Na frequência da Vida!

 

Se  for “só”  isso..

 

Olá,  amigo ouvinte!

É certo e sabido! Quando há alguma coisa mais escandalosa que passa na televisão, ao outro dia, quando entro na sala de aulas, é, como se costuma dizer, “certo e sabido”, ou  “tiro e queda” se quiser! Sou, logo, bombardeado com “mil e uma perguntas” acerca do sucedido: “Se vi o telejornal?”; “O que é que eu acho!?” ; “É uma tristeza”!...”; “Há cada uma...”!  etc, etc, etc...

O amigo ouvinte, sabe como é esta malta dos 16 anos em diante, não sabe?!  Se tem algum filho desta idade já sabe! Agora, imagine só, o que será com 15 ou vinte, todos juntos... desta idade! Já imaginou?! Se imaginou como será, faça de conta que é três vezes mais do que isso...e terá uma analise mais aproximada da realidade...

Ora bem, tudo isto para dizer o seguinte: Quando,  na semana passada,   foi dada a notícia, num dos canais da nossa  Televisão, acerca daquele homem, de 60 anos que, ao que parece, e ainda segundo a mesma notícia, teria engravidado, no espaço de quinze dias, duas raparigas, ainda menores, eu fiquei logo de “orelhas guiadas”...

-          Pois é! Amanhã  já vai haver fandango! – Lá pensei eu com os meus botões- pensando nas aulas de Moral que iria ter, no dia seguinte, e em  que seria quase garantido, que, em alguma delas, senão, mesmo, em todas, haveria algum “chico esperto” a  “levantar a lebre”!

Dito e efeito! Quando, no dia seguinte,  entrei na sala de aulas, e me encontrava a escrever o sumário da lição, surgiu logo a  “bôca” da ordem:

-          O “stôr” viu ontem, aquilo, na televisão?

-          Aquilo...?! Aquilo quê?! – fiz-me eu de desentendido!

-          Aquilo...daquele homem... que engravidou as duas miúdas...?!

-          Ah, ...isso...pois....;  vi qualquer coisa .... – respondi, assim, propositadamente evasivo, para ver o que dava...

-          O “stôr” já viu...?! –Exclamava, assim, a Sofia!

-          E já viu a respostas que as mães deram?... Em vez de estar no “contra”... ainda defendiam mais o nojento do homem...- lá opinou , desta vez, a Carla não se coibindo de fazer já a sua interpretação do facto....

-          É por essas e por outras ... e por garotas como estas.... que às vezes acontece o que acontece...– lá dizia desta feita, a Soraia - que só se chama, assim, nesta crónica- cujos pais se encontram, agora,  numa fase complicada, e em que o desfecho mais previsível, é o divórcio, a curto ou a médio prazo!

Porque toda a turma já estava a par da situação e do sofrimento desta aluna, por causa das discussões permanentes dos seus pais, e isto porque, há 15  dias ou há três semanas atrás, esta mesma aluna “para não rebentar” – como ela dizia -  já tinha contado diante de todos o que se estava a passar, aproveitei a “deixa”, para mudar de assunto. Mais do que falar de casos da Televisão, importava, sim, falar e reflectir sobre estes alunos em concreto...

-          Pois é Soraia! Também tens razão, sim senhor! – acabei por responder, assim, para, de seguida, e aproveitando a boleia que esta aluna me dera,  me inteirar melhor da sua situação:

-          E, então,... a tua situação, como está!? “Na mesma, como a lesma”?! – perguntei, assim, parafraseando o adágio popular.

-          Ó “stôr”... “como é que está a minha situação”... “como é que está a minha situação”...? – respondeu assim, a minha aluna, remoendo a mesma frase, repetindo-a umas poucas de vezes, desalentada, para, acto contínuo, me interpelar, dando simultaneamente a resposta:

-          O que é que acha?!; o que é que acha? – Perguntou,  reforçando, assim, a sua resposta,  como que a querer dizer, por outras palavras,  que a “coisa”  estava cada vez pior!

-          Mas eles já se separaram?

-          Ainda não... mas acho que era o melhor que faziam... – lá respondeu assim esta minha aluna, cujos pais andam de “candeias às avesas”, sem que se veja  “ a luz ao fundo do túnel”...

-          É por estas e por outras! Quando não se está bem, muda-se! – lá respondeu a Andreia, filha, também ela de pais separados, para, de seguida, acrescentar:

-          O que é que é melhor: é eles estarem, cada um para o seu lado ...e não haver discussão...ou continuarem juntos e fazerem cenas destas?!

-          É por estas e por outras  que não entendo aquilo que a Igreja diz! Acho que devia aceitar o divórcio...ou o “stôr” acha que é melhor assistir todos os dias ao pai a levantar a mão para a minha mãe?! ? Sim...levantar a mão? – interpelava, agora, a Tatiana, deixando a turma estupefacta.

O caso  das outras alunas já era conhecido. Que a Tatiana passava pelos mesmos problemas, como pelos vistos era o caso,  ficámos naquela tarde a saber ... e foi a surpresa geral...

Um silêncio inundou a sala, algo comprometido!

Um silêncio... pois...o que é que se poderá dizer em situações deste género?!

Só que, pelos vistos, as novidades não iriam ficar por ali. Para quebrar o silêncio, de uma forma quase que, incontida, e automática, segundos após esta aluna ter dito o que dissera, a Suszana, uma aluna muito amorosa, por sinal, sai-se com esta:

-          Pois...pois! “Tás” cheia de sorte”... o meu também levanta a mão!...  Só que o meu ... não fica com ela no ar... – Falou, assim, e pouco...mas fazendo adivinhar todo o resto...

 

Pois é, amigo ouvinte, pois é!  O que quer que lhe diga!

Aconteceu na minha escola...  a três alunas ... da mesma turma e , logo, no mesmo dia: Uma – e já era um caso conhecido-  tinha os pais em discussões permanentes: estão, por isso, em via de divórcio, a curto ou a médio prazo! Era um caso conhecido...pois foi ela, mesmo, que sentiu necessidade de o contar...”senão rebentava!” – como ela dizia;  uma outra, ficámos naquela tarde a saber...- afinal também  tinha o  mesmo problema: só que o pai  desta chegava, mesmo, a “levantar a mão”...! ...

Como se isto não bastasse, já depois de ter dado o toque para a saída da aula,  foi a vez da Susana que falou, quase sem querer, mas que, dizendo pouco... falou muito...e disse tudo...ou quase!  O seu pai também levantava a mão, sim....; o problema é que a mão que levantava também caía! Sim! Caía  e tornava a subir; subia, de novo...e tornava a cair...

Poderia ser Susana. É minha aluna; frequenta o 11º ano. É uma moça bonita, carinhosa, muito querida. Para já, não tem dado problemas escolares. Só que tem, também,  um pai, em casa, que volta e meia, volta e meia e meia volta,  “sobe a mão”... e desce-a logo a seguir; volta a subir a mão...e desce-a logo depressa... sobre a mãe... sobre a mãe da Susana...

Esta é uma filha meiga; é uma aluna amorosa; não tem dado problemas.... na escola.. ainda!

Ainda não dá problemas! Mas...até quando?!

Até quando, amigo ouvinte?

Até para a semana!

  

Padre Júlio Grangeia

2 de Dezembro de 2002