Na Frequência da Vida
Chama-se Rosa. Tem 4 filhos e vive num barraco; vive, quer dizer vai sobrevivendo! É o que se pode; é o que se pode arranjar; pelo menos é, assim, que ela se arranja; se arranja e se desarranja; é assim que ela se desenrasca; se desenrasca e se vai desenrascando
Está casada Sim, pode-se dizer isso: está casada oficialmente com o Manel; um marido que o é para todos os efeitos:
- foi marido para fazer filhos e, para já já vão quatro ;
- é marido para volta e meia se embebedar; e neste aspecto tanto ele como ela andam à compita volta e meia; (volta e meia e meia volta; é quando calha!; é quando calha e como calha!; é para onde estão virados );
- e é marido também para trabalhar: sim, vai trabalhando, conforme pode; conforme pode e sabe; conforme a ressaca o deixa
O Manel, o marido da Rosa, é assim um homem que se vira vira-se para onde está virado; Às vezes tanto se vira para o garrafão como para a porrada; é como calha! Às vezes é só porque lhe apetece! EH! É como calha e o problema é que, às vezes, muitas vezes, lhe apetece dar aquilo que ninguém gosta de receber: porrada! E quando lhe dá só para bater - "só", entende amigo ouvinte! - ainda é muito bom! -; o problema o problema é quando lhe bate e a põe fora de casa ; quer chova quer faça sol! Sim, porque o Manel, nestas coisas, não costuma ver o boletim meteorológico apesar da Televisão que também tem, no barraco que mete água; barraco que também tem telhas só que precisam também de um plástico por cima entende, amigo ouvinte?
Pois é! O problema maior é, mesmo, quando ele a mete fora de casa. E mete-a muitas vezes; principalmente quando ela está bêbada É que, ela, a Rosa, amigo ouvinte, quando bebe bebe! Entende?! Não sabe o que faz, não se lembra do que faz nem faz o que deve ou, pelo menos, o que devia: como lavar a roupa e essas coisas do género! Por isso apanha; apanha do homem, pela medida grossa; e vai para a rua; e fica na rua, junto à porta; quer chova quer faça sol até que a ressaca lhe passe!
Ele também se embebeda, mas é homem e homem sempre é homem; além disso sempre vai trabalhando
-"Ela, não, senhor padre; ela não faz um "corno"- responde, assim, o Manel ao padre quando este o interpela por aquilo que ele faz, e lhe faz; e sobretudo, quando está tão bêbedo como ela
Pois é! Amigo! É muito complicado!
Um dia destes, bem pertinho da meia noite, chovia E voltou a tragédia a acontecer. Mais uma vez, o Manel não prestou atenção ao boletim metereológico! Mais uma vez fez aquilo que muitas fez faz, quando encontra a mulher bêbeda : Bateu na mulher e deixou-a na rua E lá estava ela, a Rosa, de novo à porta da rua, esguedelhada, trémula, molhada até aos ossos e bêbeda até mais não!
O padre lá pára o carro. Lá vai bater à porta para falar com o Manel. Mais uma vez!
- Ó manel?
- Quem é?!- lá responde o Manel, tão Bêbedo como a mulher; como a mulher que pôs na rua
- É o padre Manel! Deixa a mulher entrar ;Está a chover?
- Ela que trabalhe! -Lá responde o Manel! Dentro do barraco; tão bêbedo como a mulher que pôs na rua
- Mas é a tua mulher, Manel! Está a chover! Deixa-a entrar
A mulher, a Rosa, envergonhada, lá acabou por entrar Desta vez teve sorte. O padre passou, por ali, naquela noite e àquela hora
Ele Chama-se Manel; ela chama-se Rosa; Bebem e bulham; bulham e bebem. E fazem filhos: Já têm 4; quatro filhos que vão assistindo, mergulhados nesta "bagunça"! a toda esta tragédia!
Um já anda no Ciclo; a outra, tem onze anos e já anda um velho atrás dela ; o outro pois é amigo o melhor é acabar por aqui! Não é preciso dizer mais nada, pois não? Adivinha-se o resto e subentende-se o futuro
Quem consegue viver, viver e crescer, de uma forma equilibrada, num ambiente como este?
Alguém tem dúvidas naquilo que estas crianças se vão tornar?;
Alguém tem dúvidas que vão ter insucesso escolar?;
Alguém tem dúvidas que vão ser apontados, mais tarde, como uns ordinários?
Mas e de quem é a culpa? Quem se atreve a atirar a primeira pedra?
Pense o que quiser amigo ouvinte! Não quero ser eu a atirar a 1ª pedra até porque, sem ter culpa, também me sinto culpado um pouco por tudo isto.
E, você, amigo ouvinte! O que é que lhe parece?
Acha que a culpa é só do Manel e da Rosa?
Pois é pois é!
Até para a semana!
13/03/96