NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Chama-se Maria! Simplesmente Maria! É assim que ela é conhecida. É assim que ela gosta de ser tratada
A Ti Maria, a tal que é simplesmente Maria, é mesmo, uma mulher simples! Simplesmente simples! E porque o é, paga pelo facto de o ser!
Teve uma "catrefada" de filhos! Se calhar foi este o seu mal. Ela que deu luz tanta vida, só recebe, agora, morte! Tanta morte! Ela que teve tantos filhos, na realidade, agora, não tem nenhum. Ou por outra: Ela ter... tem! Simplesmente os que tem não se comportam como tal.
Depois de uma vida bem sacrificada; depois de ter passado fome, "e fome negra, senhor padre",- como ela fez questão de deixar claro; depois de tantas vezes ir para a Praça à chuva e de tamancos, para ganhar a vida, porque os "sapatitos", esses, eram só para o domingo - para o domingo e só para ir à missa; depois de tantas vezes ter comido uma côdeazita de broa... trabalhou como uma galega... e lá foi amealhando uns tostões...
Sabe Deus, com que dificuldade lá foi educando os filhos ... mas educou; educou e até formou alguns deles. O marido, coitado dele, só soube fazer filhos... mas, apesar de tudo, foi um amparo para sociedade. Só que, agora, também morreu...
Agora, a Ti Maria, a tal que é simplesmente Maria, a tal que tem filhos mas que não tem vive! Vive, quer dizer, vai vivendo vai vivendo à espera da morte; "Só peço a Deus que me leve, senhor padre!; Eu não aguento mais este inferno..."
Chama-se Maria. Simplesmente Maria. É uma mulher que está viva mas que vai morrendo aos poucos; aos poucos vai vivendo...a morte!
Os filhos, que foram a razão do seu viver, são agora a causa da sua morte. Os filhos, a quem tudo deu ... agora não lhe dão nada, a ela...; Os filhos que tanto amou e por quem se deu, não dão ...nem se dão: emprestam, vendem... inclusive o carinho; o carinho que não se vende é agora comprado pela reforma magra da ti Maria!
Estive a falar com ela; A ti Maria que já andava desanimada, veio um dia destes, ter comigo; vinha desanimada; vinha desabafar; ela, agora, já não aguenta mais...
A filha, ao jantar, disse aquilo que antes só pensava; agora nem sequer pensa no que diz:
-VOCÊ TEM QUE FAZER ALGUMA COISA! NÃO PENSE QUE ESTÁ AQUI SÓ PARA ENCHER A MULA!
A Ti Maria Chora! Só sabe chorar Agora só sabe chorar! É das poucas coisas que ainda sabe e pode fazer CHORAR! Não tem para onde ir. Teve filhos. Tem muitos filhos mas não tem nenhum filho! Esta filha era uma das que ainda a ia tratando. Agora trata-a, assim, desta forma intratável! desumana
A Maria já não sabe mais o que fazer. A filha que a suporta já não está disposta a continuar a encher a mula da mãe...; se calhar nunca esteve
A mãe que trabalhou que nem uma galega; continua, pelos vistos, a ser galega...; Até a malguita de sopa lhe atiram à cara... A malguita de sopa que lhe dão...para encher a mula...; a mula da galega
Chora! E ouve! Das poucas e das boas, ou melhor, das muitas e das fracas; Continua a ouvir daquelas que ninguém quer ouvir...
Na sequência de todo este drama, desabafa:
- Qualquer dia mato-me...- responde a Ti Maria à filha; responde o que pode; responde o que sabe; Pelos vistos, ela sabe muito...mas agora pode pouco; responde aquilo que ainda pode fazer: matar-se. E Volta a ouvir da filha:
- Olhe mate-se! Mas diga-me primeiro o dia e a hora...
Chama-se Maria! Simplesmente Maria! uma mulher viuva; Teve uma catrefada de filhos; agora apesar de os ter ...não os tem.
Deu tudo por eles. Agora não recebe nada. Só recebe maus-tratos!
Agora só recebe uma malguita de sopa que, no entender da filha, lhe vai enchendo a mula.
Pois é, amigo ouvinte! Se algum dia, encontrar alguém, afogado num poço talvez seja a Ti Maria que se matou sem dizer o dia e a hora! A ti Maria ou outra parecida que vai vivendo, um pouco, em todo o lado e, se calhar, à nossa volta; se calhar e se calhar, sem ser por calhar
Não concorda comigo, amigo Ouvinte?
Até para a semana.
29/11/1995