Na frequência da Vida

 

Os melhores Pêssegos da loja!

 

Poderia chamar-se Silvina. Não é assim que se chama... mas aqui, por causa das coisas, passa a ter este nome. É a única coisa que não corresponde à verdade nesta história: o seu nome. Tudo o mais é a fotografia, o mais fiel possível, desta mulher, desta grande mulher que, ainda por cima, é minha amiga! ...

É sempre assim: Todos os sábados, invariavelmente, entre as 14 e as 14 e trinta, lá aparece ela, na Casa Paroquial; sempre da mesma maneira; sempre com o mesmo objetivo; sempre com a mesma conversa...

Toca o interfone da casa paroquial e aguarda. Às vezes, quando a resposta da minha parte demora mais uns segundos do que o normal, lá volta ela a tocar: uma ,duas...três...as vezes que forem necessárias até que eu a mande entrar. Já não é a primeira vez que ela chega mesmo a colar  a campainha...tal a insistência com que toca ...

-       Posso?! Posso entrar?! – lá pergunta, ela, a medo... colada ao interfone, do lado da rua...

-          Entre, "Ti" Silvina, entre!- Respondo eu, assim, quase automaticamente, mal ouço aquele toque de campainha, insistente e inconfundível...

Logo que tem permissão para entrar... lá vem ela, corredor abaixo," tranclitando" ao peso dos quase 80 anos de idade...

Na mão, escondida no regaço que o avental negro vai escondendo, lá traz ela a saca plástica com qualquer coisa para oferecer ao padre...; uma saca plástica transparente, sem reclame algum... mas sempre com qualquer coisa:

No tempo deles...traz morangos; outras vezes cerejas; um “maochinha” delas...

-          Tome lá senhor prior estas cerejas... são as primeiras...; Lá  começa ela, assim, a medo...não vá eu dizer que não como já tem acontecido....

Depois, não vá eu não dar valor aquilo que, para ela, é tão importante, ainda vai explicando, como que a justificar-se:

-          São “poucachinhas”... – começa ela por dizer para, de seguida, explicar a razão porque não traz mais:

-          Sabe...elas  agora ainda são muito caras...- explica ,assim,  orgulhosa; orgulhosa do seu orgulho e da sua grande amizade. Assim, mesmo! Sem falsas modéstias...

Quem diz cerejas e morangos... diz   nêsperas, pêras e cachos... Tudo depende; Conforme o tempo...! É assim, sempre! Todos os sábados: Lá vem trazendo a fruta da época e mesmo aquela, fora de época, que, mesmo sendo mais cara, nem por isso deixa de trazer uma “maochinha”...

-          Ó senhor prior... agora há de tudo e em todo o ano... graças a Deus....- Exclama, ela, assim, a "Ti" Silvina, enquanto desembrulha, vagarosamente, a saca plástica ... como que a fazer render o seu “peixe”; não vá eu não dar valor àquilo que ela me traz, sempre com tanto amor...

-          Olhe... como eles são tão lindos.... e tão grandes! Eram os maiores que lá estavam na loja... – explica ela, o que eu já tinha percebido, quando exibe finalmente, e com orgulho justificado, dois grandes pêssegos;  grandes, bonitos e seguramente apetitosos...

-          São tão lindos, não são?! – explica ela orgulhosa de dar ao padre os dois melhores pêssegos da loja!....

Outro dia trouxe-me duas pêras; grandes e madurinhas...

-          Oh, que bonitas pêras, "Ti" Silvina! Respondi eu, educadamente! 

-       Mas escusa de trazer ... porque também as tenho, e muitas...!

-          Tem?! Oh... não me diga! – exclamou ela, assim, desolada...; desolada... não por eu ter...mas desolada, sobretudo, por não me poder dar um pouco do muito que ela tem! Sim: um pouco do muito que ela tem: ela tem pouco, compra pouco porque é caro...mas este pouco é apenas só um pouco do muito que ela tem para dar ao padre: o seu amor..., a sua amizade...

Um dia, preocupado com a  sua  generosidade – mesmo que se repercuta em pequenas coisas-  tive uma saída pouco feliz:

-          Ó "Ti" Silvina, escusa de trazer estas coisas... mas pode vir, na mesma, todos os sábados aqui, conversar um bocadinho... – Lá comecei eu.

Era minha ideia explicar-lhe que muitas vezes, algumas coisas que ela me dava eu também as tinha e que, às vezes,  até se poderiam estragar como  os bolinhos compridos – bolinhos de champanhe – que ela,  às vezes, também traz quando a fruta que há...não é grande coisa...

Sim, amigo ouvinte! Era minha ideia dizer-lhe isto tudo. No entanto, quando vi a tristeza estampada no rosto, e quase a querer chorar...parei. Parei a tempo. Por isso apenas concluí:

-          Olhe, ... "Ti" Silvina, escusa de vir cá todas as semanas; basta vir cá só de vez em quando, de 15 em 15 dias..." tá"  bem...?

-          Quinze em quinze dias?! Por quê? Por quê? Não gosta daquilo que lhe trago?...ou já não gosta de mim? – Exclama ela, assim, irrefutavelmente para, de seguida, atirar certeiro:

-         Eu sei que às vezes sou chata! Mas o senhor é para mim como se fosse um filho...

E eu, amigo ouvinte, fiquei sem resposta para dar...

 

Poderia chamar-se Silvina! É viúva! Tem perto de 80 anos. Todos os sábados, entre as duas, duas e meia...lá aparece ela com a saca plástica, transparente, sem reclames, deixando ver o que o regaço procura esconder: cerejas, morangos, pêras, pêssegos, maças...ou bolinhos de Champanhe! Conforme a maré....a época ...ou a disponibilidade financeira!

Não adianta dizer que não quero, que não gosto, ou que já tenho...

É a forma que ela tem de ter um bocadinho do tempo do padre, para ela...

 

É viuva,  tem filhos casados já, e com família! Só que o padre é também um filho; um filho  diferente; um filho muito especial; e é para ele, para o padre,  que ela traz um pouco das novidades na fruta...; um pão de ló...ou uns bolinhos de Champanhe; é  para onde está virada; para onde "vira"...a sua generosidade!

-          É  “poucachinho”, diz ela, umas vezes...

-          Ainda são caras – Justifica-se outras...

-          Olhe que lindos são estes pêssegos- explica ela, feliz e orgulhosa, quando escolhe um par da melhor fruta da loja, para o padre...; para o Padre quer dizer; para alguém muito querido que ela trata como um filho...

 

Pois é, amigo ouvinte! Pois é! Adiantará dizer que não?! Não é preferível fazer de conta que não se dá conta e receber estas pequenas-grandes coisas...como as melhores do mundo?

E não serão mesmo as melhores do mundo, porque dadas, assim,  com tanto amor?

Não concorda comigo?

Até para a semana!

 

Padre Júlio Grangeia

14-10-2002