VONTADE DE TIRAR "NEGAS"

Olá, amigo ouvinte!

O carnaval acabou. Tenho até impressão que a tradição, também, aqui, ,já não é o que era. Tirando os carnavais tradicionais, e estes cada vez mais abrasileirados e menos portugueses, já não se fala hoje tanto em carnaval como se falava antigamente...Não que o carnaval esteja em crise...; se calhar até nem está... O problema é que, se calhar,  nos habituámos tanto às máscaras, durante todo o ano, que já nem damos pelo tempo delas...

Mas, pronto! O carnaval acabou! Mesmo que não tenha acabado, acabou para todos os efeitos. Pelo menos no calendário...

Entramos, agora, num tempo diferente: um tempo em que, mais do que nunca, somos convidados a arrancar as máscaras; um tempo em que somos convidados mais ...a ser nós-mesmos; a ser mais... aquilo que somos. Basta tentar. E se calhar até nem é muito dificil. Quem sabe, se nós assumirmos o que muitas vezes não queremos assumir  se outros não nos seguem as pisadas...?

Olhe, na semana passada, entrei na sala de aulas daquela turma do 11º ano para mais uma aula de educação Moral Católica. É uma turma simpática, numerosa e muito participativa. É seguramente uma das minhas melhores turmas... em tudo:

Nas classificações, na camaradagem, na simpatia, na participação. Dá gosto estar com eles. Sinto também que eles tem gosto em estar comigo.

Não há segredos e os “tabus” são palavras que não existem connosco e entre nós.

Por isso, quando entrei na sala já sabia de antemão que o esquema que eu tinha preparado para aquela aula iria resultar.

Depois de sumariar lancei a questão: uma questão banal, sim, mas muito actual, muito apropriada até ao tempo do Carnaval.

-          Sabem - comecei  assim por introduzir a questão- uma coisa é aquilo que somos mesmo; outra ... é aquilo que julgamos ser; e outra coisa ainda, às vezes bem diferente,  é aquilo que os outros pensam  que somos...

-          É verdade, Stôr. Às vezes julgamos que somos uma coisa e somos outra... – lá opinou o Rui  que costuma ter sempre ideias muito próprias....

-          E às vezes também os outros pensam  coisas de nós que não correspondem à verdade – acrescentou desta feita a Carla... lá ao fundo, na sua carteira habitual...

-          “Às vezes...?  Isso é que era bom que fosse só às vezes... – Respondeu o Miguel dando, assim,  a entender que quase sempre os outros pensam de nós coisas que não correspondem minimamente à verdade.

Como a questão estava lançada ...passei ao “ataque”...

-          Óh, Óh  Sónia, o que é que tu achas que os outros pensam de ti...? – lancei, assim, como quem não quer a coisa, esta questão para esta aluna.

-          Os outros? O que é que os outros pensam de mim? Sei lá, stôr...sei lá ...- respondeu assim, esta minha aluna, surpreendida por lhe ter calhado a pergunta, logo a ela...

-          Sabes lá!? Claro que sabes! Podes é não querer responder... – interpelei , assim, desta forma provocadora, esta aluna do 11º ano que costuma ser muito frontal nas respostas que dá...

-          Sei lá.... não sei bem – lá ia repetindo, mastigando a resposta ... para logo de seguir atirar a “batata quente”:

-          Óh stôr eles que digam...eles que digam...

-          - “Nã.... nã...nã...nã” – assim não vale, assim não vale – responderam em côro e desta forma sincopada uma série deles...

-          Como é que é a pergunta, como é que é ? – lá voltou a perguntar a Sónia, desta feita para ganhar tempo, até porque estava farta de saber como era a pergunta

-          O que é que achas que os teus colegas pensam de ti...? –lá voltei a repetir.

-          Sei lá... acham que, se calhar, sou chata...refilona.... sei lá .... e acham que eu...oh...  não vale a pena dizer... – e, amigo ouvinte,  interrompeu assim a frase... deixando todo o mundo em “suspense”...

-          Vale a pena, pois..., para dizer banalidades é que não vale a pena...-respondi assim.

-          Agora diz.... já que começaste... – provocou o Ricardo desta vez.

E quando menos se esperava, amigo ouvinte, ... lá saiu a “bomba”; uma autêntica “bomba”...

-          Oh stôr eu acho que eles acham que sou ...inferior...- respondeu assim, a medo, a minha aluna.

-          Oh, oh,oh... não sejas taralhôuca - respondi, assim, dum jeito carinhoso...

-          Ó Artur, achas mesmo que a Sónia é inferior? – perguntei a outro colega à espera dum desmentido...

-          Oh... Stôr, se calhar a Sónia tem razão. Se calhar ela é vista mesmo como inferior pela turma...

Escusado será dizer, amigo ouvinte, que pairou na sala um silêncio sepulcral. Um silêncio incomodativo. Nem mesmo a brincadeira do Nuno, que deu uma bôca à Sónia, amenizou o ambiente de “cortar à faca”!

Mas estavam lançados os dados para uma daquelas que foi seguramente uma das minhas melhores aulas...para arrancar máscaras...

-          Ó sTôr – os meus colegas também acham que eu sou “marrôna”, que só penso em estudar, que não me gosto de divertir mas eles sabem lá o que se passa comigo ?!  - continuou , desta vez, a Graciete, para concluir com uma “tirada” de  “caixão à cova”:

-          Imagine o “Stõr” que na semana passada, só porque eu tirei quinze a Matemática, levei um berreiro em casa  que até me “passei dos carrêtos”...- lamentou-se a Graciete para logo concluir:

-          Às vezes s’Tôr tenho vontade de só  tirar “negas” ... que era para eles aprenderem, e também para que os meus colegas gostassem mais de mim...- respondeu, triste, a Graciete porque achavam que ela “só”...”só” tinha tirado 15!

Pois é, amigo ouvinte. Pois é! Mais palavras para quê!

Quem sou eu, mesmo?  O que julgo ser? O que penso que os outros pensam de mim? O que penso eu dos outros?

Quaresma... tempo de arrancar as Máscaras; tempo de autentecidade, tempo de descoberta de nós-mesmos e dos outros...

Quem quer ter a coragem de arrancar a máscara que mascara o nosso viver e os “óculos” que nos fazem ver os outros ... todos da mesma cor?

É que o Carnaval já lá vai.

Não concorda comigo?

Até para a semana.

Padre Júlio Grangeia

8 – 3 – 2000

Rádio Soberania (99.3 Mhz) (ÁGUEDA) - 8.30 horas