NA FREQUÊNCIA DA VIDA

O Natal da Tânia

Está? Está lá? É o Senhor padre?- Quem assim falava era uma vozinha meiga de criança. Pela forma como falava ao telefone dava, mesmo, a impressão de não ter ainda muita experiência nestas lides telefónicas…

Eu, porque já não é a primeira vez que me fazem destas brincadeiras, joguei pelo seguro. E antes de me identificar, perguntei:

-Mas… quem fala?

Nada! Do outrola do do fio, a mesma pergunta nervosa:

-Quem fala? É o Senhor padre?

-Mas quem fala daí? - voltei a perguntar. Depois de um curto silêncio a resposta sempre acabou por vir…

-Daqui é a Tânia… -E com cautela, não fosse outra pessoa estar a ouvir, ainda voltou a perguntar: Mas é o senhor padre que está ao Telefone?

Depois de me identificar, lá voltou a dizer o nome; um nome que nada tem a ver com Tânia mas que aqui passa a ser, por causa das coisas…- como o amigo ouvinte deve compreender…

-Tânia?! Mas que Tânia?- voltei eu à carga

-Sou eu: a Tânia… -respondeu com a maior naturalidade do mundo, do seu mundo; para depois, retorquir com crescente admiração:

-Não me conhece?!!!- respondeu admiradíssima, como se no mundo houvesse só a Tânia. E se calhar, até é verdade: não são as pessoas únicas, apesar das semelhanças?

-Ah… a Tânia… !!! - lá acabei, milagrosamente, por reconhecer a minha interlocutora, pela voz.

-Olhe, senhor padre, eu estou a telefonar porque estou muito preocupada com a minha mãe.

A Tânia, um projecto de gente, tem oito anos de idade (e quem diz oito diz sete ou seis…); Ainda não sabe lidar, muito bem, com o telefone… mas já já lida com a vida; já lida com a vida dos adultos; como se fosse gente crescida; como se de uma adulta se tratasse…

Apesar da sua idade já vive preocupada; preocupa-se… não com ela mas com a mãe; Por isso telefona ao senhor padre que conhece a mãe; telefona ao senhor padre para ele ajudar a mãe;

-Sabe, senhor padre! Ela tem andado muito preocupada e chora muito. Eu não quero que ela tenha um Natal triste. O Senhor padre fale com ela, tá bem?

Fiquei sem saber o que havia de responder. O amigo ouvinte sabe como se responde em situações como estas?

E foi com uma daquelas muitas interjeições que nós temos- que tanto dá para dizer sim como não, que eu respondi… ; respondi sem responder!

Se já estava admirado com a preocupação desta criança mais admirado fiquei com a sua esperteza:

-O senhor padre não diga à minha mãe que fui eu que lhe falei, tá bem? Eu vou dizer-lhe que o senhor padre telefonou a dizer que quer falar com ela, tá bem?…

Chama-se Tânia. Uma criança que apesar de o ser, já não o é. Tem ainda tenra idade; também gosta de brinquedos e de bonecas: Este Natal gostava muito de receber uma boneca Barbi e já agora, se não for pedir muito ao PAI NATAL, também quer receber o Ken, acho que é, assim, que se chama o marido dela , um boneco especial que de vez em quando precisa que lhe façam a barba. Enfim, é uma menina igual a tantas outras; Quer um Natal Feliz como tantas outras; quer receber presentes como tantas outras…

No entanto, não quer só receber presentes; também quer e gosta de dar presentes. Este Natal quer receber, para ela, a Barbi e o Ken … e quer dar também à mãe o melhor presente; aquilo que a mãe mais precisa: a felicidade e a alegria…; ela, como qualquer criança, não gosta de ver a mãe a chorar…

Ainda não sei como ela passou o Natal; Não sei se a mãe já reencontrou a alegria. O que eu sei é que a mãe da Tânia, pelos vistos, não desconfiou de nada, e, um dia destes, na véspera de Natal, tocou à campainha da residência Paroquial. Vinha um pouco surpreendida sem saber o que é que o padre lhe queria falar; e ainda por cima com tanta urgência a ponto de lhe ter telefonado lá para casa…

Ah, grande Tânia. Metes-me em cada enrascada. Mas, olha, que, com meninas bonitas, como tu, até vale a pena inventar desculpas para a tua mãe…

Quando precisares, telefona, outra vez. Basta só dizer que é a Tânia, tá bem?

27/12/95

 Padre Júlio Grangeia