NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Chama Pai ao avô… 

e à mãe …chama-lhe …isso … que está a pensar!

Olá, amigo ouvinte!

Poderia chamar-se João. É um pobre diabo. Tem muitos filhos. Vive ao Deus dará; vive como calha; vive como sempre viveu: ao calha. Por acaso, ou sem ser por acaso, casou. Casou e teve filhos. Teve …Muitos filhos, apesar da televisão que também tem…

Ficou viúvo. A mulher, uma pobre diabo como ele, lá lhe foi dando o que ele queria… mesmo quando ela não queria!

O casebre, que faz as vezes de casa, não tem condições para nada: nem para a vida normal… nem para o normal da vida que se vive na intimidade; intimidade que nunca houve naquela casa; casa que nunca o foi para ninguém e muito menos para aquele casal; casal que é tudo menos isso…

O João que não é João, no entanto, lá foi vivendo; vivendo, sobrevivendo… vegetando, às vezes; por acaso… e sem ser por acaso…

Entretanto, a mulher do João, que levou porrada e deu filhos …morreu. E o João acaba por ficar viúvo…Por pouco tempo: a nova mulher, que já é vela, que arranjou e com quem voltou casar, ficou a saber quem era o João… e a tragédia que sempre morou naquela casa , voltou mais uma vez a acontecer; só que, desta vez… a tragédia meteu, mesmo, cenas chocantes, realmente chocantes:

A filha do João, com 19 anos apesar dos 15 que aparenta, chegou um dia a casa; chegou no dia menos certo, na hora menos indicada… e pronto: foi a tragédia que se consumou. Os ameaços que vinha sentindo, o assédio que fingiu tantas vezes não dar conta, o assédio, chegou, a vias de facto… naquela fatídica tarde. O João, casado com a Segunda mulher e pai de 4 filhos, faz da filha …outra mulher. E pronto: porque um mal nunca vem só, o João engravida a filha; a filha, fica, assim, grávida do pai...; Fica grávida sem querer; fica grávida sem saber…

Chama-se João. É um pobre diabo; é o próprio diabo para os outros: Foi diabo para a primeira, foi diabo para a segunda mulher …foi diabo para a filha…que passou, assim, a ser, também, filha e mulher do João…

O João, agora, tem, assim, 4 filhos da primeira mulher, um filho da Segunda e um outro da filha; Sim… este pai tem também um filho…da sua própria filha…

Chama-se João. Teve duas mulheres, tem filhos de ambas e tem, também, um filho da filha...

A Vida, a má vida que deu aos outros, cai, agora, e em força, em cima de dele…e passa, agora, de geração em geração. A filha, a filha que teve um filho do próprio pai, tornou-se agora, naquilo que há muito deixava adivinhar: Uma mulher da vida…; uma mulher da má vida!

E se é verdade que o passado dos antepassados não é digno nem dignificante, o futuro do filhos … e do filho da filha, muito menos…

Agora, e para já, vivem todos, ainda (…), na mesma casa… ; vivem, ainda, todos, e todos juntos, na mesma casa…entende, amigo ouvinte?

Certo certo é que o filho, o filho que o João fez à filha, agora já é grande; é grande sem ser crescido: não sabe o que deve saber, não faz o que deve fazer mas já vai revelando aos 4 ventos aquilo que, se calhar, deveria ocultar…

O dia a dia vai decorrendo… assim!

Para já, o filho, o filho que o pai fez à filha, vai chamando, agora, as coisas pelo nome:

Afinal de quem é a culpa?

Do Pai? Do Pai que fez um filho… à sua filha?

Da filha? Da filha do pai que se tornou naquilo que agora o filho lhe chama?

Da casa que é casebre? ; Da cabeça que não funciona?; das estruturas que não existem?… da Educação e da cultura que ainda não chegaram ali, a morar com o João?

Sim… afinal de quem é a culpa?

Pois é, amigo ouvinte: É um bocado complicado…; complicado, mesmo, até em arranjar bodes expiatórios... E para complicar ainda mais, não será que cada um de nós também não terá alguma culpa no cartório por estes Joões que vão vivendo tão perto de nós sem nós darmos conta?

Não concorda comigo?

Até para a semana.

 Padre Júlio Grangeia

8 / 1 / 97