Na FREQUÊNCIA DA VIDA

 Um garoto de 2 anos fala mais alto…

 Ela tem trinta; trinta e poucos anos. É solteira e tem tido uma vida um tanto ou quanto complicada. Tudo começou quanto ela tinha vinte; vinte e poucos anos…

Apaixonou-se, envolveu-se com a pessoa errada… e pronto: saiu tudo às avessas. Como resultado de todo isto, e porque não fez aquilo que muitas fazem, teve que assumir, à força, o seu acto livre. Resultado: foi marginalizada; apontada a dedo…

Aquele acto, que não durara mais de dez minutos, iria condicionar, assim, todo uma vida; uma vida inteira…

Ontem chegou a minha casa. Vinha falar comigo…

Vinha diferente; muito diferente. O penteado, um tanto ou quanto ousado, era apenas um indicador; um indicador exterior de toda a mudança interior que nela se tinha operado…

Tem trinta; trinta e poucos anos. Depois de uma vida complicada a pagar um erro que aconteceu há dez anos atrás, e em dez minutos… em apenas dez minutos…, tem agora a hipótese de ser feliz - pensa ela! De ser feliz para toda a vida! É que ela, agora, está, mesmo, apaixonada; apaixonada a sério. Ele é, para ela, o homem da sua vida…

Pode até nem ser…; pode tudo não passar de fogo de vista… mas… a forma como ela está, como ela veste, como ela se transfigurou, a começar pelo penteado, está mais que visto que está completamente diferente; apaixonada até dizer "chega" : a forma como fala- e do que fala- dissipa quaisquer dúvidas que possam existir:

Não respondeu! Também não foi necessário uma resposta com a boca. A tristeza do seu olhar, as lágrimas deslizando pelo rosto, o assoar-se vezes sem conta ao lenço de papel que já estava feito numa bola, diziam tudo…ou quase tudo…

Sim! Ele era casado. Casado, pai de filhos. Ainda por cima, e para maior ajuda, a mulher dele… também gosta dele…

Tem trinta. Trinta e poucos anos. Está apaixonada pelo Homem da sua vida…

Só que ele, o homem da sua vida, não a quer enganar; e apesar de estar confuso, e baralhado, não consegue esquecer o que ela, por sua vez, também não quer lembrar: É que ele, o homem da sua vida… é o homem da vida de mais alguém; é homem da mulher; é pai de dois filhos; é pai… sobretudo de um inocente de dois anos que não tem culpa; não tem culpa dos deslizes nem das incertezas das pessoas crescidas…

Ela já anda com ele; de mãos dadas e tudo; ela já o deixa colocar o braço por cima dos ombros; já jantaram à luz das velas; O que assumem cá fora é já uma consequência lógica do que sentem; do que sentem, e do que já fizeram como consequência de todo este sentir… Sim…há tudo isto que fala alto; mas há alguém que, ainda sem falar…ou falando, ainda, pouco, para já cala tudo e todos; é capaz mesmo de calar o grande e único amor da sua vida: uma simples criança de dois anos…

Será que os argumentos desta criança vão ser decisivos?

Afinal, de quem é a culpa? Dele? Dela? Da mulher dele? Desta criança de dois anos é que não é de certeza?

Não concorda, comigo

Até para a semana?

 Padre Júlio Grangeia