir a Cristo, vencedor da morte, que dê Vida, Vida a todos quantos "dormem", a todos quantos já fecharam os olhos, para que finalmente possam agora ter novos "olhos" para ver uma outra luz...

Eu, e muitos, pensamos assim...

Mas... será que todos os que foram ou vão ao cemitério, será que todos pensam assim?... Será que a morte é vista, ou assumida por todos da mesma forma, como sendo o corolário lógico da vida?

A morte não será para muita gente, um "bicho de 7 cabeças" que mete medo, horror, e não sei mais quantos?

Há tempos, quando seguia no carro fúnebre, passámos junto a uma senhora já idosa, toda alquebrada, que se arrastava com extrema dificuldade, amparada a uma bengala. Não deixei de reparar nela. Quando o carro fúnebre passava junto dela, esta parecia até que tinha visto o diabo. Com gestos significativos, virou-se para o carro mortuário, e sai-se com esta:

-VAI-TE, VAI-TE, VAI-TE...

Perante cena tão ilustrativa dei comigo a pensar: Se a morte se pudesse afugentar com palavras ou com gestos...

E que dizer daquela senhora, profundamente abalada com a morte do filho que quando entro em sua casa, para encomendar o corpo do filho defunto, que se encontrava em câmara ardente, me recebe aos gritos:

"DEUS É UM LADRÃO"; DEUS É UM LADRÃO, SENHOR PADRE: ROUBOU O MEU FILHO"!

Pois é, amigo ouvinte: Compreendo a dor desta mãe; mas não posso concordar com a visão que ela tem de Deus. Como pode o Deus da Vida, que quer que todos tenham vida e vida em abundância- como o referiu expressamente Jesus Cristo- tirar, ou roubar, a vida a quem quer que seja? Como se pode chamar ladrão da vida àquele que é o Dono da Vida?...

Pois, é! Pois é amigo ouvinte: Esta coisa de acreditar que a morte não acaba, e que começa uma nova vida depois desta vida... é tudo muito lindo... Só que, quando não houver fé... deve ser, mesmo, um "bico de obra"...

Quem não tiver esta esperança deve ser um pouco complicado...

Ainda hoje me recordo bem das palavras ditas por aquela moribunda que eu visitei um dia, no hospital:

-Eu não quero morrer...; Eu não quero morrer!

Pois é amigo ouvinte... Se a morte é tão natural - tão natural como inevitável - se é a consequência lógica de todo uma vida, porque teimamos, então, tantas vezes em fazer de conta que não damos conta e a viver da forma como vivemos?...

Pois é amigo ouvinte: É bem mais fácil, comprar por estas alturas umas flores, nem que nos custem o dobro; uma cera - mesmo que seja daquela que não deita fumo; gastar mais tempo na limpeza das sepulturas, ou estragar, até, um feriado... é bem mais fácil fazer tudo isto, num só dia, do que pautar todo o nosso viver pela seriedade e pela autenticidade, em todos os outros dias ...

E você, amigo ouvinte? Não concorda comigo?

Até quarta-feira, se Deus quiser!

1/11/95  

 Padre Júlio Grangeia