NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Aquela praia estava cheia como um ovo. O sol que se fazia sentir lançava um convite irrecusável para uma boa soneca, para um bom mergulho.
Estendi a toalha, de uma forma pachorrenta - sim, porque férias são férias- até para estender pachorrentamente uma toalha, fiz um montinho de areia a servir de cabeceira, e deitei-me de papo ao ar, procurando, assim, absorver todo o iodo e mais algum.
Fechei os olhos e procurei finalmente descansar enquanto ouvia o murmúrio do mar. Ah! Isto sim! O melhor do mundo são, mesmo, as férias- lá pensei eu.
No entanto. Já estava escrito. Aquele dia não seria para descansar. Há sempre algo ou alguém que acaba por ser o desmancha-prazeres. E foi também, amigo ouvinte, o que aconteceu, naquela tarde.
Mal fechei os olhos, uma cambada de "punks", transportando um Rádio-gravador que media quase um metro de comprimento, e que deitava um som, incrivelmente alto, que era capaz de rebentar os tímpanos ao ferreiro mais experimentado, acabaram por estender as toalhas uns poucos metros ao meu lado. Eles, pelos vistos, estavam a curtir bué, aquele som, já que faziam uma algazarra infernal. Quem disse que se descansa na praia o que precisava, mesmo, era de uma boa marretada; ou então deveria estar ali, para ver como é que elas lhe mordiam.
Mudei de sítio. Não demorou muito, sentou-se a meu lado uma senhora de idade, com o cabelo pintado de uma cor horrível. Bem há gostos para tudo. Mas aquela cor do cabelo francamente
Pareceu-me ser Francesa. Não sei se era mesmo Francesa se emigrante. Hoje, como o amigo ouvinte sabe, já não é pelo idioma que se conhece a nacionalidade. E então na praia nem é bom falar. O que há mais são pessoas, que podendo e sabendo falar Português gostam de falar o Francês pois falar Francês, em Portugal, é, "plus chic" e até pode dar para uma pessoa se poder armar em importante!
Ao lado desta senhora, de cabelo pintado com aquela cor horrível, estava um cãozinho; daqueles tipo "fufu"; aqueles que são de raça pequena e felpuda O amigo ouvinte está a ver a cena, não está?
Estava eu deitado de costas, quando oiço falar à minha volta em Francês; pareceu-me, até, que era um Francês de Portugal, entende, amigo ouvinte?!
Porque a conversa era mesmo pegada- pegada ou fiada vai dar ao mesmo- virei-me e qual não é o meu espanto quando vejo a dita madame, com a maior naturalidade deste mundo, a falar para o cão, em Francês , como se este de uma verdadeira pessoa se tratasse:
Claro que o cão, porque era cão, e mesmo sendo cãozinho não deixa de ser cão- começou a olhar para a dona, para a dita madame, com olhos de cão, com compreensão de cão e, claro, respondeu à cão: Esfregou a barriga, cavou uma cova na areia e zás fez aquilo que os cães costumam fazer nos buracos da areia
Entretanto, amigo ouvinte, e no fim de todo este cenário, um rapaz, vestido de branco, com uma lata redonda às costas, lá ia gritando, para quem o quisesse ouvir:
Acto contínuo, a madame vira-se para o fufu e desabafa:
Entretanto, amigo ouvinte, o rapaz da bolacha, lá ao longe, ainda ia gritando:
E eu, amigo ouvinte, lá dei comigo a pensar, naquela praia e naquela tarde soalheira :
O cão, o cãozinho o Fufu é apenas um simples cão. Coitado ele não tem culpa da dona que tem
- Ó Fufu- dá lá um descontozinho, à patroa, tá bem?
O amigo ouvinte dê-me agora também um desconto mas irei ficar uns tempos sem ter que me aturar. Vou também tirar uns dias de férias.
Até à próxima!
7/8/1996