NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Chama-se Joana; tem vinte e poucos anos...
Aquele telefonema que ela me fez, anteontem, já tinha dado para perceber... ou pelo menos, para subentender, que não seria nada animador o que dali iria acontecer...
Do outro lado do fio telefónico, uma voz meiga, muito meiga, mas triste..., muito triste e revoltada, quase a chorar, fazia adivinhar o pior...
- Padre Júlio, ainda se lembra de mim? Eu sou a Joana; eu sou a Joana... Fui sua aluna há sete anos, lembra-se? Não se lembra da Joana que ia às suas aulas de Moral e que andava de muletas por causa duma perna? Quantas vezes já pensei em falar consigo... mas nunca tive coragem...
-Óh Joana, há quanto tempo ! Claro que me lembro! Como posso esquecer? Então que é feito de ti? Está tudo bem?- Perguntei, eu, depois de reconhecer a minha interlocutora...
-Não..., padre Júlio! Não está nada bem; Acabou por repetir, resignada, destruida, como que vivendo o que sentia- estou mesmo numa péssima; estou mesmo no fundo do poço ;Não aguento mais
-Padre Júlio... Não aguento mais! - Voltou ela a repetir, deixando adivinhar o pior! E num suspiro - quase a soluçar- lançou um apelo, num repente, antes que lhe faltasse a coragem:
-Padre Júlio, preciso, mesmo, falar consigo! Na escola, não dá! Não há "clima" e não tenho coragem! -Voltou a repetir para logo perguntar: Pode ser em sua casa?
E, amigo ouvinte, foi, mesmo, assim, e ali, e pelo telefone,que se marcou o encontro; na minha casa, onde ela, Joana, se sentia mais à-vontade; onde ela tinha mais coragem para ser ela própria!
Quando a Joana ainda era minha aluna, amigo ouvinte, há uns anos atràs, há uns cinco seis anos atràs, salvo erro, eu já desconfiava que ali, naquela perna que manquejava, e que precisava, já, do suporte da muleta, havia, ali, qualquer coisa que não batia certo... As respostas que ela ia dando, dizendo que era um problema de circulação de sangue; depois que era um problema de crescimento, depois que era um problema qualquer no osso não batiam lá muito certo... Mas, como também era uma moça nova, muito tímida, e introvertida, nunca tive muita oportunidade de saber melhor o que se passava...Se calhar nem ela própria sabia
O tempo foi decorrendo, a perna lá andava de médico em médico, de hospital em hospital...de clínica em clínica; de análise em análise! Nada! Nada nem ninguém resolvia o problema da perna da Joana. E foi, assim, amigo ouvinte, que o problema lá se foi arrastando e o sofrimento, também!; o problema e a perna; o problema da perna da Joana.
Com o desenrolar do tempo, do tempo e do sofrimento, a saúde da perna da Joana, tornava-se, assim, para ela, o objectivo nº1-farta como estava de tanto sofrer; de tanto correr para os Hospitais No entanto, pouca gente poderia prever o que efectivamente se escondia, por detràs de toda aquela aparente má circulação
Entretanto, completou o 12º ano;a custo, mas completou e saíu da escola, e nunca mais ouvi falar da Joana. Até anteontem, quando ela me telefonou, a marcar o encontro, na minha casa; onde se sentia com mais coragem;
Um mundo de interrogações pairou no meu espírito!
Infelizmente, amigo ouvinte, as minhas dúvidas dissiparam-se, quase, no próprio instante em que a vi... ; quase no preciso momento em que ela chegou a minha casa
A Joana , de vinte e poucos anos, à hora marcada, lá estava ela à minha porta; Tinha chegado mesmo à hora combinada! Era, mesmo, ela, a Joana; estava diferente; muito diferente da Joana que eu conhecera há uns anos atràs: mais mulher, mais gordita, mais bonita ... mas pálida; muito pálida; Sorriu, com um olhar triste. Dei-lhe um beijo como "Olá"e vi; vi, num ápice, o que não se pode esconder... e adivinhei o resto: A Joana estava mais bonita... mas vinha sem sobrancelhas; A Joana não tinha, já, sobrancelhas; o cabelo continuava a ser da mesma cor... mas estava a cair. Saiu, a custo do carro; vinha acompanhada das inseparáveis canadianas e vinha de saia comprida. A joana, que sempre gostara de andar de calças, vinha, agora de saia; de saia comprida até ao chão...
Subiu a custo, muito a custo, os quatro degraus...; de uma forma vagorosa, muito vagarosa; com muita cautela...
Entrou em casa, entrou na sala; sentou-se a custo; pediu ajuda e sentou-se muito devagar no maple...
E foi, então, amigo ouvinte que vi: A Joana vinha sem sobrancelhas; tinha o cabelo a cair; vinha amparada a umas canadianas; mas só tinha uma perna; Cortaram-lhe a perna, em Dezembro; cortaram-lhe aquilo que, para ela, ao longo de sete anos, foi o seu grande objectivo na vida: ter as duas pernas. Em Dezembro, o tumor maligno, avançou e tornou a avançar; não perdoou; ela, que ao longo de sete anos nunca se deu por vencida; ela que enfrentou a quimioterapia; ela que caminhou vezes sem conta para coimbra, para manter aquilo que era a sua cruz... mas também a razão do seu viver... vinha,agora, desanimada, destruida, mais triste do que a noite: tinham-lhe cortado a perna;mas,pior, tinham-lhe tirado o sentido da vida.... ;
-Percebe, agora, padre Júlio!- Perguntou, simplesmente, olhando na direcção da perna que não tinha! Que porcaria de vida! Porque é que o mundo é tão injusto para comigo? Que mal fiz eu a Deus? Que é que eu faço agora, padre júlio? Diga-me? Diga-me? Que adianta viver que adianta voltar a viver , para amanhã o tumor me aparecer na outra perna ou em qualquer outro sítio?
Percebe, padre Julio, porque não tenho coragem de contar a ninguém nem aos amigos que fiquei sem a perna!? Eles dizem que entendem mas não entendem nada!!! Estou farta de ouvir dizer que há mais quem sofra do que eu?! Eles sabem lá o que é viver sem uma perna; ter que cortar cinco centímetros na outra, fazer quimioterapia e quando acabam os enjôos é quando tenho que recomeçar tudo de novo Que porcaria de vida!
Chama-se Joana. Tem vinte e poucos anos e tinha uma vontade enorme de viver; agora não tem uma perna; cortaram-lha; não tem sobrancelhas-desapareceram com o tratamento que lhe faz, também, cair o cabelo
É para ti, Joana, esta minha crónica. Sei que estás, aí algures, a ouvir a tua história, a ouvir o que eu estou a dizer
Não te digo nada; mais nada do que já te disse;apenas isto: Quem teve a coragem de lutar contra tantas contrariedades, também é capaz de se levantar, de novo, para nova caminhada mesmo que seja só com uma perna
Olha Joana, não te esqueças; nunca te esqueças: Se choras por ter perdido o sol as lágrimas não te deixarão ver as estrelas
Percebes, o que quero dizer, não percebes?
Um beijinho para ti, tá bem
Vai aparecendo lá por casa,Tá?!
28/02/96