NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Mundo cão

Olá, amigo ouvinte!

Eu, por acaso, até nem desgosto! Só que, há coisas que... francamente, me dão voltas ao miolo e me fazem pensar um bom bocado. Se o amigo ouvinte é daquelas pessoas que gosta de ter o seu cãozinho de estimação, por favor não me interprete mal. Peço que tenha a maçada de me escutar até ao fim, porque,como irá, certamente, dar conta, o problema até nem é dos cães, sejam eles "de água", "pastor alemão" ...ou simplesmente "rafeiros".

O problema que hoje quero partilhar consigo prende-se com os cães... mas,se calhar diz mais respeito a certas pessoas...

Há tempos, este "spot publicitário" passava muito na televisão. Agora, ou é porque eu já não vejo tanta televisão como via ou é porque, agora já não passa tanto como passava...o que é certo é que agora já tenho visto menos essa coisa: O amigo ouvinte lembra-se, por certo, daquela produto enlatado para cães cuja publicidade nos punha os cabelos de pé? Pois é; essa mesma: "Eu recomendo "pedigrepal" porque os restos de comida não são uma alimentação equilibrada para o seu cão!

Quer dizer: os restos de comida que servem para qualquer pessoa pelos vistos já não servem para qualquer cão- a dar crédito a este "spot televisivo"!.

É por isso, e só por isso, que me revolto... para já não falar já naquele outro reclame estúpido de comida enlatada para gatos em que aparecia a dona do bichano toda feliz a exclamar: "EU ESTOU FELIZ PORQUE O MEU GATO ESTÁ FELIZ" !

Ora muito bem! É precisamente aqui que eu quero chegar para lhe contar o caso de hoje:

Depois de ter estado sintonizado num dos 4 canais da nossa televisão, onde aparecia uma refêrencia clara à fome em Angola e onde até se dizia quantas pessoas morriam de fome por cada hora que passava, mudei de canal. Neste outro canal era tempo de notícias, estava na hora do noticiário. E nem de propósito: O apresentador, mesmo a terminar as notícias,lá deu a conhecer o caso de uma cadela que havia sido salva milagrosamente de um incêndio. Tanto assim que esta cadela passa,agora,a chamar-se de "milagre". Claro. Por aqui, amigo ouvinte, já pode ver que a notícia vinha da América, dos "States", pois claro. E era até uma notícia algo triste. Um violento incêndio tinha destruido completamente uma mansão, numa cidade qualquer dos Estados Unidos que, sinceramente, agora, até, já nem me recordo o nome. Dizia o apresentador das noticias que, e apesar da mansão ter sido devorada totalmente pelas chamas, que todos os moradores acabaram por ser salvos a tempo.

Mas, amigo ouvinte,o que lhe quero chamar a atenção vem a seguir: Estava eu a julgar que a razão da notícia fosse a causa do sinistro, ou coisa parecida! Afinal, e pelos vistos, enganei-me redondamente. De facto, segundo a mesma notícia, os bombeiros,depois de terem salvo todas as pessoas enfrentaram de novo as chamas porque,e afinal de contas, os proprietários se tinham esquecido de uma cadelinha de 4 semanas. E eu comecei a pensar comigo. Será que por mais carinho que se tenha ao animal,justificar-se---á que se arrisque uma vida humana por isso? Estava eu a pensar comigo, nesta eventualidade, quando ouvi o resto da notícia que me deixou boquiaberto: Um bombeiro que se tinha arriscado às chamas, por causa da cadela, logo que a encontrou, veio com ela triunfante para a rua onde o bichinho foi socorrido por uma ambulância. Como a cadelinha de 4 semanas estava inconsciente,devido ao fumo, meteram uns tubos pelas narinas do bicho para lhe dar oxigénio e, segundo parece,tanto se salvou que até lhe deram o nome de "milagre"-um nome bem sugestivo para o pobre animal se "recordar" de toda esta "odisseia"por que tinha passado. Achei curioso, muito curioso,mesmo,e sintomático este procedimento tanto quanto é certo que nem sempre há tanta celeridade quando se trata de salvar pessoas! No entanto, o meu espanto,não ficou por aqui: quando estavam a tentar reanimar a cadela, a dona da mesma, muito aflita, não porque a casa tivesse ardido mas porque a cadela corria risco de vida, a dona da casa, dizia eu, para encorajar o pobre bicho em transe tão dramático, lá a ia consolando com palavras de ânimo e de carinho,deveras impressionantes:

"COME ON,BABY; COME ON,BABY"! E o que é certo é que, se foi pelas palavras do "COME ON,BABY", se foi por causa do oxigénio ou pela rapidez do salvamento, o que é certo é que a cadelinha de 4 semanas desta já se safou e orgulha-se agora de ter já aparecido no telejornal e tudo, e de ter o nome "milagre" que, convenhamos, não é qualquer bicho que se preza de ter!

Foi, de facto, uma grande alegria para toda uma Nação por este Happy end, por este desenlace feliz. Só faltava dizer que se casou e que teve muitas cadelinhas!

Pois,é! Para aquela familia não interessava muito se a casa tinha ardido totalmente. O que contava é que a cadela chamada "milagre" tinha conseguido salvar-se!

Ora bem, ora muito bem! Se quer que lhe diga, amigo ouvinte eu nem sei mesmo por que "ponta" é que hei-de "pegar"!!!.

Volto a repetir: Não tenho nada contra os cães; não tenho nada contra os gatinhos...mas estou convencido que há aqui qualquer coisa que não está a funcionar muito bem... pelo menos cá para os meus esquemas, e para os meus critérios. Se uma pessoa gosta de animais...tudo bem ...e será importante que o saiba tratar condignamente! Se não sabe...se depois o abandona nas férias, se o deita fora quando está doente...etc,etc...então não tenha!!!.Até,aqui, julgo eu, todos estamos de acordo! Agora que se subalternize as pessoas absolutizando os animais em deterimento daquelas ... aqui...Santa Paciência! ...E que a Liga protectora dos animais me desculpe. Mas uma pessoa é uma pessoa...e um Bicho é um bicho...mesmo que seja uma cadelinha amoriosa de 4 semanas! Por mais amor que se tenha a um cãozinho justificará que se arrisque a vida por cauda dele? Será que os restos de comida que servem para as pessoas não servirão também para os animais? E que dizer daquelas crianças que vão morrendo em Angola,por cada minuto que passa...só porque nem sequer têm à mão uma lata de comida...mesmo de cão?!...

E que dizer daquela criança que foi deitada fora, com dez minutos de vida, toda nua, na noite fria de 24 dezembro Natal, ainda ensaguentada, lá para a zona do Porto?!...

Pois,é, amigo ouvinte! Que pena a cadela "milagre" não estar no lugar dela. De certeza,se estivesse, e se essa criança sem nome se se chamasse "milagre" como a cadela americana, talvez a mãe, em vez de a deixar a morrer, como deixou, talvez fizesse e dissesse aquilo que a dona da cadela americana disse: "Come on,baby!; Como on Baby!

Amigo ouvinte! Trate bem os seus animais; Mas,por favor não torne este mundo mais cão do que aquilo que já é!

04/01/94  

 Padre Júlio Grangeia