NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Nunca lhe chamaram Filha

Chama-se Daniela. Tem 17 anos de idade e é assim como que, uma moça muito … muito especial. Volta e meia risse; risse por tudo e por nada; é, mesmo, capaz de se rir como uma perdida. E então, amigo ouvinte, quando dá para rir é, mesmo, um caso sério; primeiro que se cale; primeiro que se controle… é um problema; escangalha-se toda…

O problema da Daniela, amigo ouvinte, apesar de se rir como uma perdida, até nem é o riso. Afinal de contas não há mal nenhum no mundo em se rir… mesmo que ao fazê-lo se escangalhe toda, como é o caso. O problema é, mesmo, a oportunidade; a altura em que ela se ri: É que a Daniela, amigo ouvinte, é, assim, a modos que uma pessoa de contrastes; de contrates e contradições. Quando o pessoal está bem disposto… é capaz de estar todo séria e "trombuda"; se o pessoal está triste, ou se se fala de coisas sérias… pronto… está o "caldo entornado": vira-se a rir como uma desalmada deixando todo o mundo sem jeito. E o que é mais curioso é que há assuntos que não há mesmo volta a dar: quando se fala de amor, de carinho… e assim destas coisas do género, a Daniela fica de um jeito que só visto…

Claro, por ser quem é, e por ser , assim, como é, por se rir a torto e a direito, e mais a torto do que a direito, ouve dos colegas aquilo que ninguém gosta de ouvir…

"És uma parva"; "És uma taralhouca"; "És uma tristeza"… e outras declarações qual delas a mais sugestiva….

Óbviamente que o caso da Daniela, amigo ouvinte, não é nada normal. Essa coisa de se rir e sobretudo quando todo o mundo está a falar de coisas sérias… convenhamos que no mínimo é insólito; é mesmo, deve ser mesmo, um caso sério. Eu já vinha desconfiando há muito tempo, que aquele riso, assim, sem jeito, sem jeito nem oportunidade, devia ser só para exportação; s´"para Inglês ver"! A Daniela não devia ser nada daquilo…

Até que um dia… a verdadeira Daniela deu-se finalmente a conhecer. E foi, assim… como quem não quer a coisa … Por causa de uma coisa bem simples.

Estávamos, numa aula, a falar das relações Pais-Filhos, destes com aqueles e daqueles com estes, quando alguém foi comentando aquilo que a mãe lhe dissera por ela, filha, lhe ter mentido: Ó Filha, PORQUE É QUE ÉS ASSIM? - Respondia, assim, uma aluna, transcrevendo uma frase que a mãe lhe havia dito, por ela, filha, lhe ter mentido…

Estava tudo em silêncio, a escutar o diálogo quando se ouve um soluço:

Era a Daniela! A Daniela estava a chorar; mas a chorar mesmo. A Daniela que se ria a torto e a direito; a Daniela que sempre dava gargalhadas quando se falava de coisas sérias; agora, quando se estava a falar de uma coisa séria… não se riu; Chorou…

- Ó Daniela, que é que se passa, agora? - perguntei intrigado! Afinal de contas o assunto apesar de sério não justificava assim tantas lágrimas quanto isso; e muito menos da Daniela que praticamente só sabia rir…

Depois de enxugar os olhos com as costas da mão, e de tentar colocar um sorriso… que desta vez não enganou ninguém, a verdadeira Daniela estava finalmente a dar uma amostra fiel do que realmente era…

- É que… é que… - lá tentou responder a Daniela a soluçar, para concluir a custo:

- Sabe, stôr, Nunca em casa me chamam filha; O meu pai só me tratou uma vez por filha; quando fiz treze anos;

- Ó Daniela, mas o meu pai também não me chama filho…; só me trata pelo nome… e eu nem por isso fico assim tão chateado…- Lá respondeu o Luís, um colega da Daniela.

- É diferente: Não Vêem que é diferente?- Exclamou a Daniela para logo concluir, mastigando as palavras: Vocês não percebem nada…; Vocês não percebem nada…; Vocês já ouviram tantas vezes que até já se fartaram; Sabem lá o que é nunca ouvir o pai a chamar-nos filha…

- Óh, lá estás tu com as tuas "paragens"?- lá veio mais esta boca já nem sei de quem?

- Paragens é! Pois é! … Pois é! Se eu vos disser que também nunca me deram um beijo…também é paragem, não é?- exclamou, assim, a Daniela desta forma irrefutável !

- Oh, oh… Estás a gozar, Daniela! Então os teus pais nunca te deram um beijo?- Pergunta admirada a Clara:

- Oh… só se foi quando eu era pequena. Mas nem isso me lembro…

Chama-se Daniela; tem dezassete anos. Risse por tudo e por nada. Só para disfarçar; "só para Inglês ver"!; no fundo é a forma que ela encontra de dizer "Estou aqui", "Sou eu", "Eu também existo"... Não sabe se os pais alguma vez lhe deram um beijo… Só se foi quando era pequena; Se lho deram não se lembra! O que se lembra bem, muito bem, mesmo, foi a primeira e até agora última vez, que a trataram por filha: Foi o pai que a tratou por filha, quando fez treze anos. Foi a melhor prenda que recebeu. Uma prenda que nunca mais esqueceu; mesmo agora com os seus dezassete anos…

Chama-se Daniela…    Mas, amigo ouvinte, não haverá por aí, muita gente como a Daniela, a rir-se de coisas sérias, só para não chorar… … e só porque nunca são tratados como filhos que são?

Até para a semana.

1 /5/96

 Padre Júlio Grangeia