NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Máscaras Fora...

Olá, amigo ouvinte! E pronto! Foi um ar que lhe deu. O Carnaval acabou! Depois de muita folia, de muitas danças e de muito samba; depois de alguns costumes típicos, típicos ou atípicos, de outros quadrantes...mas que aqui, neste "jardim à beira mal plantado", se reproduzem tal e qual, como no país de origem - como se o nosso clima fosse igual ao de outras paragens; Depois de alguns exageros em tudo, menos na indumentária ("está-se" mesmo, a ver claro!)... chegou, agora, um tempo diferente. O tempo da Quaresma: Tempo de encontro connosco mesmos; tempo de arrancar as máscaras; tempo de sermos nós próprios...

Só que, amigo ouvinte, esta coisa de sermos nós próprios tem muito que se lhe diga. Habituamo-nos de tal maneira às "máscaras" - por querer ou sem querer... - que, quando se trata de as arrancar...é o "cabo dos trabalhos". Dá, até, a impressão que fazem, já, parte de nós: da nossa vida, da nossa maneira de ser e de estar...

O caso que eu hoje lhe quero contar, e que, mais uma vez, aconteceu "Na frequência da vida" - aconteceu... e está constantemente a acontecer... - comprova exactamente isto...

Vamos, então, ao caso desta semana.

Poderia chamar-se Marta. Frequenta o 7º ano. É uma menina bonitinha mas traquina, "que eu sei lá"!

Estou sempre a mandá-la calar. É uma coisa impressionante!... Dá até a impressão que a Marta tem a fobia do silêncio. Seja no modo como fala para os colegas, seja na maneira como se relaciona com os professores, a Marta parece, mesmo, que não tem conserto; não há mesmo ponta por onde se lhe possa pegar...

Tantas vezes já a mandei calar, ou, até, falar um pouquinho mais baixo para não prejudicar as aulas dos meus vizinhos, que agora, basta só olhar para ela...que é o bastante para ela, a Marta, adivinhar o que eu lhe quero pedir...

- Tá bem stôr... eu calo-me; eu calo-me...! - Lá responde, assim, invariavelmente, a Marta, cheia de boas intenções no momento em que se justifica mas que escassos segundos após já tudo esqueceu...

A Marta, amigo ouvinte, é mesmo um caso típico de uma Adolescente a passar aquela fase bem ingrata que nós sabemos muito bem como é, até porque também já por lá passámos! Eu bem tento dar o desconto... ; mas..."qual quê"!?. Por vezes é preciso, mesmo, um "camião TIR" de paciência...

- Ó Marta...mas por que és assim?! - Pergunto-lhe, desta vez, com voz meiga, para ver se a "coisa pega"...

- Assim, como, stôr?! Eu não fiz nada! - responde, em jeito de "trovão", a minha aluna, com o ar mais inocente do mundo; do seu mundo, claro!

- Estás sempre a falar, a falar... Oh, Marta, Descansa, agora, um bocadinho, "bolas"!! - respondi, assim, amigo ouvinte, já um pouco "desapacientado"...

- Eu estava calada, stôr; desta vez não fui eu; foi a Susana !- lá responde a Marta, queixinhas "qb", sempre, sempre com a resposta que lhe convém na "ponta da língua"....

Decidi, por isso, naquele dia, mudar de estratégia: Em vez de entrar " a matar"... decidi "puxar ao sentimento"...

- Sabes, Marta, gostava de te conhecer?

- Então... mas o stôr ainda não me conhece?!

- Não Marta! Não te conheço. O que eu conheço é uma aluna que se chama Marta, que só faz barulho, que implica com tudo e com todos, que trata mal toda a gente... Sim, esta aluna eu conheço! Só que tu não és assim! Tu não deves ser assim, pois não?! Tu não és má; aquilo que tu és mesmo... é uma coisa muito diferente! - Respondi, assim, amigo ouvinte, sem perder o "fio à meada". Como pairasse um silêncio, continuei ...

- Cá para mim, Marta, ...tu andas a fingir! Cá para mim tu és assim, e estás, sempre irrequieta, porque sofreste muito!| Acho até que andas triste...

A Marta ficou, amigo ouvinte, por momentos em silêncio; por breves instantes, como que caindo em si própria. Depois, dando conta que o silêncio a estava a incomodar, lá volta de novo a "Marta" que eu estava farto de conhecer:

- Eu?! Triste, stôr!? Oi! Oi! Oi - responde, assim, com voz de trovão a minha aluna. Sim, amigo ouvinte! A Marta que me "chagava o juízo" todo o ano, estava, outra vez, de volta; com a máscara que sempre usou...

- O Stôr ... acha que ela é triste?! É triste, é?! Devia ver o que ela faz aos rapazes que a apalpam...; depois é que via quem era triste ......

Gargalhada geral em toda a turma e eu, amigo ouvinte, prestes a rebentar, com esta tirada, de "caixão à cova"...

Entretanto a aula chegou ao fim. A Marta, que era sempre das primeiras a sair, naquela tarde arrumou vagarosamente os livros e os cadernos. Foi a forma que ela encontrou para estar sozinha, sem dar muito nas vistas! Depois, "como quem não quer a coisa", e sempre a andar, dando ar de quem é forte, e de quem não quer fazer "figura de fraca", responde, de pronto, ao passar por mim:

- Então o stôr acha mesmo que eu sou triste?!

- Acho, não!! Tenho mesmo a certeza! - respondi, com segurança, amigo ouvinte!

Depois de um compasso de espera, e depois de se certificar que ninguém a ouvia, ainda, exclamou:

- Sabe stôr ?! ... Há dois meses é que eu andei, mesmo, triste; foi quando os meus pais se separaram, sabe?; Mas agora não! Agora já estou boa!!!... Agora já estou boa!!! - respondeu, assim, cheia de confiança, a minha aluna como que convencendo-se a ela própria daquilo que não sentia mas que gostava de sentir...

Percebe, amigo ouvinte!? Há dois meses aconteceu o que aconteceu...agora... agora, já estava boa; já estava..."boa"!

Chama-se Marta. Após dizer que agora estava boa... fugiu... como que arrependida e envergonhada de ter dito o que dissera; de ter arrancado a "máscara"; de ser ela própria...

Finalmente percebi. Finalmente tinha conhecido a Marta!

Chama-se Marta! É uma menina traquina, irrequieta, "boqueira" até mais não! É uma "acusa Cristos", como eles dizem; não deixa copiar ninguém, bate nos colegas que a apalpam, responde mal a quem a ela se dirige, não gosta do silêncio...

Chama-se Marta! Sofreu muito há dois meses... aquando da separação dos pais...

Agora, diz ela, "já está boa"...; já está ..."boa"... mas continua a dar nas vistas; continua a ser um caso difícil...; continua a rir-se por tudo e por nada ...mas tem, também, um olhar triste!

Não é assim tão difícil de a entender, pois não, amigo ouvinte?

Não concorda comigo?

Até para a semana.

 Padre Júlio Grangeia

25 de Fevereiro de 1998

Crónica difundida no dia 25 /2/98 na:

Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz) às 08.30 e 23.30 horas

na Rádio Regional do Centro de Coimbra (96.2 Mhz) às 08.30 horas

E difundida no dia 28/2/98 na

Rádio Nova de Cantanhede (103.0 Mhz) às 08.30 horas.