NA FREQUÊNCIA DA VIDA

FALSOS POBRES

Olá, amigo ouvinte!

Há uns tempos atrás, uma pessoa muito conhecida da nossa praça, teve ocasião de dizer, alto e bom som, para quem a quis ouvir… - para quem a quis ouvir e ler - diga-se - que, depois de ter visto um porco a andar de bicicleta que já nada nem ninguém a iria surpreender!

O amigo ouvinte tem de concordar: Não é todos os dias que se vê um porco a andar de bicicleta. Indubitavelmente é, mesmo, uma coisa surpreendente! No entanto, e por outro lado, depois de se ver agora tanta coisa, e que coisas - dá mesmo vontade de dizer que estamos vacinados para o que der e vier. Eu, com toda a franqueza, amigo ouvinte, também pensava assim… Puro engano: há sempre qualquer coisa que nos acaba por surpreender: seja por isto ou por aquilo, por aquilo que se diz ou como se diz, por aquilo que se faz, como se faz ou porque se deixa de fazer, seja, mesmo, pelos montantes envolvidos, já não me atrevo a dizer que nada me surpreende; eu diria até que é raro o dia que não me surpreenda com alguma coisa apesar de todas as experiências que directas ou indirectamente passam por mim.

A última surpresa chegou até mim através de uma notícia de um jornal que eu li, algures: uma notícia curta, concisa, telegráfica mas revoltante até dizer "chega"…

Que há falsos pobres… toda a gente o sabe; eu também sei; e também sei que o que há mais são pessoas que embora aparentemente mostrem uma coisa, na realidade são outra. Eu quase que me atreveria a perguntar quem é que não conhece casos destes!

Todos conhecemos casos de pessoas que sob a capa da pobreza, da mendicidade, da doença ou da deficiência, vão governando a sua vida, à custa da boa fé dos outros. Sim, estou convencido que o amigo ouvinte conhece também casos destes. Ainda há três semanas recebi uma família Bósnia solicitando ajuda. Procurei ajudar da melhor forma que sabia e podia. Passada que foi uma semana já tinha um outro Bósnio a bater à porta… : o mesmo paleio, o mesmo documento passada pelos Negócios Estrangeiros; a mesma argumentação … sem tirar nem pôr, mais parecendo tirada a papel químico…E foi então aí, só nessa altura, que eu abri os olhos: Afinal de contas - porque de contas se trata - eram Bósnios a mais - e, afinal, toda esta gente , mais não eram do que uma rede muito bem organizada de falsos pobres…

Sim eu sei, todos sabemos, que há muitos casos destes: agora que se chegasse ao cúmulo de se fazer o que dizia a tal notícia que vinha no jornal que eu li… essa, francamente estava longe de imaginar…

Mas eu conto o que li e o amigo ouvinte depois pode tirar as suas ilações.

Este caso que podia, ou pode, muito bem acontecer em qualquer uma das nossas cidades, passou-se em Espanha, mais concretamente na cidade de Ávila. Naquela cidade, e de acordo com a notícia do jornal - os Mendigos chegam a pagar 80 contos, 80 contos… ouviu bem?- por um lugar junto à porta da Igreja, onde as esmolas são mais chorudas . Pois é: ao que parece, as portas das igrejas mais concorridas são, por assim dizer, leiloadas…em Assembleia de mendigos…

Mendigar junto à porta da Igreja de São Pedro, por exemplo, custa a cada mendigo… 50 mil pesetas, ou seja, 60 contos, mais coisa menos coisa; No entanto, no convento da Santa de Ávila , a coisa não fica por menos de 60 mil pesetas, qualquer coisa como 84 contos… E isto para quem quer e gosta; Quem quiser pedir à porta da Igreja ou aluga o espaço por esse quantitativo ou então, o melhor que tem a fazer, é por-se ao fresco; Sim: É pegar ou largar. Se um ou outro não quer… há mais quem queira…

Ainda segundo o mesmo jornal, a responsável pelos assuntos sociais da cidade Espanholas de Ávila - onde é proibido mendigar mas onde há estruturas de apoio aos mendigos, referiu ainda que muitos destes mendigos que pagam 80 contos para estar a pedir junto à porta do convento, rejeitam muitas vezes comida e outras alternativas de ajuda… mas nunca rejeitam o seu local de trabalho… de trabalho, entende, amigo ouvinte?!- mesmo que tenham de pagar 80 e tal contos…

Pois é, amigo ouvinte, será preciso dizer mais alguma coisa? Que pensar destes mendigos que rejeitam comida mas que não prescindem de estar junto às portas das igrejas a pedir esmolas, mesmo que para isso tenham de pagar 80 contos?!

Nestas proporções talvez aqui não haja assim situações tão gritantes… Mas alguém é tão inocente que pense que casos como estes só existam em Ávila? E aqueles que vivem perto de nós, em barracas de lata… com quatro pessoas a trabalhar e com o seu vencimento, e que tem televisão com antena parabólica e tudo… como manda o figurino?!

E que pensar de tantos outros que podendo ter a sua casinha vivem assim à espera que apareça uma política Camarária qualquer que lhes dê uma de borla ou quase?!

Pois é, amigo ouvinte! Pois é!…

Ajudar quem precisa é um dever de quem se considera humano, de quem é pessoa , e muito mais de quem se diz cristão…e infelizmente o que há mais são pessoas carecidas a precisar urgentemente da nossa ajuda e da nossa solidariedade… mas… e ao sempre o eterno mas… ao que se vê, a todo este oportunismo que é reinante, a toda esta hipocrisia institucionalizada , não será mais sensato partilhar junto de instituições credenciadas para o efeito?

E mais do que dar, não será mais eficiente dar-mo-nos?

É complicado; é difícil…Não se resolve de um dia para o outro, é certo… mas … e como dizia o outro… o verdadeiro sábio não é aquele que dá o peixe… é antes o que ensina a pescar…

Não concorda?

Até para a semana?

16/10/96   

 Padre Júlio Grangeia