NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Sou mesmo gay!

Olá amigo ouvinte!

Quando naquela noite cheguei a casa, o relógio marcava, quase, meia noite! O Encontro que eu tivera com aquele grupo de cristãos prolongara-se um pouco mais, e pela noite adentro. Vinha um pouco cansado...mas satisfeito. O Encontro até tinha corrido bem...

Passei pelo escritório, e liguei-me, por momentos, à Internet, para ver se tinha correio...

Enquanto descarregava uma dezena de cartas electrónicas do meu Email, a minha atenção foi desviada por um sinal sonoro e por uma luzinha que começou a piscar no écran do meu computador: Alguém, algures no nosso País, me pedia autorização para poder falar comigo, via Internet...

- Posso falar um pouquinho consigo, senhor padre? Preciso da sua autorização! Eu não sou "TS"- Dizia, assim, a mensagem escrita que me apareceu no écran do meu computador...

Contrariamente ao meus hábitos em que costumo responder, quase sem pestanejar, a quem me solicita qualquer contacto, desta vez, porém, hesitei. Hesitei em dar a resposta. É que, quem me mandava a mensagem, assinava-se como gay, como homossexual...; e como também tinha câmara, poderia muito bem enviar imagens ... imagens daquelas que o amigo ouvinte está a pensar...apesar de dizer que não era "TS"-ou tarado sexual. Por isso hesitei, receoso, não fosse o diabo tecê-las...

Entretanto, a chamada, essa, continuava à espera da minha resposta. Uma chamada que não são sabia de onde vinha nem o que queria. A única coisa que sabia é que a pessoa que queria falar comigo assinava-se como gay, como homossexual... Sim... poderia ser brincadeira. E se não fosse? E se eu autorizasse a chamada e passasse a receber cenas pouco edificantes por parte de algum tarado?

- Bem ...vamos lá em frente - lá me encorajei a mim próprio enquanto, com o rato clicava no botão da autorização...

Passados breves instantes, aparece, no écran do computador, uma mensagem:

- Obrigado, senhor padre por me ter autorizado. Peço desculpa de não poder falar mais à-vontade ... mas, sabe - lá explicou o meu interlocutor - tenho aqui alguém a dormir comigo e não o queria incomodar... Mas o senhor pode falar para mim, normalmente, porque estou com os auscultadores! O Senhor padre não se importa de falar um bocadinho comigo, pois não? - Lá perguntava este meu amigo que se dizia gay...

Fiquei amigo ouvinte sem saber o que pensar. Será que este desconhecido que me estava a requisitar uma chamada via Internet, seria mesmo Homossexual? E se é verdade que estava intrigado com esta dúvida, a forma, respeitosa, como me tratava e a educação que ele demonstrava, ao tratar-me delicadamente, por senhor padre mais perplexo me deixou...até porque tratamentos assim tão cerimoniosos, na Internet, são raros...; Tão raros que praticamente não acontecem.Para dissipar dúvidas e porque a Internet aproxima e derruba barreiras, respondi pelo microfone:

- Desculpa a pergunta tão frontal: És mesmo gay, ou dizes isso ... só no gozo?! - Perguntei como quem não quer a coisa...

Do outro lado, algures no nosso País, uma voz se fez ouvir, baixinho!

- Sim, senhor padre sou mesmo Gay. Desculpe mas tenho que falar baixinho porque tenho aqui alguém a dormir comigo que está muito cansado e eu não o queria acordar...? - Voltou a repetir para logo acrescentar:

- O Senhor não se importa, pois não? - Lá acabou por responder, de novo com voz educada, enquanto no meu écran aparecia parte da imagem do meu interlocutor: um braço... apenas... mais concretamente!

Fiquei por momentos sem saber o que pensar...mas a explicação, essa, não se fez esperar por muito tempo:

- O Senhor padre desculpe de não "dar a cara". Mas na Internet nós não sabemos em quem confiar. E se eu lhe liguei foi porque dizia que era padre. E eu hoje precisava de falar um bocadinho com um padre. Importa-se? Importa-se de falar comigo que sou homossexual? - Lá respondeu a voz educada do meu amigo Gay, algures numa terra qualquer do nosso País. Sim... não me disse onde estava. Também não perguntei. Achei que não deveria perguntar...

- Então... mas, já agora, quem é, quantos anos tem e o que faz? - Se não é indiscrição gostava de saber o mínimo da pessoa com quem estou a falar! - Respondi, amigo ouvinte, com expectativa crescente, sem saber o que o meu interlocutor iria dizer- se é que ele iria dizer alguma coisa...

- Desculpe de não lhe contar agora muitas coisas a meu respeito. Se o senhor padre quiser, pode ser que em futuros contactos eu me abra mais consigo... Mas pode tratar-me por Miguel; posso dizer-lhe que estou a viver com o meu companheiro há doze anos e sou assistente universitário...

E foi esta, assim, amigo ouvinte a breve apresentação feita pelo meu amigo Miguel, que não se chama assim, dita com simplicidade, com educação e com voz baixa para não perturbar o companheiro. O companheiro que vivia e dormia com ele há doze anos...

Sim, amigo ouvinte. Eu padre, naquela noite, estava, sem dar por isso, a ser o confidente de um homossexual...; um homossexual que era também assistente universitário...

Fiquei por momentos sem saber o que dizer. A Educação patenteada, as boas maneiras que demonstrava, o trato e o tacto no que dizia e na forma como dizia, desarmava qualquer um.

Sim! Não havia dúvidas: Este contacto não era para gozar; era sério! Não estava a gozar comigo ... e era mesmo homossexual... A forma como me falava e falava do companheiro; a delicadeza que evidenciava, ao falar baixinho para não prejudicar o outro, o colega, o companheiro que estava cansado e a dormir... - como o meu amigo Miguel fez questão de sublinhar- deixou-me sem reacção...

Por isso apenas me atrevi a dizer, timidamente:

- Olha Miguel, tenho muito prazer em falar contigo. Quero que saibas que aprecio bastante a tua sinceridade e a tua confiança...

- Obrigado, padre, por falar comigo e pelas palavras simpáticas. Sabe, Viver a dois nem sempre é fácil. Temos que diariamente aprender a viver com o outro que é diferente de nós; temos muitas vezes de por de lado as nossas comodidades porque o outro é alguém que tem também o seu espaço, os seus direitos... - Lá começou por responder, assim, o Miguel, Assistente universitário, Homossexual, que vivia com um homem há doze anos e que falava dele como um marido fala da esposa...

Fiquei, pequenino, amigo ouvinte. Sim...pequenino; talvez seja a palavra que melhor possa descrever a sensação que eu experimentei naquela noite, no momento em que falava com este homossexual via Internet : Sim aquele homem, a viver com outro homem há doze anos, procurou o padre... para o ajudar a ser mais homem... a ele que vivia com outro Homem...

- Sabe, senhor padre- lá continuou o Miguel- não é fácil a vida a dois...; às vezes dizemos coisas da boca para fora... mas é só da boca para fora e se as dizemos é por amor e porque queremos bem à pessoa que está connosco ... Só que às vezes ficamos em baixo. Porque, sem querer ofendemos ou somos ofendidos... Por isso hoje quis desabar um pouquinho consigo que é padre. Desculpe o tempo que lhe roubei, está bem? - Respondeu com delicadeza o Miguel, homossexual, assistente Universitário e a viver com um Homem, seu companheiro já lá vão doze, doze anos!!

Pois é, amigo ouvinte... nem sei que lhe diga mais! Tento respeitar esta opção, do Miguel, mas também lhe digo que para os meus valores, para minha maneira de ser e de estar... não está a ser nada fácil. Por outro lado, aceitar o outro, sem mais, é sempre complicado; E se ele é muito diferente de nós, até na Sexualidade, como era este o caso, mais complicado se torna... Por isso amigo ouvinte, sem concordar com o Miguel , procurei respeitar naquela noite aquela pessoa; aquele ser humano, independentemente de ser homossexual ou não! Embora, para mim, a homossexualidade seja algo anti-natural e, se calhar, uma disfunção genética- não posso esquecer, contudo que, o que é importante, mesmo, não é a homossexualidade...mas o homossexual e porque este é pessoa tem de ser respeitado como tal, independentemente de tudo o mais...

Sim custa-me aceitar....e tive ocasião de dizer isto mesmo ao meu amigo Miguel. Ele respeitou o meu pensar mas educadamente disse que não pensava da mesma maneira...

Agradeceu-me as palavras trocadas; pediu a minha direcção electrónica, para poder continuar a conversa noutra altura mais apropriada...

Naquela noite deitei-me interpelado... e contente comigo mesmo...

Apesar das diferenças grandes entre nós... cheguei facilmente à conclusão da grande verdade do slogan: "Todos diferentes, todos iguais!"

Sim... todos somos diferentes em alguma coisa; às vezes em muitas coisas e grandes ...Mas também não deixa de ser menos verdade que todos somos iguais na dignidade...como este meu amigo desconhecido que era homossexual mas que, porque era sério, continuava a andar à procura dele próprio...

Porque rotulamos, muitas vezes, as pessoas sem as conhecer verdadeiramente?

Não concorda comigo amigo ouvinte?

Até para a semana

18/03/98

 Padre Júlio Grangeia

Rádio Soberania (99.3 Mhz)

Crónica difundida na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz), no dia 18 de Março de 1998 às 8.30 horas e 23.30 horas.

Difundida ainda na Rádio Regional do Centro de Coimbra (96.2 Mhz) no dia 18 de Março às 8.30 horas e na Rádio Nova de Cantanhede no dia 21 de Março, às 8.30 horas.