Fazer uma
promessa para o marido morrer...
Olá, amigo ouvinte!
Já não é a 1º vez que esta senhora me telefona. Não a conheço de lado nenhum nem tão-pouco sei como ela se chama. No entanto, a propósito e a despropósito, lá vai ligando para a casa paroquial de Travassô, “ volta e meia”; volta e meia e meia volta: já perdi a conta...
Agora que já conhece a
minha voz nem perde tempo a identificar-se: Logo que se apercebe que sou eu que
estou ao telefone...zás... começa logo a “desbobinar”; Não está com “meias
medidas”: Nem pergunta “está lá quem fala!” Qual quê! Vai logo directa ao
assunto que a traz...mesmo que não tenha qualquer assunto! O que ela quer,
mesmo, é falar: Uma vez porque, diz
ela, “ tem uma dúvida”; outra... porque quer “saber a minha opinião”... ; outras vezes porque – diz ela- “quer dar
um conselho a uma amiga”! Tudo serve para telefonar ao padre!...
Eu, amigo ouvinte,
habituado que estou a ouvi-la ao telefone... já a conheço! Já a conheço sem a
conhecer....
Pelo “andar da
carruagem” penso que estará na “casa”
dos 60...ou até setenta... não sei.... ;Se for verdade aquilo que ela
diz...mora em Lisboa... e pronto: é tudo o que sei! Não sei se é solteira,
casada, viuva ou divorciada... Enfim, posso dizer que a conheço! Já a
conheço... sem a conhecer, entende?
Nunca me esqueço do
primeiro telefonema que ela me fez há já uns meses largos atrás:
-
Está? ...está lá!?
É o senhor padre? – perguntou ela. Depois, para se certificar que era
mesmo eu... lança a pergunta certeira:
-
Mas é o senhor padre da Internet...?
Eu, amigo ouvinte,
habituado que estou a que me tratem às vezes desta maneira, lá disse que sim...
Pronto! Foi tudo o que
precisou de saber...como se a internet fosse a solução milagrosa; E vai daí...
foi um “ver se te avias”: Qual apresentação... qual quê; foi logo directa ao
assunto:
-
Olhe senhor padre; o senhor não me conhece; eu moro
em Lisboa. E lembrei-me de si para lhe pedir um conselho... - e zás...lá
“começou ela a desfilar uma série de peripécias que numa mais tinham fim à
vista...
E
falou...falou...falou...
Da última vez esteve,
seguramente, mais de três quartos de hora a telefonar... e para o telemóvel! E
o amigo ouvinte pensa que eram assuntos urgentes, problemas “bicudos”?!!
Não! Nada disso: Conversa banal; trivial
até...
Fala dos tempos que
correm, da televisão que temos, da violência, dos tempos de hoje que estão uma
desgraça...
Eu , amigo ouvinte, lá
vou respondendo; lá vou deixando sair uns trejeitos sonoros, uns monossílabos... uns sons monocórdicos:
-
Pois!; claro;...claro, claro! Sim... – lá vou
dizendo eu alguma coisa ... só para não estar calado; só para ela saber que eu
estou deste lado a ouvi-la! Só
que... quando tento uma resposta mais
completa... “qual quê!?” Sou logo interrompido por ela que, fazendo de conta
que não me ouve, lá continua a
falar...falar...falar...; a dizer o que quer dizer, a dizer o que disse à amiga ou a dizer o que vai dizer....
Com tudo isto já começo
mesmo a duvidar se ela tem mesmo uma amiga que lhe pede conselhos... ou se não é mais um pretexto para desabafar, falar.... e para, em
última análise, ter alguém, do outro
lado, que a ouça...
Escusado será dizer amigo
ouvinte que quando ouço aquela voz ao telefone – a sua voz já é
inconfundível...- fico logo arrepiado...
Outro dia – foi
precisamente há 15 dias... – voltou a ligar. Desta vez tinha uma dúvida;
gostava de ser esclarecida – dizia ela-
porque tinha uma amiga que lhe colocou
um problema. Como ela ficou na dúvida... não teve dúvidas: ligou ao
padre; ao padre da Internet, pois claro...
-
Senhor padre... tenho uma dúvida... – Lá começou
ela a dizer ao telefone para ir, logo, directa ao assunto, sem mais rodeios:
-
Tenho uma amiga minha que fez uma promessa; prometeu a Santa Rita de Cássia juntar um grupo de
crianças, para rezar o terço para ver se é atendida...
-
E então...? - perguntei eu.
-
O problema é que ela não sabe se pode fazer essa
promessa...
-
Então, e por que não há-de poder? Se ela tem fé...
enfim, parece-me uma promessa normal e sensata...- lá respondi, amigo ouvinte,
longe de imaginar o que me estava ainda reservado.
-
Pois... o problema é que ela quer fazer a promessa
para o marido morrer mais depressa... e
eu não sei se se podem fazer dessas promessas!
-
Como?! Fez uma promessa para o marido ... morrer
mais depressa?! Como é que é
isso?! Repisei a pergunta, amigo
ouvinte, deveras surpreso e atordoado pelo teor da de “promessa” tão... tão original!.
-
Mas ...o marido está doente, é isso?- ainda
perguntei!
-
Não, senhor padre! Tem até muita saúde... mas como
ele a trata mal... “tá” a perceber?! ... assim ... deixou a observação em suspenso para concluir, finalmente, com
aquilo que a levava a telefonar:
-
Eu não sei se se pode fazer promessas destas... e
então lembrei-me de perguntar ao senhor padre ... – Concluiu, assim, com este desplante, esta minha amiga que
conheço; que conheço... sem conhecer ...
Fiquei
tão sem jeito com... tamanha
dúvida (!!!) que já nem sei o que lhe
respondi... nem tão-pouco os argumentos
que aduzi perante promessa tão insólita...
À
falta de melhor argumentação ainda lhe disse:
-
O que é que acha? Se soubesse que andava alguém a
fazer uma promessa a pedir a Santa Rita para lhe dar a morte a si, ...você
gostava?! - Perguntei...
-
- Pois... pois...! “Tá bem” ... mas aqui é um caso
diferente... – Lá respondeu ,assim,
meio encavacada a minha amiga de
Lisboa... como se Deus fosse Pai de uns e padrasto de outros...
Pois é amigo ouvinte! Não sei como se chama mesmo; nem a idade que
tem. Só sei que, sem me conhecer pessoalmente, fala comigo... horas a fio... ao
telefone, como se me conhecesse desde a
primeira hora...
Pede-me conselhos... mas quase
não me deixa falar...; Faz
perguntas ...mas dificilmente ouve as respostas; Quer falar comigo... mas na verdade só fala... para mim; mal me
deixa falar... com ela! O que ela quer mesmo é ser ouvida... E então, quando apanha o padre a jeito ... o
padre da Internet ....zás:
fala...fala...fala: Fala dos problemas que tem e que não tem ; dos
problemas das amigas... e se calhar, até, chega a inventar problemas... sem qualquer problema! Agarra em tudo o que
estiver à mão de semear ... e tudo
serve de pretexto para ela poder
telefonar ao padre da Internet e
falar; precisa urgentemente de falar ... e de alguém que a escute!...
Ouviu falar de mim, do padre
da Internet... ; e é pelo telefone que
vai fazendo a sua terapia...e a minha “doença”!
- Apesar dos “pois”,
“claro”, “...”sim, sim-sim...” que vou
dizendo, só para não estar calado...,e
também para ela saber que a ouço, é no
entanto a resposta suficiente para esta
mulher; é o suficiente para que me diga ...o que já me disse umas poucas de
vezes:
-
Obrigado, senhor padre pelo seu conselho... ;
ajudou-me imenso – quando eu me limitei apenas a ouvi-la...
Acolher, ouvir, saber ouvir o Outro... - Alguém dúvida que é, mesmo, a melhor
resposta... o melhor conselho que se pode dar?
Não concorda comigo??
Até para a semana
Padre Júlio Grangeia
7-10-2002