NA FREQUÊNCIA DA VIDA

  Tinha fome…

 -Então, Stôr, já fez a crónica para amanhã?

- Não Sandra. Ainda nem sequer pensei no que hei-de falar- acabei por responder, satisfeito porque, pelo menos, a Sandra, é uma das que faz o favor de me escutar todas as semanas.

De facto, amigo ouvinte, a Sandra, é uma aluna minha do 10 ano que todas as semanas se tem mostrado uma ouvinte assídua. De tal forma que, sem ela saber, acaba por constituir, para mim, como uma referência acerca da forma como a crónica chega ao auditório. Como é muito simpática, diz sempre que gosta; nunca diz que não gostou... mesmo quando não gosta tanto. Eu dou, até o desconto, a tanta simpatia, porque quando ela gosta, mesmo, não oferece quaisquer dúvidas. Mostra-se impressionada, diz até, às vezes que chorou, e assim essas coisas do género. O amigo ouvinte está a ver o filme, não está?

Eu faço esta introdução, porque logo a seguir, a Sandra acabou por dar uma resposta curiosa:

- Veja lá! Mas não conte uma história triste, está bem?

Pois é, minha querida Sandra, obrigado por estares, aí, desse lado a ouvir, mas olha que a minha vontade também não é contar histórias tristes, até porque ninguém gosta de as contar. Bem gostaria, eu, de contar só histórias lindas, que falassem de amor, e dessas coisas todas que tu gostas. Mas o problema, Sandra, o problema amigo ouvinte, é que a tristeza, a dor, as lágrimas também fazem parte da vida. Quer queiramos quer não... Por mais que nos custe, não podemos fazer, como dizem que as avestruzes fazem, quando pressentem o perigo, que é pôr a cabeça debaixo da areia. Se essa fosse a solução... se calhar já nem haveria areia para cobrir tanta cabeça... Mas não. As coisas tem de ser assumidas. Custe o que custar. Podemos fazer como aquela senhora, que quando ouviu a história triste da Joana que eu contei numa destas 4ª feiras, e que, após a crónica ir para o ar, telefonou para o locutor de serviço para colocar música alegre. Pois é... Ninguém que seja equilibrado gosta de sofrer...Nem de sofrer... nem de ver sofrer...

Só que as coisas menos boas também tem de ser assumidas, não é verdade?....

A Sandra que me desculpe, e o amigo ouvinte também. Mas hoje irei voltar a contar uma história triste que volta e meia acontece na frequência da nossa vida, e que voltou a acontecer um dia destes...

Não sei como ele se chama... Deu para muita coisa...menos para lhe perguntar o nome. Estava à espera de tudo... menos de uma cena como aquela...

Seria para aí, umas 4 e tal da tarde; mais coisa menos coisa. Há situações que acontecem com tal rapidez que nem dá para olhar para o relógio. Á porta da residência paroquial, aparece um senhor muito educado, distinto, bem vestido. Mais um para me impingir algum produto? - acabei por pensar - já escaldado por tantas situações do género. No entanto, aquele senhor distinto, de meia idade , educado e bem vestido, com aquele blaiser a condizer com a gravata e esta com as calças, tinha qualquer coisa de diferente. Não começou logo a falar... como eu estava à espera. Pelo contrário, olhou para o chão. Não... estava mais que visto; não era vendedor! Depois, de uma tentativa sem efeito, e com os olhos a lacrimejar , suplicou, com voz trémula a enterrar-se pela garganta abaixo.

- Padre... - Começo por dizer a medo, para num fôlego explodir antes que a voz o deixasse ficar mal- tenho fome!

Amigo ouvinte, foi mesmo uma sensação muito esquisita aquela que eu senti; até parecia que não sentia o chão que pisava. Aquele senhor, bem vestido, de gravata e com um blaser a condizer, afinal não vinha vender; nem vender nem comprar: tinha fome; Sim, vinha bem vestido... mas tinha fome; Tinha fome e vergonha; tinha vergonha de ter fome...

-Por favor, padre. Acredite. Não estou a enganá-lo, não. Tenho mesmo fome...

E para que não houvesse quaisquer dúvidas ainda rematou: Não lhe estou a pedir dinheiro, padre; estou a pedir-lhe qualquer coisa para comer...- acabou por responder, explodindo num choro compulsivo...

- Por favor..., padre, não me pergunte mais nada! Sabe Deus o quanto me custou ter de lhe dizer o que já lhe disse...

Não sei como se chama; Não lhe perguntei; Não sei se é desempregado; Não tive coragem para lhe perguntar mais nada. Vinha bem vestido: muito bem vestido... mas vinha com fome; vinha cheio fome. Cheio de fome e de vergonha...

Tinha vergonha em pedir de comer

Comeu e saiu como entrou: cheio de vergonha. E eu dei comigo a pensar...

Que raio de vida esta: Já há comida variada para cães e para gatos; os restos de comida não servem para certos animais. Tudo isto já existe no nosso mundo em que a Internet é o que está a dar...

Porque será, então, que ainda há pessoas com fome... e vergonha... e vergonha de ter fome?...

Há aqui qualquer coisa que não está a bater certo? Não lhe parece amigo ouvinte?

 Até Quarta-Feira!

 17/04/96 

 Padre Júlio Grangeia