NA FREQUÊNCIA DA VIDA
AMOR À LEI DA BALA
Chama-se Tânia. O amigo ouvinte que me escuta, assiduamente, aqui, nesta frequência às Quartas-feiras, já me ouviu falar dela. Lembra-se daquele caso que eu lhe contei de uma menina, de oito anos, que me telefonou, por altura do Natal, para eu falar com a mãe que andava muito triste, porque não queria que mãe passasse um Natal triste? Lembra-se? Lembra-se, pois! Não se lembra que ela até me pediu para não dizer à mãe que tinha sido ela a telefonar para que a mãe não desconfiasse de nada? Deve lembrar-se, concerteza!
Ora bem, se eu lhe conto tudo isto, é porque a Tânia, a Tânia que como deve calcular não se chama assim, voltou a telefonar. E desta vez, para não variar, de novo por causa da mãe; Dada a preocupação que ela sente pela mãe, mais parece que a filha de oito anos é que é a mãe da mãe. Desta vez, a mãe da Tânia, para não variar, anda de novo triste; muito triste. E se calhar, desta vez, a dar crédito à Tânia, à sua filha, desta vez, deve ter mesmo razões para andar "em baixo" até porque o caso não é para menos
Estava no meu escritório a preparar aquilo que iria dizer às minhas Comunidades Paroquiais, até porque a Eucaristia iria começar dali a uma hora, quando o telefone toca. Não foi difícil reconhecer a Tânia.
E sem delongas, sem grandes introduções, foi logo directa ao assunto:
E eu, amigo ouvinte, entendi; entendi o que não se pode entender! Como é que se pode entender que em pleno século XX, às portas do século XXI, ainda haja maridos que, por mais e melhores razões que tenham, possam bater naquelas que juraram amar para toda a vida? Como é possível? Por isso, digo; digo e repito: Entendi o que não se pode entender Entendi porque infelizmente vai sendo o "pão nosso de cada dia" as agressões mas não entendi porque de forma alguma me posso conformar que a frequência de um acto o possa legitimar. E mais emocionado fiquei por ser, mais uma vez, uma criança de oito, nove anos, e quem diz nove pode dizer sete, a ser mais adulta do que aqueles que apesar de serem adultos na idade, na cronologia, nem sequer chegam aos calcanhares desta criança na responsabilidade
Como o amigo ouvinte deve compreender, uma pessoa fica sem palavras por mais argumentos que possa ter "a priori". Que argumentos se podem dar a uma criança, que nos pede ajuda, para ajudar a mãe que anda triste e que se fecha no Quarto?
Pois, é! É de ficar sem palavras, não é? Por isso, para me aperceber melhor da situação, mas também- verdade seja dita- para ganhar mais algum tempo- ainda lhe perguntei o porquê, o como, as circunstâncias - nós os adultos são muito complicados; queremos sempre saber as razões de tudo. Por isso perguntei:
Chama-se Tânia. Telefonou ao padre que conhece a mãe, para o senhor padre lhe ensinar o que ela, filha, filha de oito anos, devia dizer à mãe; ela, a filha, a Tânia, tem oito, nove anos. É criança mas já é muito adulta; é mais adulta do que o pai; muito mais; sem qualquer comparação. Ela não quer, como qualquer filha, ver a mãe triste; e muito menos fechada no quarto. Telefonou-me porque não quer que a sua mãe passe este fim de semana trancada no quarto.
E lá me foi contando alguns dos motivos que ela Tânia foi descortinando e que para ela são a causa deste desaguisado; eu adivinhei o resto o que ficou subentendido e que uma criança de 8 anos, por mais adulta que seja, ainda não pode supor nem imaginar que os ditos adultos sejam capazes de fazer. Como o amigo ouvinte deve imaginar são os velhos motivos anormais que dada a frequência com que acontecem passam facilmente a normais e naturais: a ciumeira exacerbada, o "dizque disque" ; o querer que a mulher esteja seja pronta para aquilo que está a pensar- independentemente de querer ou não ; de estar ou não com vontade etc, etc, etc
E o grave da questão é que as ameaças para já por aquilo que tive ocasião de averiguar, já metem armas pelo meio. E então, para que ninguém se fique a rir, é ele que já tem uma arma, para que os seus argumentos passem a Ter outra convicção convicção, entende? E ela, a mulher, a agredida, a mãe da Tânia, porque não quer ficar para trás, e porque, pelos vistos, "amor com amor se paga" também já arranjou quem lhe comprasse uma outra. Que é por causa das coisas
Sim ainda não entende estas coisas da gente dita adulta e que se arma em crescida.
A Tânia não sabe. Se soubesse teria certamente dificuldade em entender
E quem poderá entender? Quem poderá entender que quem jurou fidelidade, amor e essas coisas todas que aparecem escritas no ritual do casamento, possa passar, agora, por um revólver de calibre não sei quantos?
Ai Tânia, Tânia! Que pena teres os pais que tens!
Até para a semana, amigo ouvinte!
29/05/96