NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Seria Fraude?

Olá amigo ouvinte!

Foi precisamente numa Terça feira que tudo aconteceu. E da forma mais inesperada. Estava longe de imaginar que um caso como aquele, igual a tantos outros, pudesse ser tão diferente; pudesse ter um desfecho tão insólito...

Ele tinha olhos castanhos e cabelo liso. Vestia calças de ganga e a camisa, essa, era em tons de azul. Teria uns 40 anos , "40 e picos", se tanto! Vinha acompanhado do filho; uma criança de 8, 9 anos...

Tocou à campainha da casa Paroquial e avançou em direcção à porta de entrada…

- O Senhor é o padre da Paróquia?! Vinha pedir a sua ajuda... - Respondeu, assim, de pronto, o nosso homem com sotaque Açoriano indo directo ao assunto...

Então…e o que deseja?…mas entre, entre!

- Não... Não se incomode, senhor padre. É rápido! Pode ser mesmo aqui... - respondeu de pronto, o nosso homem de olhos castanhos!

E o nosso Homem de 40 e picos, de calças de ganga e de camisa em tons de azul... lá foi dizendo ao que vinha; lá foi contando a sua história: uma história diferente de todas as outras...sim... mas muito igual... na finalidade! Sim, o nosso homem de olhos castanhos e de calças de ganga, vinha pedir ajuda... mas ajuda monetária, bem entendido! Queria dinheiro...

Fiquei, amigo ouvinte, de pé atrás... É que, já, não é a primeira vez que deparo com histórias idênticas... O Argumento varia sempre... mas na prática vai quase, e sempre, dar ao mesmo: pedir dinheiro...

É rara a semana em que não deparo com situações do género...

Ou porque é para comprar leite para o filho porque o marido é bêbedo e esturra tudo o que tem e o que não tem na bebida - como me dizia, há tempos, uma Senhora nova, na casa dos trinta; ou porque é para comprar gasóleo porque o camião ficou desferrado com uma carrada de caracóis... e tinha que estar obrigatoriamente dentro de horas na Póvoa do Varzim, se não era uma chatice - como também defendia, há tempos, um outro, de barba crescida ao pedir-me dinheiro...; dinheiro... mas para o gasóleo... como fez questão de sublinhar... claro, para o ... "gasóleo"... entende, amigo ouvinte?

Sim... casos destes..."é mato"! Estão sempre a aparecer na casa Paroquial: ou porque o condutor foi assaltado - como sustentava um outro, que me apareceu, desta vez, com a cara toda ensanguentada...; Enfim... é "à vontade do freguês"! Aparece de tudo um pouco; quase de tudo; quase sempre a pedir dinheiro: ou porque perderam a carteira e precisam de dinheiro para regressar; ou porque saíram de Espanha em Peregrinação fiados apenas na Divina Providência e sem qualquer dinheiro no bolso... - como se a Divina Providência actuasse, assim, a cair dos céus aos trambolhões, e por aí abaixo; Sim... aparece de tudo:

Ele são "Bósnios", são Associações de Ex-toxicodependentes... Sim, amigo ouvinte: aparece de tudo! Quase todos... não passam de manobras de diversão...; às vezes chega-se ao caricato como um jovem, há 15 dias, que me apareceu, imagine, a pedir 200$00 para colocar gasolina na motorizada...

Credenciados, alguns deles, a exibir documentação mesmo sem ninguém a pedir... ; trazendo cartões de recomendação, outros... é mesmo um "poder de Deus"!

Ora bem: Isto tudo para lhe dizer amigo ouvinte que aquele homem de olhos castanhos e de camisa em tons de azul, e acompanhado pelo filho de 9 que apareceu lá, na casa Paroquial, a pedir, também, ele, dinheiro, me deixou de pé atrás...

A História, a sua história, que se conta em poucas palavras, não me convenceu de todo:

Tinha dívidas para pagar, precisava de pagar a renda e como estava à espera de um subsídio - não sei de onde... - e que não chegou na hora que ele contava...; e porque tinha que cumprir compromissos...e porque não o podia fazer, naquele momento, daí a razão porque estava ali! Sim... o Homem de calças de ganga e camisa em tons de azul estava ali a pedir dinheiro só até o subsídio chegar...

- Olhe tenha paciência! Mas dinheiro não... - foi esta assim, a resposta que recebeu. Nós ajudamos ... mas a nossa forma de ajudar não é dar dinheiro....- E foi esta, amigo ouvinte, a resposta que ouviu! O caso parecia claro!

O nosso homem, bem que argumentou, justificou, jurou pela saúde do filho e de não sei mais de quem mais... mas...estava decidido: Não me convencia de todo. Além do mais "gato escaldado de água fria tem medo..."...

Arranjou-se, à pressa, uma saca com alguns géneros e despedi o Homem de olhos castanhos e cabelo liso "à Francesa"...

- Olhe...tome lá... é pró miúdo- Foi a resposta que levou, juntamente com uma saca com alguns géneros alimentares que recebeu, sim, mas com indiferença... Ficou mais do que claro: o que ele queria mesmo era dinheiro...

Após fechar a porta, não resisti à tentação: por detrás da cortina da janela...e por momentos ainda segui com o olhar, o nosso Homem de camisa em tons de azul, para ver o que fazia...

Ele, o nosso homem na casa dos 40, lá saiu, vagoroso e cabisbaixo. Agarrou no saco que eu lhe dei com uma mão enquanto com a outra apertava fortemente o filho num abraço forte; tão forte como solidário...

Ao chegar à rua deu uns passos titubiantes, colado à berma da estrada ... e acabou por se sentar nas escadarias de uma casa. A cabeça, essa, estava curvada. Ficou assim, por momentos; por largos instantes. Depois de estar alguns momentos com as mãos na cara e de passar as mãos pelos olhos e pelo cabelo- como que penteando-se em "dois tempos" - continuou apático e abúlico. Nada nem ninguém o fazia sair da sua letargia...

Embora perplexo... acabei por voltar ao cartório Paroquial... com uma dúvida a assaltar o meu espírito: seria fita ou estaria mesmo necessitado?

Não foi necessário pensar muito! Não tinha passado mais do que um quarto de hora quando ouço bater à porta:

- Ó Senhor padre...sou eu! Sou eu! - respondeu uma vozinha de criança...

Intrigado- até porque não conhecia a voz que me chamava- abri a porta e eis que deparo com o filho; o filho do homem de 40 que acabara de sair...

Olhou, por momentos, para mim, em silêncio e com olhar triste! Não falou muito; também não foi preciso! O que disse deixou-me sem jeito; sem jeito, sem argumento; sem palavras...; sem palavras e com o coração apertado...

- Ó senhor padre ... ajude o meu pai, sim? Ajude o meu pai para ele não chorar mais...tá bem?! - E foi este, assim, amigo ouvinte, o apelo que ouvi daquela criança de nove anos; do filho do homem que momentos antes saira da casa Paroquial...

- Ajude o meu pai, sim? - suplicou, de novo, a criança, olhando com ansiedade para mim e com a tristeza estampada no rosto...

Sim... aquela criança de nove anos, vinha pedir ajuda; Estava ali, em vez do pai...a pedir ajuda ...para o pai! Não queria ver o pai a chorar...

O que quer que lhe diga mais, amigo ouvinte?

Não sei se é manobra, se já está treinado para dizer o que disse e da forma como disse... Não sei!

Se calhar fui mais uma vez enganado. É possível! Mas, mesmo assim, prefiro ter sido enganado do que continuar em dúvida e a ouvir aquela vozinha inocente a massacrar-me a consciência:

- Ajude o meu pai, sim? Eu não quero que ele chore! Tá bem?

E você amigo ouvinte! Era capaz de dizer que não a uma criança de 9 anos que, com olhar triste, nos vem pedir ajuda ...para o pai não chorar?! Poderia estar a mentir...Pois poderia! Mas ... e se não estava a mentir?

Não concorda comigo?

Até para a semana.

11 de Março de 1998

 Padre Júlio Grangeia

Rádio Soberania (99.3 Mhz)

Crónica difundida na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz), no dia 11 de Março de 1998 às 8.30 horas e 23.30 horas.

Difundida ainda na Rádio Regional do Centro de Coimbra (96.2 Mhz) no dia 11 de Março às 8.30 horas e na Rádio Nova de Cantanhede no dia 14 de Março, às 8.30 horas.