NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Chama-se Hipólito... mas o nome pode ser qualquer um; pode chamar-se João, António, Luciano, Ambrósio. O nome, aqui pouca importância tem. O Hipólito, que se calhar também não se chama assim, também não se deve importar; já deve estar habituado a que não o tratem pelo nome...; Se calhar nunca ninguém o tratou pelo nome...
O Hipólito tem nome... mas vive anónimo. Vive, quer dizer, vai vivendo; vai vivendo... é favor: vai sobrevivendo...
Não se sabe de onde veio; ninguém sabe se é ou foi casado; se tem ou não filhos; se é solteiro ou viúvo... Não sei; se calhar nem ele próprio sabe...
Foi um problema, há tempos, para regularizar a sua situação; foi um trabalhão, de todo o tamanho, para lhe arranjar um bilhete de identidade...
Por causa destas, de outras como estas, e de outras ainda tão incríveis que não podem ser ditas na rádio, porque ninguém acredita, o Hipólito vive como sempre viveu: marginalizado: Marginaliza-se e é marginalizado...
Com toda a franqueza, amigo ouvinte, nem sei qual a é a sua idade; duvido, até, que alguém saiba; Se calhar nem ele...
O Hipólito, o tal que é mas que pode não ser;
O tal que é pessoa mas que vive como se não fosse;
O tal que tem nome mas que vive anónimo...
O Hipólito lá vai fazendo o que pode e sabe; lá vai fazendo uns biscates, aqui e ali; uns biscates que lhe são dados, por favor. Ele, o Hipólito, lá vai fazendo uns trabalhitos que lhe são oferecidos por caridade...
Sempre vai dando para os quatro cafés que ele toma por dia e para o tabaco sem filtro...
Volta e meia, aparece a caminhar pela berma da estrada, de transístor colado ao ouvido, insensível a tudo e a todos; mesmo aos carros que lhe fazem tangentes;
Deram-me a notícia há tempos: O Hipólito está mal. Ele nunca esteve bem... só que agora está mal; mesmo mal; agora mal se pode mexer... no chão frio da barraca... Está mal: precisa, mesmo, de ser operado...
O Hipólito agora está doente; abrigado num barraco que lhe arranjaram por caridade; vai sendo alimentado pela caridade da vizinhança; lá está o Hipólito; parece um bicho... mas é pessoa...; pode não ser conhecido... mas tem nome e tudo...
Precisa de ser operado; precisa de um local condigno. Várias tentativas foram feitas...
Nada...; Nada nem ninguém o convence a mudar, a ser hospitalizado;
É ele que não quer aquilo que deve querer; Estando mal, sente-se bem; É assim que ele quer; é assim que ele gosta...
Hoje estou cada vez mais convencido: ajudar este homem, e muitos como ele, mais do que rendimentos mínimos, é respeitar a sua opção; é aceitá-lo tal como é, apesar de ser como é...
Pois, é amigo ouvinte! Se isto nos entrasse na cabeça! Se isto nos entrasse no coração!
Mas não! E O problema maior, amigo ouvinte, é que há muitos Hipólitos a nosso lado; Hipólitos que vivem em barracas, ou debaixo de pontes; a vasculhar contentores, e alguns, até, a viver principescamente... mas que nem por isso deixam de ser Hipólitos... Com aspas ou sem aspas; com nome ou anónimos...
Se cada um soubesse o que é que significa respeitar;
Se cada um soubesse que o outro, aquele que tem nome e aquele que não tem; é alguém como nós, que, pelo facto de o ser, não pode ser violentado; que deve sempre ser respeitado...; apesar de ser quem é...; apesar de ser como é...
Se Tolerância deixasse de ser, apenas, uma palavra; se ela se tornasse vida e se entrasse na nossa vida...
Pois, é: Se o respeito acontecesse; se a tolerância tivesse lugar, em qualquer lugar...
Nem o outro se despia, na televisão, para ganhar um carro; nem o pastor se virava aos pontapés à imagem; nem aquela igreja dita Universal seria perseguida; nem os Timorenses chacinados; nem o Isac Rabin baleado...
Pois é amigo ouvinte. O problema é, no entanto, mais sério; não se resolve só com rendimentos mínimos, mesmo que estes surjam por decreto. O problema é que não damos conta, ou fazemos conta que não damos conta, dos Hipólitos e, quando damos, não nos entra na cabeça que haja alguém, mesmo sem cabeça, que pense com a sua cabeça...
O problema, amigo ouvinte, é que os Hipólitos não nos entram no coração... nem por decreto!
Não concorda comigo?
Até para a semana!
15/11/95