Na Frequência da Vida
Um “ranhoso” queria apalpar-me!
Olá, amigo ouvinte!
Naquele dia, quando entrei na sala de aulas, estava com um bocado de receio. O assunto que eu ia abordar era um bocadinho complicado. Já estava, por isso, mentalizado que, se calhar, aquela não seria, seguramente, uma das aulas mais interessantes. Por isso, um bocado “à defesa”, e procurando “fazer render o peixe” pelo lado mais interessante possível, para esta malta nova poder agarrar, lá fui dizendo:
- “No meu tempo não era nada disto!...” - Qual de vocês é nunca ouviu os pais dizer isto?
- Oh “stôr”, quantas vezes; nem me fale!!!... – lá respondeu, de imediato, a Elisabete.
- A minha mãe até mete impressão. Está sempre a repetir essa frase...que eu até me “passo” – lá respondeu, desta vez, a Carla, para de seguida perguntar:
- Então... Eles não têm olhos na cara?! Não têm Televisão!? Não vêem que estão num tempo diferente...?! – lá interpelou assim, desta forma insofismável e meio revoltada a minha aluna...
- Pois é, pois é... mas sabem que, quem já tem uns aninhos..., e vive agora num tempo como o vosso ... que é tão diferente do tempo deles... é natural que estranhe...
- Por exemplo – e lá aproveitei eu a “deixa” para entrar no assunto “chato”- Vocês que vivem neste tempo... Que coisas boas é que encontram ... no vosso tempo.... para mais tarde dizerem aos vossos filhos? Sim... Não pensem que vão ser diferentes dos vossos pais nesta matéria. Irão também repetir muitas vezes aos vossos futuros filhos o que agora ouvem dos vossos pais...
- Que coisas boas? Não estou a perceber... - lá perguntou o Diogo
- Oh pá ... neste tempo há muitas coisas boas que não existiam no tempo dos teus pais.... Quais são essas coisas boas que hoje existem e que não existiam antes?; é um pouco isto aquilo que eu estou a perguntar...
- Oh “stôr”... sei lá... Coisas boas...coisas boas.... sei lá... a informática...; a informática é uma coisa boa que existe hoje e que não existia no tempo dos meus pais...
-Sim senhor... e que mais? – lá continuei a espevitar...depois de valorizar a resposta dada.
- As descobertas a nível da genética.... como a clonagem... por exemplo - lá concretizou, assim, o Nuno Miguel...
- Sim... há muitos avanços nessa área da genética... e muitos desses avanços são positivos, sim... Então... e que mais...?
- Ó “stôr”, hoje há mais liberdade... Há mais liberdade e a todos os níveis; hoje fala-se de tudo na “boa”; acabaram-se os “tabus”, as conversas proibidas...! – respondeu assim a Andréia.
- Há mais liberdade?!! Há mais liberdade?! Não sei, não! Não sei não! – interpelou, assim, e de pronto a Ana, para, de uma forma concludente, se sair com esta tirada:
- Há, há!! - respondeu ironicamente para, acto contínuo se sair com este argumento de peso:
- Então vai dizer isso à minha mãe... para ver se ela me deixa sair mais vezes – respondeu, de pronto, a Ana, Ana Catarina para ser mais preciso – uma aluna que se “passa dos carretos” quando,por esquecimento, lhe chamo Catarina... É que ela do nome Ana até gosta; agora de Catarina ... fica uma fera vá-se lá agora saber por quê!
- Há mais liberdade... sim...- lá argumentou, desta feita, a Joana Filipa.
Depois, para justificar o que havia dito ainda concretizou:
- Há mais liberdade em tudo... Até demais, às vezes! – lá concluiu a minha aluna do 11º ano de Moral...
- Oh Joana... estou admirado! Até parece que nem és uma jovem deste tempo a falar!...
- O stôr não vê os putos do 7º ano?! O que eles dizem... e o que eles fazem?... Eu até me “passo”... - Respondeu assim a minha aluna para, de seguida, exemplificar:
- Olhe, na semana passada...um “ranhoso” do 7º ano até me queria apalpar... ! A mim...!!! imagine?! O parvalhão... – lá rematou assim a Joana, visivelmente transtornada por ter sido... assediada por um aluno do 7º...; ela que anda no 11º...
Depois, para não deixar os seus... “créditos”... por... por “mãos alheias”, ainda rematou... desta forma indefensável:
- Se ele não fugisse... dava-lhe um estaladão...- explodiu inconformada a minha aluna, para de seguida, como que a reviver a cena, ainda foi “resmordendo”:
- E o Stôr pensa que era um “matulão”?! Era um “lingrinhas”...imagine! Eu até me passei! Ai se ele não fugisse; se ele não fugisse...
- Ainda bem que fugiu... senão passavas a ser uma pedófila – respondeu assim, e desta vez o Ricardo, com ar maldoso, fazendo que a turma soltasse uma gargalhada!...
A Joana, com cara de poucos amigos, lá soltou, também ela, um sorriso “amarelo”, e, entre dentes, e com o trejeito facial respectivo, lá lhe dou o “trôco”:
- Que piada! És tão engraçadinho!... – lá respondeu ela, assim, ironicamente...
Já com os ânimos mais calmos, lá concluiu a sua opinião:
- Hoje, estes putos não têm educação nenhuma; É só “queques”!!! O stôr já viu agora as mochilas deles?! Só mochilas de “marca”; Não têm educação nenhuma! Passam à nossa frente para o bar e para a cantina...”na maior”... onde é que isto se viu?!
Apesar de reconhecer que a Joana tinha alguma razão, lá acabei por concluir:
- Pois é! Estão a ver?! Vocês falam dos vossos pais... que não vos entendem... pois – dizem vocês – eles estão sempre a lamentar-se e a dizer que no tempo deles é que era... E vocês?! Já viram que nem sequer são capazes de entender os miúdos do vosso tempo?! Se vocês não entendem a geração mais nova do que vocês – com menos três, quatro anos...- como é que querem que os vossos pais vos entendam facilmente, eles que têm mais de vinte anos de distância?!...
- Oh stôr...É diferente... É diferente... - lá respondeu, assim, a Joana, só para não estar calada... mas a pensar, seguramente, naquilo que lhe acabara de dizer...
Pois é, amigo ouvinte, pois é! Estamos indubitavelmente num tempo diferente! Com muitas coisas boas...mas também com muitas coisas más! Sempre foi assim! Sempre assim será! Só que, se calhar, as mudanças, agora, são muitas e acontecem muito mais depressa... o que, seguramente, complica mais as coisas! Mais do que nunca é necessário, se calhar, estar, mesmo, com olhos bem abertos... para não fazer...só porque os outros fazem!
Mas... será que tudo mudou mesmo?
Não haverá por aí muita gente, nova e menos nova, a chamar intolerante a quem pensa ou actua de uma forma diferente quando, se calhar, e bem vistas as coisas, aquilo que se passa nas suas próprias vidas não é assim tão diferente?!
Já Jesus Cristo o dizia:
- “Porque teimas em ver o argueiro que o teu irmão tem na vista se não és capaz de ver a trave que está na tua?”
Se calhar até tinha razão...
Se calhar continua a ter razão!
Não concorda comigo?
Até para a semana
Padre Julio
21-10-2002