Na frequência da Vida!
Ele a si, ouve-o melhor!
Olá, amigo ouvinte!
O tempo estava chuvoso naquele dia em que tinha combinado ir almoçar com o Daniel. Ele queria muito falar comigo mas não queria que fosse na minha casa, na casa Paroquial de Travassô. Por isso, foi, mesmo, no restaurante o nosso local de encontro. Desse encontro saiu a história que lhe contei há semanas atrás. Lembra-se? A História do Daniel que depois de estar casado 5 anos com a esposa que não sabia ser mulher, se meteu depois com alguém que sabia ser mulher...mas que ainda era menina; tinha – e tem – só 15 anos e pinta as unhas de preto...
Pois é!... Contei a sua história mas muito mais haveria que contar. Haveria muitas mais “cenas dos próximos capítulos”... – como agora se vai dizendo, a propósito das muitas telenovelas que vão passando nas nossas “Tvs”...
Só que essas coisas ... guardo-as só para mim, como o amigo ouvinte por certo entenderá. Por uma questão de respeito para com a pessoa que falou comigo...
Naquela tarde, enquanto estava a almoçar com o Daniel e onde ele me explicava o motivo porque tinha trocado a mulher que não o sabia ser... por uma menina que era mulher sem ainda o ser... - pois só tinha 15 anos...- aconteceu, e logo no mesmo dia ...um outro caso; caso para outra crónica: esta, mesmo, que agora lhe passo a contar:
Apesar de escolher um restaurante recatado, e que não “desse muitas nas vistas”, eu já tinha obrigação de o saber: estamos numa “aldeia global”; quando menos pensamos... zás!... encontramos gente conhecida. Foi o que aconteceu...
De volta de uma garfada, e enquanto ouvia os lamentos do Daniel, uma voz ecoa no restaurante:
- Olá Padre Júlio!? Qualquer dia tem que me confessar... – lá falou assim, com ar de gozo, aquela voz familiar, e que se encontrava acompanhado de uma outra pessoa que me era desconhecida.
- Pode ser?! – Lá perguntou, de novo, a rir, com o som da voz a atingir “decibéis” pouco recomendáveis para um local como aquele. Tanto foi assim que muitos, que se encontravam a comer ao lado, olharam na minha direcção...
- Oh ... “minha Nossa”; ainda mais esta agora! – Lá pensei eu com os meus botões. No entanto, e para não o “deixar sem troco”, lá retorqui:
- - Muito bem, sempre às ordens. Mas quando for isso avise-me e... traga um leitão ...porque, se calhar deve dar para uma tardada – respondi, eu, assim, também em ar de brincadeira...
- Porque eles são tantos, não é? – Lá perguntou o meu interlocutor, bem disposto, percebendo a piada, para de seguida, falar, então sim, com ar sério:
- Não... agora a sério... Temos que conversar acerca de “umas coisas” – Lá respondeu de novo, e assim, deixando o assunto de “umas coisas” em “suspense”...
A conversa, essa, ficou por ali...até porque estavam já à espera da “dolorosa”... ; do recibozinho respectivo...
Quando saíam, ao passar pela mesa onde me encontrava, lá se despediram:
- Então boa tarde e bom apetite! – Desejou-nos este meu amigo que queria... confessar-se ...– dizia ele...
- Depois falamos...- Lá respondi, também, eu, desta maneira...
Continuei a conversa com o Daniel e nunca mais lhe pus os olhos em cima...
Quando já estava no café... alguém, precisamente o amigo que estava ao lado daquele que dissera, em ar de gozo, que queria confessar-se, aproxima-se de mim, de mansinho, toca-me no ombro, e pergunta:
- Pode dar-me uns segundos da sua atenção?
- Claro, tudo bem- respondi eu, enquanto me levantava da mesa, pedindo ao Daniel com quem eu estava, que me desculpasse e que aguardasse uns segundos...
- O Senhor desculpe... mas o senhor é padre não é?! – Perguntou o desconhecido.
- Sim, sou padre, sim...
- Olhe Senhor padre! Não o conheço... e o Senhor também não me deve conhecer... – começou, ele, desta maneira, para, de seguida, se apresentar.
- E Então?! Lá respondi, assim, com esta palavra que diz tudo e não diz nada...como que a perguntar: “Então...o que é que se passa”?
- Olhe, senhor padre... - começou ele assim a contar, a um canto do restaurante:
- Sabe... queria pedir-lhe um favor! A minha vida não tem andado nada bem... e ultimamente o meu casamento passou por uma grave crise...
- E então? Que favor? – perguntei...
- Sabe, como o Senhor é padre, a sua oração deve valer mais do que a minha... – começou ele a dizer, com voz séria, para de seguida, e acto contínuo, dizer de uma pequenada ao que vinha:
- Sabe a minha mulher... como lhe hei - de dizer... “engraçou” com outro Homem... e pronto! – Respondeu assim aliviado por já ter passado pela parte mais difícil! Nunca aquele ...“pronto” dissera tanto em tão pouco tempo!
- Como deve imaginar as coisas não tem sido fáceis até aqui... mas já estiveram piores! Estamos a ver se conseguimos agora compor as coisas, entende?!
- E então? – Lá falei... só para não estar calado...
- Agora – e depois que eu fui a Fátima...- as coisas estão a começar a endireitar-se...mas se o senhor padre... – e era este o grande favor que eu lhe queria pedir... - ...se o senhor pudesse rezar por nós, era um grande favor que nos fazia! Sabe, como o senhor é padre, Deus, a si, deve ouvi-lo mais depressa – respondeu assim e por fim, com um ar suplicante...
- Vai Rezar por nós, não vai? – Perguntou, de novo, para, de seguida, acrescentar:
- Fico-lhe extremamente agradecido – respondeu-me assim aquele homem, bem falante, com ar de pessoa importante, mas com os olhos marejados de lágrimas.. Depois, como que a justificar a razão porque se estava a humilhar diante de um desconhecido, que acabara de conhecer no restaurante, mesmo sendo padre, ainda complementou:
- Sabe, senhor padre, gosto muito dela! Acho que ela merece que eu a desculpe! Deslizes todos nós temos, não acha? – Respondeu assim ansioso por uma resposta afirmativa da minha parte, uma resposta que viesse de encontro aquilo que ele pensava...
Disse, “sim, senhor”!, que iria rezar por ele, elogiei a capacidade de perdão que este homem demonstrara... e nunca mais o tornei a ver...
Não sei quem é, o que faz, nem onde mora. Ele também não me conhecia “ mais gordo ou mais magro”. No entanto, casualmente, encontrou-me no restaurante. E foi mesmo ali que abriu o coração, ao padre, a um canto do restaurante: A sua mulher tinha “engraçado” com ...outro... só que ele estava disposto a perdoar. A perdoar o deslize que ela tivera. Não estava a ser nada fácil. Mas gosta dela... e pronto! Quando se ama ...tudo se perdoa. E foi ali, no restaurante, que pediu a ajuda do alto...para este golpe baixo. Socorreu-se do padre, como intermediário, para fazer chegar mais depressa, e melhor, o seu pedido, a Deus, ao Deus do Amor...para que Deus o ajudasse a endireitar aquilo que ficara torto; o que ela queria, mesmo, era recuperar a mulher que amava e que ainda ama, apesar do deslize!
Ele fez a sua parte. Não foi fácil nem é fácil...mas perdoou à mulher. Foi a Fátima pedir ajuda. Ganhou outra força.... Pedia agora ao padre uma “forcinha” suplementar: a oração do padre, porque é padre, deveria ter outra força junto de Deus – pensava ele. E foi mesmo ao padre que ele recorreu, a um canto daquele restaurante!
Não o conhecia. Não o conheço. Encontrou-me no restaurante. Foi mesmo lá que se confessou e me pediu para pedir por ele, e pela mulher que ainda ama ...
Não sei como se chama. Só sei que me pareceu ser...um grande homem.
Não concorda comigo, amigo ouvinte?
Até para a semana.
Padre Júlio Grangeia
16 de Dezembro de 2002