Na FREQUÊNCIA DA VIDA
Ela tem trinta; trinta e poucos anos. É solteira e
tem tido uma vida um tanto ou quanto complicada. Tudo começou quanto ela tinha vinte;
vinte e poucos anos
Apaixonou-se, envolveu-se com a pessoa errada
e
pronto: saiu tudo às avessas. Como resultado de todo isto, e porque não fez aquilo que
muitas fazem, teve que assumir, à força, o seu acto livre. Resultado: foi marginalizada;
apontada a dedo
Aquele acto, que não durara mais de dez minutos, iria
condicionar, assim, todo uma vida; uma vida inteira
Ontem chegou a minha casa. Vinha falar comigo
Vinha diferente; muito diferente. O penteado, um tanto ou
quanto ousado, era apenas um indicador; um indicador exterior de toda a mudança interior
que nela se tinha operado
- Porquê, Padre Júlio? Porque é que uma pessoa tem de fazer
sempre as coisas certinhas? O que é que adianta fazer as coisas, como manda a nossa
religião? Eu que procuro fazer tudo direitinho
e vira tudo pró torto; aqueles que
eu conheço
e que são uns grandesissímos filhos de mãe
estão como querem!
Estão na maior! Porquê? Porquê- gritou revoltada para logo acrescentar:
- Eu assim não me safo
Não aguento mais ! Já estou
farta de viver como mandam as normas! Assim não vou a lado nenhum
Que se lixe a
consciência
Tem trinta; trinta e poucos anos. Depois de uma vida
complicada a pagar um erro que aconteceu há dez anos atrás, e em dez minutos
em
apenas dez minutos
, tem agora a hipótese de ser feliz - pensa ela! De ser feliz
para toda a vida! É que ela, agora, está, mesmo, apaixonada; apaixonada a sério. Ele
é, para ela, o homem da sua vida
Pode até nem ser
; pode tudo não passar de fogo de
vista
mas
a forma como ela está, como ela veste, como ela se transfigurou, a
começar pelo penteado, está mais que visto que está completamente diferente; apaixonada
até dizer "chega" : a forma como fala- e do que fala- dissipa quaisquer
dúvidas que possam existir:
- Sabe, padre Júlio, Ele é meigo,
.atencioso
carinhoso; É
é qualquer coisa de espectacular, pronto! - responde, assim, com este
"pronto!" que diz o que ficou por dizer, resumindo, também, e assim, todo o
turbilhão de sentimentos desconhecidos mas agradáveis que vai sentindo; sentimentos que
a deixam sem jeito; como se se tratasse de uma adolescente duma escola secundária
qualquer, que acabou por encontrar o seu príncipe encantado
- Então, e será mesmo isso que tu queres? - perguntei, sem
saber muito bem como deveria colocar a questão, depois de constatar que ela, estava
apaixonada até mais não!
- Com ele, eu sou
eu sou
eu, entende? E é bom,
padre Júlio! É uma sensação única; Há quanto tempo eu não sentia isto: o coração
a bater mais forte
sempre que ele chega ao pé de mim
É tão bom estar com
ele! Eu quero ser fria, objectiva, calculista
mas não dá; nós gostamos muito um do
outro, sabe? Será que não tenho também eu direito à felicidade?
- Então
mas
e qual é o problema?- perguntei,
embora desconfiasse, já, que certamente teria que haver algum entrave, algum
"mas", pelo meio, para complicar este esquema, todo ele cheio de perfeição
aparente
- Então, não é capaz de adivinhar?- respondeu, ela,
devolvendo, assim, a pergunta ao remetente
- enquanto toda a sua fisionomia se
transfigurava em tristeza e os olhos adquiriam um brilho especial, com as lágrimas a
sairem de rompante
- Ele é casado? É isso?- perguntei
Não respondeu! Também não foi necessário uma resposta
com a boca. A tristeza do seu olhar, as lágrimas deslizando pelo rosto, o assoar-se vezes
sem conta ao lenço de papel que já estava feito numa bola, diziam tudo
ou quase
tudo
Sim! Ele era casado. Casado, pai de filhos. Ainda por cima,
e para maior ajuda, a mulher dele
também gosta dele
- Eu se fosse como as outras mandava tudo para o tecto. O
problema, sabe, é que ele tem um garoto; tem um garoto de dois anos. E eu não queria que
ele sofresse com tudo isto
- Mas
- voltei a perguntar - e ele, será que gosta
mesmo
ou não será mais uma aventura para ele?
- Não
- respondeu ela, de uma forma aérea como que a
recordar cenas inolvidáveis
para logo explicar: há coisas que não enganam: Eu sei
que ele também gosta de mim; a forma como fala comigo; os presentes que ele me dá, o
amor que fizemos; estas coisas dizem muito
; Ele deve estar confuso; mas vê-se bem
que eu não sou nenhuma aventura, entende? Mas
- ntcim- respondeu com esta
interjeição!- o garoto
o garoto de dois anos
Eu era capaz , até, de fazer
frente à mulher, de o reconquistar; de lhe estragar a vida
; de ir para a luta!
Bastava fazer aquilo que muitas fazem
Mas, bolas, que gaita de vida!
porque
será que não posso levar a melhor a um garoto de 2 anos? Porque será que tenho de ter
estes escrúpulos? - respondeu desanimada
Tem trinta. Trinta e poucos anos. Está apaixonada pelo
Homem da sua vida
Só que ele, o homem da sua vida, não a quer enganar; e
apesar de estar confuso, e baralhado, não consegue esquecer o que ela, por sua vez,
também não quer lembrar: É que ele, o homem da sua vida
é o homem da vida de
mais alguém; é homem da mulher; é pai de dois filhos; é pai
sobretudo de um
inocente de dois anos que não tem culpa; não tem culpa dos deslizes nem das incertezas
das pessoas crescidas
Ela já anda com ele; de mãos dadas e tudo; ela já o deixa
colocar o braço por cima dos ombros; já jantaram à luz das velas; O que assumem cá
fora é já uma consequência lógica do que sentem; do que sentem, e do que já fizeram
como consequência de todo este sentir
Sim
há tudo isto que fala alto; mas há
alguém que, ainda sem falar
ou falando, ainda, pouco, para já cala tudo e todos; é
capaz mesmo de calar o grande e único amor da sua vida: uma simples criança de dois
anos
Será que os argumentos desta criança vão ser decisivos?
Afinal, de quem é a culpa? Dele? Dela? Da mulher dele?
Desta criança de dois anos é que não é de certeza?
Não concorda, comigo
Até para a semana?
Padre
Júlio Grangeia