NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Olá amigo ouvinte !
Gostaria de começar esta minha crónica de Hoje, Quarta-Feira, contando-lhe primeiramente um caso, que eu li num pequeno jornal - ontem ou anteontem, salvo erro - e depois fazer consigo uma breve reflexão acerca do que aconteceu este último fim de semana, em que milhões de pessoas se deslocaram aos cemitérios.
Pois bem! Vamos então ao caso: um caso insólito, incrível mas verdadeiro.
Dizia o tal jornal, que um senhor chamado Eduardo Sierra, de Nacionalidade Espanhola, fez uma viagem de negócios a Estocolmo.
Quando ele já se encontrava em Estocolmo, e uma vez que era uma pessoa crente, lembrou-se de entrar numa igreja para rezar. O templo encontrava-se vazio mas algo lhe chamou a atenção. Dentro do templo encontrava-se um caixão com um cadáver em câmara ardente.
O nosso amigo Eduardo Sierra, ficou um pouco surpreendido. Afinal de contas, não é todos os dias que se encontra um cadáver, dentro de um caixão, numa Igreja, abandonado por toda a gente. Resolveu por isso, por uma questão de fé, rezar uma oração pela alma daquele morto. Como se encontrava, perto do caixão, um livro de condolências, resolveu, também, escrever o seu nome bem como a sua morada. Pelo menos, oficialmente, apesar de abandonado, aquele morto sempre acabaria por ter alguém que se lembrara dele - Lá terá pensado este nosso amigo Espanhol...
Poucos dias depois, quando já se encontrava em Espanha, mal podia acreditar no que lhe tinha acontecido: o morto, por quem ele tinha rezado, tinha deixado a sua fortuna à primeira pessoa que rezasse por ele. Como o morto não tinha herdeiros, e como tinha determinado, ainda em vida, que a sua herança seria para a primeira pessoa que por ele rezasse, a fortuna acabou, assim, por cair nas mãos do nosso amigo Espanhol.
Afinal, pelos vistos, ter fé nos dias de hoje ainda compensa poderia ser, muito bem, esta, a Moral da História; a moral desta história verdadeiramente insólita, incrivelmente verdadeira
Pois é, amigo ouvinte: Ao ler este caso verídico, e lembrando-me muito bem do que aconteceu este último fim de semana, dei comigo a pensar: há coisas que só acontecem, mesmo, a quem tem fé e porque têm fé
Se assim não é, então como se pode explicar a concentração nos cemitérios de milhares de pessoas? Nós que gostamos de ser tão certinhos, tão objectivos, tão racionalistas; nós que gostamos, tanto, das coisas palpáveis e concretas; nós que gostamos, tanto de ter os pés bem assentes no chão porque fomos, então, ao cemitério?! Não sabemos muitíssimo bem, o que acontece passados que são alguns anos, a todos os que são sepultados? Então, porque fomos ao cemitério? Mero Saudosismo? Então e o que é feito das nossas teorias, das nossas certezas, das coisas concretas de que tanto gostamos?
Não será, antes, porque sentimos, ou melhor, intuímos, que, com a morte, afinal nem tudo acaba?
Afinal de contas, e bem vistas as coisas, as provas que nos norteiam, as bases que nos sustentam, os raciocínios que nos fortalecem tudo, isto, afinal, não chega para provar tudo; se calhar não chegam, sequer , para provar o mais importante: a nossa sede de absoluto. Talvez, aqui, nestas circunstâncias, a fé nos ajude a perspectivar melhor a vida, a nossa vida: A vida do Além mas também a vida do Aquém! A nossa vida e a vida dos outros
Foi a fé - a fé que levou à oração - que fez com que o Espanhol Eduardo Sierra ganhasse uma fortuna. Para nós, talvez não nos obtenha uma fortuna mas não tenho quaisquer dúvidas de que nos pode proporcionar, também, uma grande riqueza: repensar o que nem sempre se pensa, analisar o que nem sempre se analisa; reflectir naquilo que nem sempre se reflecte
E há coisas, amigo ouvinte, que nos podem fazer pensar; e pensar bastante
Que adianta o nosso orgulho, a nossa imagem, as nossas posses, os "Jet Sets", as "higt society", o fazer as coisas para "inglês ver" ou para "picar cartão" e outras coisas que tais? Já reparou? Todos morremos; ali Todos somos iguais!
Se a morte não servir para mais nada que nos ajude, pelo menos, a repensar a nossa vida. Vida que, se calhar, e por vezes, sem ser por calhar, nem sempre é vivida de uma forma séria! Mesmo, até, depois da morte!
Já pensou amigo ouvinte: É importante a linguagem das flores como é importante, também, a luz das velas em certas ocasiões É que, no fundo, acabam, muitas vezes, por nos dizes coisas que são impossíveis de transmitir de outra forma sem dúvida Mas e lá vem o "mas" mais uma vez adiantará acender velas depois da morte se não fomos luz em vida?
Adiantará a cera, na morte se não fomos "sin- ceros", "sem cera!", em vida?
De que adiantam as flores depois da morte se, em vida, só oferecemos espinhos?!
De que adiantará estar ao lado dos nossos familiares defuntos, num cemitério se em vida vivemos afastados e separados deles? Onde é que está a lógica em tudo isto?
Mais do que flores na morte não será antes preferível gestos de amor em vida?
E o que dizer de tantos e tantos que tiveram mais visitas depois de mortos, do que quando estavam vivos?
Não há, aqui, qualquer coisa que não bate certo?
A saudade, a recordação, o amor por quem já partiu, as flores e as velas tudo isto pode ser e é importante: mostra que temos sentimentos; mostra que somos Humanos; que somos pessoas, quando queremos. No entanto, se a nossa presença no cemitério só significa isto se calhar é pouco; a fé talvez explique e complemente o que falta; talvez possa provar o que não se prova; Talvez nos estimule a fazer o que ainda não foi feito
Se ela nos ajudar nesta perspectiva, a abrir novos horizontes, para que diante da morte se repense a vida já terá sido importante a nossa ida ao Cemitério. Talvez não tenhamos ganho uma fortuna como o Espanhol da nossa história mas se calhar, se nos ajudar a encontrarmo-nos melhor com os outros e connosco próprios já valeu a pena
Não concorda comigo, amigo ouvinte?
Até para a semana.
6/11/96