NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Era Domingo. O relógio marcava umas cinco e pico da tarde, mais coisa menos coisa Um senhor de meia idade, acompanhado de uma senhora, ainda nova, depois de tocar à campainha aproxima-se e, um pouco a medo, entabula conversa:
- O senhor é que é o Abade desta Freguesia?
Respondi que sim! No entanto, e a avaliar pelo tratamento- aqui, nesta terra, ninguém chama abade ao padre - induzi, imediatamente que não eram de cá.
-Olhe - começou por dizer o tal senhor - nós não somos de cá; somos da terra tal - e lá disse o nome esquisitíssimo da terra para depois continuar, dizendo ao que vinha - vínhamos falar com o senhor Abade acerca "de certas coisas", entende; daquelas coisas que só os padres podem fazer alguma coisa" entende?
- Ah Acerca..."de certas coisas"?! - Então mas que coisas? - perguntei fazendo-me despercebido mas, na verdade, amigo ouvinte, já tinha quase a certeza absoluta daquilo que tinha entre mãos...
- Sim voltou a explicar, sem jeito o nosso homem, sem nada dizer: Sim Acerca dessas coisas que são feitas por certas pessoas?!!-
- Mas está a referir-se a quê, concretamente. A Feitiçarias é isso?
-Sim, sim, acerca "dessas coisas". .. respondeu convictamente
Depois, como que aliviado por se fazer entender sem ter que pronunciar tema tão maldito que nem sequer a palavra era capaz de pronunciar, ainda explicou melhor:
Sabe como é, senhor Abade -eu, até, nem acredito nessas "porcarias"! Mas a minha filha, sabe, é que está um pouco "virada", para essas coisas; e, com franqueza, como já não sabia o que lhe havia de dizer, lembrei-me, então, do senhor Abade
Não é por mim - fez, mais uma vez questão de realçar o nosso homem; " a minha filha, sabe, é que anda com essas minhocas na cabeça...
E eu, amigo ouvinte, lá fui dando umas palavrinhas, sobre aquelas coisas, que eram "porcarias" mas que metiam minhocas na cabeça ...da filha. Da filha, claro!! Sim, porque ele não acreditava nessas coisas; Era só a filha, pois
Ainda hoje, amigo ouvinte, estou para saber porque carga de água se lembraram de mim, e ainda por cima, morando tão longe da minha Paróquia, como era o caso. Deve ter sido, concerteza, um engano e confundiram-me, por certo, com outra pessoa. De certeza. Até porque a minha posição relativamente a toda esta problemática da Bruxaria e feitiçaria sempre foi muito clara: A Psicologia explica tudo ou quase tudo; a sugestão nestas coisas é realmente determinante. E o que parece não explicar-se à base da sugestão a Parapsicologia encarrega-se de demostrar o resto. Ponto final! Ponto final...parágrafo! Pelo menos é isto que eu penso!
Não sei se o convenci nem se não; pelo menos saíram da minha casa, pelo menos aparentemente, com um semblante mais desanuviado! O sapo cosido na boca que lhe meteram em casa, juntamente com um monte de terra do cemitério, como manda o livro de São Cipriano pelo menos, aparentemente, já não metia tantas minhocas na cabeça... Sim o "sapo" já não metia minhocas, entende amigo ouvinte?
Mas dei comigo a pensar: Como pode existir tanto ódio, tanta maldade, tanta inveja? Como pode hoje, quase no século XXI, existir gente que ainda seja capaz de andar à cata de sapos para lhe coserem a boca, pensando que, com isso, fazem mal a terceiros? E como é que pode haver gente a quem os "sapos cosidos" ainda faça minhocas na cabeça?! Se este meu amigo do Norte, não acreditava nestas coisas, então porque tinha tanto medo a ponto de nem sequer pronunciar uma só vez o nome FEITIÇARIAS?!- que é o nome que efectivamente "estas coisas têm? Indubitavelmente, amigo ouvinte, as bruxarias e Feitiços e companhia L.da continua a ser TABU, conversa proibida, para muito boa gente e receita rentável, seguramente, para uns tantos curandeiros e outros que tais que, mesmo sem levar nada - como dizem "é tudo de graça"- o que é certo é que lá vão fazendo pela vida, explorando gente simples...
E o amigo ouvinte? Acredita? Não, não, responda a sério! Acredita mesmo...ou é daqueles que também dizem que eu não acredito nessas coisas mas que as há... há?!
Então e que dizer daqueles, que até se dizem cristãos, e tudo, que trazem pendurado , ao pescoço, o crucifixo mas que para que o conjunto fique mais composto o trazem acompanhado com chifres e meias luas...?!
E que dizer das ferraduras presas aos carros? E que dizer da relutância que muita gente tem em passar por debaixo de um andaime ou de cumprimentar em cruzado? E então que pensar daqueles que, em Sexta-feira - dia 13... quase que ficam doentes?!
E que dizer daqueles que só entram com o pé direito - e fazem mesmo questão nisso, ou de tantos futebolistas que depois de tocar a relva fazem uma benzedura à pressão que nome se dá a essas coisas?
Por isso amigo ouvinte, volto a perguntar: Acredita em Feitiçarias? É supersticioso?
Eu não acredito em nada dessas coisas. Mas se o amigo ouvinte é um dos que ainda acredita tem a minha compreensão mas acho que ainda está a tempo de se informar melhor
Não é por nada mas sabe é que há por aí, muito boa gente, boa entende?, gente dita de virtude, que pode andar a abotoar-se à sua custa...mesmo dizendo que não leva nada pelo serviço
Claro a gente acredita e tudo não é verdade, amigo ouvinte?
Não concorda comigo?
Até para a semana?
06-03-91