Na Frequência da Vida
Naquela noite, junto ao mar...
Olá amigo ouvinte!
Poderia chamar-se Patrícia. Tem vinte e tal anos e olhos castanhos...
Andava com ele havia já algum tempo. Naquele dia, aquela ida à praia para ver o mar... foi fatal; ficou ...a "ver navios" :
O Nuno - Nuno que também não se chama assim...- talvez devido à influência do ... "iodo", quem sabe?, não aguentou mais... e não esteve de marés: meteu "água": ele e ela! Na pior altura. A "bandeira" estava "vermelha" mas a vontade do "mergulho" era grande. E aconteceu...
O mar foi testemunha...
Chama-se Patrícia. Foi ver o mar...e ficou em terra, a "ver navios"...
Sem "bóia" e sem "colete de salvação", a Patrícia deixou de ser só ela ... mas ficou mais sozinha; perdida no seu mar; perdida no mar e nos afluentes...
Aquela ida ao mar, naquela noite de lua cheia, virou temporal...; a rota da sua vida mudou e iria mudar radicalmente com este "naufrágio"...; ficou "sem terra à vista"...; viu só "morte"...ela que transportava mais vida!
O Nuno, foi de abalada e nunca mais deu "à costa"; A Patricia, essa, ficou sozinha; mais sozinha... apesar de ser, agora, mais do que ela....
Pois é amigo ouvinte...
Poderia chamar-se Patrícia. Tem vinte e tal anos e olhos castanhos...
É, agora, mãe solteira...
Não quis fazer o desmancho; tem, agora, a vida desmanchada...
Trabalha como pode; como pode e sabe; às vezes como não pode; trabalha como uma "galega"...
A vida que já não era fácil tornou-se, agora, complicada; muito mais complicada: As dívidas, essas, que já existiam, foram, agora, aumentando; aumentando cada vez mais ...
O carro que tinha... mas que agora já não o tem ... era uma "porta de saída"! Afinal não deu para "sair" da crise ...nem para "entrar" numa vida diferente; não deu quase para nada... ; O carro que antes era visto como solução... passou a ser mais um entrave e a Patrícia ficou, assim, mais dependente!
A saúde precária não ajuda e os ossos, esses, não aguentam muito mais...
Chama-se Patrícia. Tem vinte e tal anos de idade e olhos castanhos...
Foi naquela noite à beira mar... que a escuridão a invadiu... e ficou sozinha; mais sozinha: Sendo mais do que ela, vive, agora, com a mãe, e só para o filho!...
Esta ainda é a única- ou quase- que a entende - ou que a vai procurando entender...; é a única que a ampara e que lhe dá a mão ...a ela que ficou "sem pé"! É a única que, ainda, que a faz de novo viver, depois do naufrágio, à beira daquele mar cheio de iodo...mas também cheio de escolhos...
Chama-se Patrícia. Vive com a mãe... e com o filho - a razão do seu viver...
Só que a tempestade, não fica por aqui... e a bonança, essa, tarda em chegar...
Depois de regressar daquela praia, e daquele Mar, onde ficou mais sozinha, mas onde passou a ser mais do que ela própria...; depois de passar a viver, de novo, com a mãe... e com o filho -gerado às escondidas mas que, agora, não pode esconder... alguém, também da família, apesar de o ser, não quer: não quer, não o quer... nem a quer... e faz-lhe a vida negra; ainda mais negra... ela que já não é nada "cor de rosa"...
Chama-se Patrícia... tem vinte e tais e é mãe solteira...
Não fez o desmancho: Ficou com a vida desmanchada...
Vai vivendo agora como pode...; como pode e sabe: vai trabalhando para viver... para viver e para atenuar a dívida que o carro que tinha mas que já não tem... não deu para cobrir...
Chama-se Patrícia. Tem vinte e tais e tem olhos castanhos. É mãe solteira. Pode pouco...mas não pode "não-poder"...
Como se tudo isto não bastasse - "e como um mal nunca vem só"- é assediada; assediada pelo patrão; patrão que não a larga...
Diz não. Vai resistindo; ainda resiste! Mas porque diz "não" ...tem que dizer "sim" ao trabalho que lhe é imposto...e que serve de castigo por não querer aquilo que só ele quer. Sim... é posta a fazer o trabalho que não quer; que não quer... nem pode...
Chama-se Patrícia...
Tem vinte e tal anos e olhos castanhos.
Teve um filho numa lua cheia, e ao pé do mar...
Ficou sozinha..."em terra"!
Ficou sozinha mais o filho...
Vive agora com a mãe... mas continua a ter vida difícil; mais difícil! Em casa só a mãe é que a entende; só a mãe é que a apoia. Mas há, também, quem não a queira; quem não a queira por ela ter querido aquilo que quis...
Vai vivendo...e vai, também, sendo assediada. Vai dizendo "NÃO"...ao "SIM" que o patrão ainda espera...
Chama-se Patrícia, tem olhos castanhos...e tem também um filho ela que é mãe solteira...
Para já é posta a fazer o que não pode... só porque não faz o que o patrão quer...
Mas até quando?...
Pois é amigo ouvinte... Se isto se resolvesse com simples referendos...
Mas... será que se resolve?
Não concorda comigo?
Até para a semana.
6 -05-1998