Na Frequência da Vida
Pois é, amigo ouvinte: "Ele há cada uma..."
Hoje, gostaria de lhe contar um caso que já se passou comigo há algum tempo atrás e que é daquelas coisas que "não há, mesmo ponta, por se onde pegue"...
Vinha de uma terra onde tinha ido celebrar Missa. Na berma da estrada, alguém que me conhecera pediu-me boleia. Parei o meu carro e ela entrou. Era uma moça nova, muito nova; aparentava uns vinte e poucos anos. Pela maneira de falar, de ser e de estar, via-se que era uma moça simples...
-Então, como vai isso?
Atirei com esta "frase feita" que pode dar azo a que se diga tudo ...ou que pode não dizer rigorosamente nada...
-Vamos bem, Senhor padre! Lá vou indo com a minha filha...
O facto de só ter falado na filha, deixou antever que ali haveria qualquer coisa mais. Por isso, um pouco receoso, lá atirei, um pouco a medo...
-O seu marido...?
-Eu não tenho marido, Senhor padre; Sou mãe solteira. Olhe, o pai casou-se agora, mesmo, com outra gaja. Logo que soube o trabalho que me tinha feito... alvorou; Não quis saber mais nada de mim...
-Pois é... - Lá acabei por responder com mais uma frase feita que pode dizer tudo e não dizer nada...
-No princípio custou-me um bocado; sabe como é! Ter que aguentar com o falatório da aldeia, como se só eu fosse a culpada... é dose...
Os meus pais, em vez de me dar em apoio, ainda eram piores que o povo.
-Sabe, senhor padre, se eu fosse rica, nada disto acontecia; como sou pobre...-respondeu com amargura, deixando adivinhar o que lhe ia na alma...
- Deixa lá! O pior já passou! Há muita boa gente que não tem a coragem que tu tiveste...
-Não, Senhor padre; Não foi coragem... até porque eu nem sabia que eu estava de bébé. Estava tão convencida que até tratava mal algumas pessoas quando estas ao principio, que já desconfiava, me mandavam a piada...
Um dia, a minha mãe, como ouvia muito falatório a meu respeito, é que me disse:
-Ó rapariga, então tu andas prenha? E eu , era tão ingénua, que até lhe disse:
-Quem é que lhe disse semelhante mentira que eu vou já partir-lhe as ventas"! - E foi, mesmo, assim, que lhe respondi! Veja lá, se eu alguma vez pensava que estava grávida! Só me convenci, quando fui ao médico, e quando ele me disse que as dores que eu tinha, às vezes, não eram da barriga...
-Até fiquei de todas as cores! Nem quero que me lembre!
-Deixa lá...Ficar grávida e não querer o bébé... não será vergonha maior? -Acabei por lançar a pergunta?
-Ó senhor padre, eu só não abortei porque a garota já era crescida, e podia haver chatice respondeu, assim, mesmo, sem qualquer pudor, ou preconceito...
-Então, e a tua mãe? Como é que ela reagiu?
-Fartou-se de berrar até mais não! Disse-me que era a vergonha da cara dela, e que me punha fora de casa...mas, sabe, isto foi só paleio. Passados uns dias, foi até ela quem me disse:
-Bem... já que essa coisa se aguentou até agora, tens que levar isso até ao fim...
- Sim, amigo ouvinte! Aquela coisa, já que se tinha aguentado... ; agora Isso, Isso tinha de ser levado até ao fim...
-Então..., continuei a perguntar, e depois..., correu tudo bem?
-Correu...mas houve uma altura em que uns palermas queriam roubar a minha filha...
-Como é que é isso? Queriam roubar a filha?...
-Sabe, senhor padre, como a minha mãe se mete na pinga, essas pessoas queriam tirar-me a criança porque pensavam que eu lhe dava também vinho a ela...
-...Mas é mentira senhor padre... Isso é uma coisa que não faço. Só às vezes é que lhe dou uma pinguita, quando está mais rabugenta...
Pois é amigo ouvinte. O que é que quer que lhe diga!
Esta moça ficou grávida sem saber; e não abortou por não poder...
Levou aquilo que tinha na barriga até ao fim, porque essa coisa se tinha aguentado lá, durante seis meses, na barriga, sem ela saber como.
E acabou por levar AQUILO até ao fim; Lá teve que ser; e o que tem que ser tem muita força...
Cuidava muito bem da sua filha...e ai de quem lha roubasse; Até porque ela não era bêbeda como a avó; nem lhe dava vinho;
Só lhe dava, às vezes, uma pinguita, quando estava mais rabugenta...
Só uma pinguita ... a uma criança de seis meses... entende, amigo ouvinte?
Ele há cada uma...
15/11/94