NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Há tanta gente que morre…

Poderia chamar-se, muito bem, João, António, Marco, Rui ou qualquer coisa parecida. O nome, aqui, pouca importância tem. Ele, O João, o João que pode ser Marco, também não se importa muito com o nome; nem com o nome …nem com nada: Tem doze, doze ou treze anos; também não sei ao certo; se calhar nem ele sabe! O que sei, mesmo, é que tendo doze ou treze, mais parece que tem sete ou oito…

Não sei, ao certo quanto pesa. Só sei que tem menos doze quilos em relação ao peso que deveria ter…

É um miúdo … miúdo, miúdo, entende amigo ouvinte? Muito franzino; magro que até mete impressão, e pequenino; muito pequenino: pequenino em estatura; pequenino na intelectualidade; pequenino no aproveitamento escolar…

Ele, que é assim, também não se importa; a mãe… muito menos. Veio ao mundo… ao calha; ao calha e por acaso. A mãe, alcoólica, ao calha e sem ser por acaso, vai com qualquer um; faz o que calha, e como calha; Bebe…bebe a torto e a direito; mais a torto que a direito…Bebe até mais não; bebe até dizer chega …

Um dia, a mãe do Marco que não é Marco, um dia que foi igual a tantos outros, esqueceu-se De tomar a pílula; pílula que toma quando calha e como calha; quando calha e quando se lembra; Naquele dia não calhou… nem se lembrou; o álcool que bebeu para esquecer, não a fez lembrar: e pronto: engravidou…e o Marco nasceu…

Hoje o Marco, tem doze, doze anos, mas parece que tem oito; Não é grande nem crescido. Pesa menos doze quilos em relação ao peso normal…

Vive a um canto; não tem amigos… mas todos se metem com ele: refila; chora, é malcriado…anda à bulha; anda à bulha com tudo e com todos…

Tem um curriculum especial; adaptado; mas, mesmo adaptado, tem que se adaptar ainda mais em cada dia que passa. O sucesso escolar é nulo, os progressos não existem; os professores já não sabem que fazer…nem que fazer nem como fazer…

Um dia destes apareceu na escola acompanhado do seu melhor amigo: um rato! Fala com ele, faz-lhe carícias; defende o bicho; luta por ele, e por causa dele …;

A mãe é chamada à escola… Ela que já foi chamada tantas vezes, e sem nunca comparecer, desta vez os professores tiveram sorte: Tiveram sorte… entende, amigo ouvinte?! Ela, a mãe do Marco que tem como amigo um rato, apareceu. Finalmente a mãe apareceu na escola. Não se sabe muito bem porque carga de Água; mas que apareceu...lá isso apareceu: Foi levada ao Conselho directivo.

Ao chegar lá, dispara de imediato:

Pois é, amigo ouvinte: O que é que se poderá dizer mais?

Poderia chamar-se Marco, João, Jaime ou Francisco. Tem doze anos…mas parece que tem oito! É pequeno…pequeno em tudo: no tamanho, no crescimento, no intelecto, no afecto e no amor… tem tudo em miniatura: até a mãe: Esta que engravidou por acaso, tem um filho que não quer. Este nasceu sem querer; é desprezado por querer; não tem amigos…; apenas um rato…; um simples rato, que acaricia a cada canto…

A mãe, mãe que o é, por acaso, não tem sorte: bebe para esquecer; anda com qualquer um; E foi um qualquer que lhe fez o filho; Filho que não queria; não queria nem quer…mas que tem que gramar ; só lamenta que não morra como tanta gente…

Não! Amigo ouvinte! Isto não se passa em África. Este conto de arrepiar, ao jeito de Hitckock, acontece aqui, na frequência da vida, na frequência da nossa vida, aqui, numa cidade do nosso país; neste país, que é nosso, neste país da Comunidade Europeia. Neste País que, ao que tudo indica, até está no pelotão da frente na corrida … à moeda única…; neste país em que, pelos vistos o que é importante é falar de… futebol…

Está tudo dito…

Não concorda comigo?

Até para a semana

20/11/96 

 Padre Júlio Grangeia