NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Olá, amigo ouvinte! Não sei se isto também se passa consigo; comigo, passa-se com alguma frequência: Nunca lhe aconteceu, por exemplo, depois de ter lido alguma notícia, ou de ter visto algum programa na televisão, ficar, com uma sensação esquisita de não saber bem o que pensar?
Eu estou a dizer-lhe isto, sabe, porque, precisamente nestes últimos dias, fiquei exactamente, assim, sem saber o que pensar, diante de duas notícias que foram noticiadas, no telejornal dos quatro canais.
Estou a referir-me nomeadamente ao motim, à revolta, à reivindicação- o amigo ouvinte dê, agora, o nome que quiser - em que os presos das nossas cadeias foram os protagonistas: seja aquele caso em que os presos das nossas cadeias - ou pelo menos de algumas - fizeram um abaixo assinado para que a assembleia da república repensasse a sua situação e um outro, este mais recente- que teve lugar nos Açores, salvo erro, em que os presos para protestar contra a comida, incendiaram as celas- sendo necessário chamar a Polícia e os bombeiros. O amigo ouvinte deve estar bem lembrado destes dois incidentes até porque foram noticiados nos quatro canais, como já lhe disse
Pois bem Esta é uma dessas tais situações em que fico sem saber muito bem o que pensar, até porque, é daquelas coisas em que, quer se concorde quer não, uma pessoa é presa - até porque estamos a falar de cadeias - por ter cão e presa por não ter. O amigo ouvinte já deu conta:
Entende, amigo ouvinte, porque digo que é por estas, e outras como tais, que fazem com que uma pessoa fique, muitas vezes sem saber o que pensar
Eu, depois de ver estas notícia, fiquei com uma sensação esquisita.
Que não haja dúvidas: Acho bem que se proteste mas e é o eterno problema dos ""mas"; dos "mas", dos "ses" e dos conformes"
Não se trata de estar contra a reivindicação, mas se calhar contra o modo como se reivindica. É de justiça que os presos, como pessoas que são que envidem esforços no sentido de salvaguardar os seus direitos ameaçados. É de justiça: É inquestionável, me parece! Se a comida é mal confeccionada- acho bem que façam ouvir o seu protesto. Afinal de contas, são seres humanos; são pessoas ; se os gatos e os cães, que são animais- já tem comidas próprias e diferentes para os dias da semana- e são animais- os presos.- porque são pessoas por maior razão se deve cuidar da sua alimentação
Se as prisões estão superlotadas é justo que levantem a sua voz porque se é verdade que não se portaram como pessoas- nomeadamente quando violaram os direitos de outros- e por isso é que estão presos e privados de liberdade- também não é menos verdade que merecem mais uma oportunidade; mais uma "chance"
Mas e lá vem o eterno mas será que é legítimo fazer o que fizeram? Será que é legítimo apuparem, e ainda por cima com ar ameaçador, como alguns o fizeram, aquando da visita do ministro da justiça? Será que têm legitimidade para isso?
Será justificável que, para se dar conta de algo que esteve na origem, se faça e se explorem entrevistas atrás de entrevistas, aos protagonistas que viraram desordeiros pouco faltando para que estes, que se encontram a cumprir uma pena, se transformem em heróis ou quase?
É caso para se perguntar, independentemente da razão que assiste a quem se encontra a cumprir a pena: O que é que é mais injusto: a comida de fraca qualidade, os estabelecimentos prisionais repletos, ou o modo como fazem sentir essa injustiça? Será que tudo isto justifica o atear do fogo, o apupar a autoridade legítima?
Pois é: é por estas e por outras
Na era das pautas com vinte e dois valores de classificação; na era em que os presos chamam palhaço ao ministro respectivo que os visita e ainda, por cima, nada lhes acontece; na era em que se protesta, sobretudo da forma como se protesta, em que se ateia fogo, porque não se gostou da comida admira-se o amigo ouvinte que no telejornal de Domingo se gaste quase dez minutos, a perguntar ao Marco Paulo como correu a operação?
E aqueles que não são cantores? E aqueles que não tem programa na RTP? E aqueles que não tem sobrinhos para poder afagar diante das câmaras para vincar a imagem de marca
Não sei se concorda comigo ou não
Mas cá para mim isto é tudo, no mínimo, um pouco esquisito, não acha?
Até para a semana?
24/07/96