NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Chama-se Rosa! Ainda se chama Rosa!

Olá amigo ouvinte.

Poderia contar, hoje, uma história daquelas em que entra, muito amor, "sexo com força"...e , ou muito me engano, ou a audiência, essa, se calhar estaria garantida...

Poderia também falar do Bill Clinton - esse defensor dos direitos Humanos ...mas nos países dos outros, claro - e de preferência nos países onde há Petróleo... - e teria aqui um caso actual, que vinha mesmo a calhar para estas Crónicas que tem uma frequência semanal...

E já que estou a falar do Clinton ... acho que uma crónica sobre as suas propaladas amantes, ou sobre os ditos sinais particulares que o mesmo terá , também era capaz de tornar esta crónica mais apetecível e com um sabor mais... mais ao gosto do "Herman Enciclopédia"...

Sim... amigo ouvinte: dava, por certo, uma boa crónica: actual, polémica, apimentada, "qb" ; seria se calhar até, daquelas crónicas que se iria escutar de fio a pavio... para não se perder pitada e muito menos as cenas dos próximos capítulos...

Mas não! Não vou falar do Bill Clinpton que se preocupa com os direitos humanos dos outros e esquece as suas penas de morte - uma coisa sem qualquer importância nos nossos dias...; Não ...não vou falar disso nem na reviravolta dos Americanos que tanto o querem deitar abaixo, por andar, ao que parece, "deitado" demais, como, passadas horas, o aclamam como o "maior da cantareira" só porque se armou em defensor do "petró...", perdão, dos direitos Humanos...; dos "Direitos Humanos"... entende, amigo ouvinte?

Pois é, também era capaz de dar aqui uma boa crónica; uma crónica "à maneira"...

Mas não! Não vai ser para hoje. Deixo essa tarefa para as revistas da especialidade; aqueles que explicam tudo, tudo, tudo; que explicam até que não se engravida só porque se dá um beijo...

Pois é... Meu caro Bill Clinpton tenho muita pena... mas hoje, aqui nesta rádio, vou falar de alguém muito...muito...muito mais importante do que tu. Vale muito mais do que tu, que todas as tuas Assistentes ou Estagiárias; que todos os teus eventuais, reais ou potenciais affairs; Affairs...pois claro; nós quando queremos dizer ... sem dizer... falamos em... Affairs; sempre é mais Chic...

Mas... adiante! Vamos então ao caso de hoje... até porque já falei de mais de quem não merece tanta conversa...

A nossa protagonista hoje, tem uma história simples de contar ... mas é uma história chocante; REALMENTE chocante! É, amigo ouvinte, uma grande Mulher, esta de que lhe vou falar; Uma MULHER com as letras todas maiúsculas...

Chama-se Rosa. Tem 80 anos. Sim 80 anos. Ficou viúva há pouco tempo. A sua vida que não tem sido nada fácil virou, agora,  um Inferno; Um autêntico Inferno...

Como qualquer mulher, de 80 anos...  a Rosa já não tem ilusões; Ela que nunca as teve...agora muito menos as tem...; ela  sabe, agora, muito bem, o que é; sabe muito bem como o filho a trata:

"Dia sim, dia sim"... é sempre a mesma história; é sempre o mesmo drama: A Rosa é a própria desgraça personificada: os seus dias são tristes; "tristes como a noite"... até porque as noites, as suas noites, essas, são sempre passadas em claro...; em claro como os dias; dias que para ela são sempre iguais; muito iguais: Ou porque as dores lhe dilaceram os ossos; ou porque o filho entra tarde; ou porque vem bêbedo "como uma porta"; ou porque gasta o que tem e o que não tem...; ou porque lhe chama aquilo que a mãe nunca foi...

Uma tragédia...

- Ó ti Rosa; Saia desse inferno; vá para junto de quem a quer tratar como merece...

Foi este, assim, o apelo que recebeu; que recebeu e que continua a receber; O apelo de alguém que sabe da sua "vida", que sabe o que sabe, mas que não pode saber o que sabe ... e que sofre tanto como ela...

Mas não. A Rosa, viúva de 80...está velha; velha como os trapos; velha demais para sair agora de casa; do seu canto ...que apesar de singelo...sempre é o seu... canto; sempre é a sua casa...mesmo que esta seja como é...um inferno !

Sim, amigo ouvinte! A Rosa que morre aos poucos ...é mesmo ali que quer morrer; é ali que quer morrer até porque é ali, mesmo, no seu canto, na sua casa, que o filho, o seu...filho  a vai matando: com aspas e sem aspas!

Não deve aguentar muito: ela que tanto aguentou... não deve aguentar muito mais!

As agressões de que é vítima, os pontapés que leva do filho, que joga e bebe, bebe e joga, que se deita de dia e sai de noite, já fizeram estragos demais...; Ela, a Rosa, viúva de 80, apesar de os sentir...se calhar já nem os sente!

Sim, amigo ouvinte: a Rosa, de 80 não deve aguentar muito mais...

A semana passada , então... foi apenas mais uma cena da sua vida; vida  que daria, seguramente, para uma longa metragem; e que encaixaria como uma "luva" na "Pancada da meia-noite"- porque de pancada também se trata!

Às 6, às seis da manhã... , depois de o filho ter entrado em casa, e de ter aberto a porta a pontapé, depois de uma noite passada sabe Deus onde, como ... e com quem...; na semana passada, dizia eu, semana igual à anterior e parecida com a seguinte, o drama voltou a acontecer...

- Ai Jesus ! - Grita a Rosa de 80 anos, sobressaltada...com o barulho do estrondo da porta!

O que ela foi dizer...

- O que é que tu queres sua velha - grita furioso, com voz etílica, o filho...o filho...para a mãe..., o filho a cair de bêbedo...:

- Cala-te sua velha! - Cala-te...se não apanhas nas "trombas"

A Rosa que é mãe e que não tem trombas ...calou. Mais uma vez calou. Calou e cala! Como sempre o fez...

Como sempre faz não fala; nada diz! Se falar... já sabe com o que conta!

Sim, amigo ouvinte! A Rosa não fala! Também não precisa de falar e de dizer aquilo que todos já sabem...; o que todos sabem mas que fingem não saber: Os vizinhos ouvem muito bem o que é dito...; ouvem o que é dito... e como é dito...

Antes que lhe aconteça algo pior... a Rosa, viúva, velha de 80 anos, cala e chora em silêncio;

Chama-se Rosa!

Tem 80 anos!

É viúva há pouco tempo.

Não quer sair do seu canto; Não aceita o que é melhor para ela; Não aceita o que os amigos lhe oferecem...

-Ó tia Rosa! Venha para minha casa - diz-lhe alguém...

A Rosa não vai! Não quer ir...

Afinal de contas ela está na Sua casa; no seu canto!

É ali que ela se sente bem ...mesmo estando mal; muito mal!

Chama-se Rosa...

Ainda se chama Rosa...

Mas...amigo ouvinte... até quando?

Até para a semana!

 Padre Júlio Grangeia

4 de Fevereiro de 1998