NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Suicídio: "É o que está a dar..."
Olá, amigo ouvinte!
Estava longe, mesmo muito longe, de imaginar que aquela simples pergunta, tão ingénua como inofensiva, pudesse ocasionar um autêntico "terramoto"; pudesse originar um desfecho daquele calibre...
Mas eu conto como tudo se passou.
Quando naquele dia da semana passada entrei no pavilhão "B" daquela Escola Secundária, para mais uma aula de Moral aos meus alunos, já levava, obviamente, a aula planificada, como convém. Iria ler a minha última crónica, que passou nesta Rádio na semana passada e como a mesma abrangia três temas de inegável interesse iria por certo ser uma aula interessante. De facto, falar da violação, do suícidio ou do relacionamento Pais-Filhos são sempre temas suficientemente fortes para que a aula não fosse uma "seca"- como eles dizem.
Depois de ter lido a crónica que, recordo, falava de uma aluna triste, violada por um tio, recambiada para casa de uma outra tia, desprezada pelos pais e odiada pelos avós, e que, por fim, tentou o suicídio, embora sem êxito... esta crónica deu azo às intervenções mais heterogéneas...
Uns porque queriam saber se esta minha aluna tinha sido mesmo violada e como; outros, porque a tentativa de suicídio lhes chamou mais a atenção, encaminharam mais nesta linha as suas intervenções...
Como quem não quer a coisa, até porque sei que, quem já alguma vez tentou, não o diz , nem o assume claramente (e muito menos diante de todo uma turma, como era o caso...) comecei a atirar "o barro à parede" com uma simples pergunta, como se esta fosse o mais ingénua possível...
- Ó pessoal... - comecei, assim, virado para os meus alunos - num "tu-cá, tu-lá" que eles já bem conhecem, para de seguida, e como quem não quer a coisa "atacar":
- Eu não vos vou perguntar se isto já vos passou pela cabeça ...até porque, mesmo que tenha passado nenhum de vós concerteza o vai dizer aqui.... pois não? - lancei, assim, amigo ouvinte, esta pergunta tão inocente como retórica...
Como ninguém tivesse acusado o toque, interpelei directamente, a Sara, que não se chama assim, e que se encontrava mesmo mais perto de mim:
- Por exemplo, tu, Sara, se tu alguma vez tivesses feito alguma tentativa de suicídio, concerteza que não o irias dizer aqui, pois não? Não mintas! Sê sincera! - Perguntei amigo ouvinte, plenamente convencido de que iria sair dali uma resposta a corroborar esta minha linha de pensamento...
Estranhamente ou talvez não, a Sara, esta minha aluna, antes de responder, fez uma pausa antes de responder. E, sem tirar os olhos de mim - dava até a impressão que só eu é que ali existia - começa resoluta:
- Ó, stôr... por acaso, e se quer mesmo que lhe diga, já me tentei matar, sim!
Foi, amigo ouvinte, como se uma autêntica "bomba" tivesse caída na sala. Um silêncio sepulcral pairou na sala, deixando atónitos todos os que lá se encontravam...
Depois de me ter recomposto perante esta resposta, tão simples como frontal e explosiva, continuei, ainda incrédulo...
- O quê?! Já tentaste matar-te?
- Ó stôr, já tinha tudo preparado...; A minha sorte foi que apareceu um colega meu ...
- Então, e querias matar-te, com quê, sua "taralhôuca"?! - Perguntei assim, brincando com a minha aluna até para que o ambiente não ficasse pesado demais...
Sorriu da "bôca" que lhe dei mas, sem perder o "fio à meada", respondeu de pronto; via-se que não estava a mentir:
- Ó stôr já tinha arranjado o remédio dos ratos e tudo...
-Ah! Ah! Ah... - exclamei - mostrando, assim, a minha incredulidade...
- Então, e o que te levou a isso, ó "Virgulina"? - Respondi, assim, com este jeito carinhoso, e com este nome que às vezes costumo chamar que, por ser caricato, tem sempre o condão de pôr as pessoas bem dispostas...
- Foram problemas do...do "coração"? - Expliquei melhor a pergunta, aludindo, assim, implicitamente, aos problemas afectivos típicos de qualquer Adolescente...
- Ó stôr...também... mas não só! Nestes momentos, "a gente" soma tudo: Foi de tudo um pouco... Entende?! - Lá respondeu, de uma forma serena a minha aluna, deixando a pergunta no "ar"...
- Ora esta! Quem diria...! Eu a falar dos outros... e afinal...- deixei amigo ouvinte, de propósito, a observação no ar para me virar para o colega que se encontrava ao lado da Sara:
- E tu, Rui, já agora, não me digas que tu também...?!-
- Ó stôr tentar não tentei ... mas pensar... às vezes...lá isso penso!
- O quê!? Queres ver, queres ver?! - respondi cada vez mais estupefacto... para concluir com uma tirada que diz tudo e não diz nada:
- "Corta" essa, "meu"!
E, já que estava numa de continuar a perguntar, virei-me desta vez para o aluno que se seguia:
- E tu, Marcelo...?
O Marcelo não respondeu. Mas o sorriso amarelo que patenteou, e o acenar da cabeça por duas vezes, confirmando-me a resposta, deixaram-me petrificado...
O quê?!! Também tu, Marcelo?!!!
Mais duas acenos com a cabeça ...dissiparam quaisquer dúvidas. Sim, o Marcelo, também já tinha tentado...
- Olha que esta... Quem ouvir falar...
Não me digas que foi, também, com remédio de matar ratos? - Perguntei amigo ouvinte, em "ar de brincadeira", até porque o caso, esse, estava a ficar sério, sério de mais, para o meu gosto...
- Não... stôr, não foi com remédio de ratos...mas olhe que estive mesmo num terceiro andar para me atirar de cabeça para baixo...
- O quê! O quê?! Ó minha nossa! Vocês dão cabo de mim?!
- Ó Marcelo... até tu?! - respondi, amigo ouvinte manifestando a minha perplexidade não só por ser o aluno que é - com uma forte personalidade - mas também, verdade se diga, por ser já o segundo, daquela turma, a dizer que tinha estado em vias de facto...
Só que a minha surpresa...ainda não iria ficar por aqui. Depois de continuar a interpelar, e de ouvir as respostas mais díspares, mas menos problemáticas; depois de ouvir uns a dizer que "pensar, pensar" já tinham pensado... mas que não tinha passado disso mesmo; depois de outros, a brincar terem dito, um categórico "NÃO" - dizendo que tinham mais que fazer - o que originou uma sonora gargalhada em toda a turma - foi a vez da Rute ser interpelada...
- E tu, Rute...?
- Já stôr... - respondeu, assim, de pronto, e com voz trémula a Rute para, acto contínuo, interromper a resposta. Não aguentou mais com a emoção. Os olhos marejados de lágrimas tinham atraiçoada a sua naturalidade. A Rute, sempre tão sorridente; sempre tão simpática; sempre tão amiga... estava agora a chorar; a chorar a sério. As mãos, tapando a cara que se encontrava pousada na carteira, dissipava quaisquer dúvidas para quem porventura ainda as tivesse...
Depois de um curto compasso de espera - que pareceu durar uma eternidade - esta minha aluna, já mais refeita, justificou-se:
- Ó Stôr prefiro não falar do assunto...- respondeu, assim, meio sem jeito, a Rute, com um sorriso forçado...
- Ó pá, tudo bem! Que ninguém se sinta obrigado a dizer o que quer que seja; Eu quando perguntei o que perguntei...também não estava à espera disto!!! - Foi a resposta séria, tão séria como autêntica que eu dei, verdadeiramente incomodado com a situação...
Numa turma de 20 e tal alunos... três já tinham tentado por termo à vida:
Uma, a Sara, tinha preparado, já, o remédio para matar ratos; para matar ratos mas que também mata gente; foi um colega que, sem o saber, e com um simples "olá"... evitou a tragédia:
Outro, o Marcelo, farto deste mundo tão Imundo, num "terceiro andar qualquer", farto de andar pelo "rés-do-chão" da vida... teve um lampejo de esperança... e teve a coragem de continuar a lutar pela vida ...e por um Mundo melhor;
Uma terceira..., a Rute, não foi capaz de explicar muito... mas por aquilo que disse e não disse, foi fácil adivinhar o muito que ficou por dizer...mas que se imagina!
Pois é, amigo ouvinte!
São jovens. São meus alunos. São pessoas normais como outras quaisquer...; Tiveram este momento de fraqueza... mas tiveram, também, a coragem de dizer o que não se diz e que muitas vezes se faz não por coragem...mas por cobardia; O facto de assumirem publicamente o seu acto, foi, se calhar, a forma mais simples que encontraram para dizer: Somos gente! Somos pessoas!
Sim amigo ouvinte! Que ninguém tenha ilusões! Nesta Sociedade egoísta, e para que não haja mais "Saras", "Rutes" ou "Marcelos", é preciso que haja quem perca tempo com os outros e que os saiba ouvir; é preciso que haja quem partilhe os seus problemas, aspirações e angústias; é preciso que haja quem saiba dizer um simples olá... Sim, amigo ouvinte, é fundamental; é condição "sine qua non" que não pensemos só em nós...mas que olhemos, mais na direcção dos outros...
...Para que o remédio dos ratos seja mesmo e só ...para ratos...
Não concorda comigo, amigo ouvinte?
Até para a semana
18 de Fevereiro de 1998
Rádio Soberania (99.3 Mhz)
Crónica difundida na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz), no dia 18 de Fevereiro de 1998 às 8.30 horas e 23.30 horas.