NA FREQUÊNCIA DA VIDA

É RAINHA... e não esteve na noite de Reis...

Pois, é, amigo ouvinte! Estou cada vez mais convencido! Somos, mesmo, um país muito pequeno! Como se isto não bastasse, ainda há quem teime em nos considerar mais pequenos do que realmente somos! Não há mesmo volta a dar. Não, não sou, nem quero ser, como aqueles pessimistas militantes que, por tudo e por nada, dizem mal de tudo e principalmente de tudo aquilo que é nosso... Não... Não sou nem quero ser! Mas, verdade verdadadinha, às vezes é preciso fazer, mesmo, um esforço ciclópico para não embarcar na cantiga daqueles que,apesar das suas responsabilidades, ainda nos fazem mais pequenos do que realmente somos...

O amigo ouvinte já reparou! Primeiro foi o nosso amigo Herman José: Foi a roda da sorte; depois, foi o com a verdade m’enganas; agora é o parabéns;

Com o Marco Paulo acontece a mesma coisa: Começou com os dois amores e agora está-nos a dar música; no coração, ao que tudo indica; pelo menos é o que indica o programa. Com o Roberto Leal, idem aspas, aspas... e então, e é aqui que eu quero chegar, o que é que nós vemos: O Marco que já fez dois ou três programas é agora convidado para a noite de reis ou qualquer coisa parecida; Enfim... vira o disco...

É também o Roberto Leal que quem convida não sei quem por depois ser convidado por quem convidou; E canta. Canta e encanta e chora e emociona-se; e dança, todo de branco e de paletó... E canta o hino Nacional e emociona-se; emociona-se e... transpira. E conta casos e mais casos que nos fazem arrepiar a alma. Depois é o herman: Depois da Roda da sorte e com a verdade me enganas são os parabéns. E aparece, também, como se isto não bastasse no programa do Marco a cantar e a mostrar as cuecas. Enfim: o nosso Herman sempre igual a si próprio...

Bolas: Não é por nada... Mas será que no nosso País não temos mais ninguém do que o Marco que vai ao Parabéns e que convida o Herman para os dois amores? Será que depois dos dois amores e da música no Coração ainda temos que ver o Marco na noite de Reis a dizer que se sente muito bem em estar solteiro?

Será que o Roberto Leal, depois do Show em que se autopromove- para além do cachet que recebe...- ainda precisa de ir a não sei mais quantos programas em tantos outros canais? Percebe amigo ouvinte, porque digo que somos um país pequeno... e que há quem queira que ele se torne ainda mais pequeno?

Não haverá por aí mais nada? De novo? De novo e de jeito? E de original?

Será que continuamos no viró disco... Até quando? Não haverá por aí mais nada ou alguém de jeito?

Julgo que sim. O problema, se calhar, é que ainda não fez nenhum programa na televisão, porque, se o fizesse, faria se calhar mais uns dois ou três logo a seguir, seria convidado para um quarto, e cantaria um playback qualquer, num quinto: programa, ou canal, porque nestas coisas, nesta guerra de audiências está mais que provado: Em que equipa que ganha não se mexe... E não interessa quanto ganha... desde que mexa...

Mas será que é só isto o que conta? Julgo que não; Tenho a certeza que não!

Chama-se Maria do Rosário... É uma mulher cheia de anos; de anos e de maus tratos. É uma mulher que vai vivendo... vai vivendo a vida; a sua vida e a vida dos outros; a vida dos outros que vai procurando ajudar.

Visita quem sofre; defende quem é injustiçado; E refila por vezes até; refila por aqueles que não tem voz...; Nem voz nem vez...

Um dia destes estive a falar com ela...

De tanto pensar na vida dos outros esqueceu-se da sua. Caíu doente. Gravemente doente. Não tem cura. O seu remédio para as doenças dos outros não serve agora para ela; nem para ela nem para a sua doença.

Olhar encovado, pálida... Está magra que até mete aflição..

Então, Maria! Onde está essa força?- atirei para a provocar; para a espevitar...

Nada: apenas um sorriso: um sorriso amarelo. E uma fala: apagada, surda, quase inaudível...mas cheia de convição:

Sabe, senhor padre! Ele sofreu mais do que eu...

Ele... Ele, entende amigo ouvinte. O amigo da Maria, que morreu há dois mil anos... mas que ainda está vivo e que foi a razão do seu viver, é agora a sua força; a força para não morrer...; pelo menos por agora!

Chama-se Maria. Não teve nenhum programa na televisão; Não convidou para ser convidada... Não é notícia de cacha alta; nem de cacha alta nem de cacha baixa. É apenas uma mulher simples; simplesmente simples e, porque o é, é importante...

Não teve nem foi convidada a participar em nenhum programa de televisão. Para mim, no entanto, ela tem mesmo musica no coração; é rainha ... e nunca esteve na noite de Reis.

Até para a semana!

 Padre Júlio Grangeia