NA FREQUÊNCIA DA VIDA
"O IMPÉRIO DOS SENTIDOS"
Aquela Terça-feira foi mesmo diferente. No dia seguinte, e nos dias seguintes ao seguinte, não se falava de outra coisa que não fosse "O IMPÉRIO DOS SENTIDOS- o filme que a RTP2 exibiu, e que foi o "prato-forte" de conversas mais ou menos acaloradas;filme que, pelo teor das imagens exibidas, altamente eróticas, dividiu a opinião pública, mexeu com as pessoas...e suscitou viva polémica!
Induvitavelmente foi mesmo um filme interpelante -a avaliar pelas reacçöes que desencadeou: foram telefonemas, manifestaçöes, abaixo-assinados, pedidos de inquérito e de demissão, críticas; e até o governo foi posto ao barulho.A reacção das pessas,essa, foi também a mais heterógenea: Se é verdade que uns, a respeito do mesmo filme do realizador Japonês, diziam que tinha sido uma porcaria, outros houve,também que sustentaram que "que quem se sentisse mal que mudasse de canal"...
Uns alegaram que tinham visto apenas um bocado -pois não tinha história nenhuma - sustentavam- mas outros já diziam que já era tempo de perder preconceitos obsoletos e antiquados relativos ao corpo...
Que pensar de tudo isto? Terá a RTP o direito de se meter assim na casa de cada um ? Será que basta dizer que quem está mal que se mude? Mas mudar para onde? Será que existem alternativas válidas num sector que ainda é exclusivo?
É certo que cenas como aquelas que o filme mostrou se não são vistas na RTP que pertence a certos senhores, poderão agora, ser captadas via parabólica...Mas...e daí?! Será que isto chega para justificar?
Afinal de contas, quais os critérios que presidem a tudo isto?
Se há uns tempos atràs se insistia, a propósito e a despropósito, no preservativo, e se pedia para não cairmos "nessa"... ou naquela do violino a tocar...-e que tocava a horas do Vitinho e a horas do filme da " Sessão da meia noite"- e em que se recomendava,veementemente, para se lutar contra a promiscuidade como forma de prevenção contra a SIDA... então porque razão não se usa agora o mesmo critério? Será que o sexo oral das prostitutas da Estrada de Albergaria é diferente daquele que o Nagisa Oshima apresenta?
Será que colocar a "rodinha" no cimo do "ecran" resolve?
Não acicatará mais a curiosidade?!Querem "tapar o sol com a peneira"...ou quê?!
Não está em causa, na nossa modesta opinião, a técnica ou a qualidade do filme. Segundo a crítica especializada até é um bom filme e se não ganhou Oscares,ou Gremies...ou lá o que é...também pouco faltou. Ninguém põe isso em causa.
Pelos vistos,até tinha história,argumento, e uma filosofia sujacente que vem na linha de filósofos de nomeada.. como o Freud e companhia Lda.Mas será que isso chega?
Terá o cidadão comum obrigação de conhecer um Yung, Kikegard, Kant...Jean Paul Sartre ou um Shopenhauer para poder ligar o botão do televisor?
Não será necessário um outro tipo de formação?
Adiantará muito dizer que o filme tem mensagem se, por outro lado, a grande maioria não é capaz de a descodificar? Ou julgam que é despejando-a "`a balda" -e sem qualquer tipo de preparação- que ela entra?
Claro, o tempo do obscurantismo já passou! Por isso, vamos ver como os homossesuais fazem Amor, ou como as artistas fazem Streap-tease no programa do Letria... É esta a "lei do desejo" a receita que nos querem dar, senhores responsáveis?!...
Custava muito passar aquilo a outras horas? Será que os responsáveis que tem tão bom gosto na adaptação e feitura da RUA DE SÉSAMO-mostrando que conhecem os hábitos e a sensibilidade infantil..., porque se esquecem então de que às horas que passou aquele filme há
muitas criancas que continuam agarradas aos televisores...porque os pais também não se interessam...
Julgam que todos os meninos obedecem ao VITINHO?!
Ou será que o filme "O IMPÉRIO DOS SENTIDOS" também vai ajudar à desmistificação da história da Cegonha"?
Sei que não basta,porque não chega mesmo- dizer que a culpa é só da RTP...porque não é! O importante são os critérios de consciência que me vão levar a optar por aquilo que interessa de facto e a rejeitar aquilo que realmente deseduca. Mas então porque não se caminha mais nessa linha.
Não seria mais bonito formar as pessoas para saber aquilo que devem ou não ver? Não será esta tarefa mais prioritária?
Então, porque não fazem isso? Têm medo que ninguém veja televisão, não é ? Mas olhem que por este andar...
Sim as pessoas, podem ser tudo... mas parvas é que não são!
27.02.91