NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Fizemos amor

Estava longe; mesmo muito longe de imaginar que aquele dia iria ser diferente; que aquela aula, aquela última aula daquela turma dos alunos mais velhos iria ser tão especial…

Como o amigo ouvinte deve imaginar - mesmo que não esteja muito dentro destas andanças - a última aula, até porque é a última… - e está tudo dito! - é sempre uma aula especial. O pessoal anda mais excitado, mais atordoado; tem a cabeça virada para tudo… menos para ali…, para a sala de aulas…

E foi, pois, já com esta predisposição que eu entrei naquela sala…; para fazer uma ligeira auto-avaliação e as despedidas da praxe. Isto pensava eu; isto era aquilo que eu tinha programado… Mal podia imaginar que aquela aula iria transformar-se, se calhar na melhor aula que eu tive ocasião de participar, nestes últimos doze anos- tantos quantos já lecciono esta disciplina de Moral…

Depois de umas breves considerações, um aluno, já farto, por certo, de tantas auto-avaliações, sai-se com esta…

  • Como a melhor defesa é o ataque, ataquei, devolvendo a pergunta…
  • Como era só o pessoal masculino que estava a entrar na conversa, decidi, meter a pessoal feminino ao barulho…

  • Depois dum curto silêncio - sim, porque quer queiramos quer não, falar destas coisas ainda não é assim tão fácil como alguns possam pensar- alguém, muito segura de si, para variar, abre as hostilidades, com uma opinião completamente contrária :
  • Pelos vistos, e felizmente, a nossa amiga, não pensou assim nem esteve com meias medidas :

    Depois de ficar por momentos em silêncio, como que a pensar se deveria continuar ou não, e de olhar fixamente para todos os colegas, como que a certificar-se se estes eram dignos dessa confiança, remata deixando a turma num silêncio sepulcral; é que ninguém; ninguém, mesmo estava à espera que saísse o que acabou por sair:

    Como todo o pessoal tivesse ficado sem jeito… lá me saí com aquelas respostas que dizem tudo e não dizem nada:

    E amigo ouvinte foi bonito de ver o que se passou a seguir. Algumas colegas com a lágrima ao canto do olho por tamanha sinceridade, lamentavam-se de o ano estar a acabar e de já não haver mais diálogo tão franco e tão aberto…

  • As barreiras estavam agora, e finalmente, todas derrubadas. Os tabus haviam desaparecido. E falou-se sério, e muito a sério, mesmo, destas coisas que às vezes se fazem a brincar; falou-se da prevenção; da responsabilidade do acto sexual na adolescência e da preparação para o mesmo. Falou-se da maturidade e da imaturidade; trocaram-se experiências; discutiu-se com calor e, desta vez, com experiência de causa, os prós e contras; e concluiu-se que o melhor era esperar… e não fazer uma coisa tão bonita … assim à pressa; assim sem mais…

    E, amigo ouvinte, apesar de ser a última aula deu direito a mais dez minutos- o tempo que durou o intervalo...

    No fim, eu, padre e professor, chamei a aluna em questão e à frente dos colegas deu-lhe um beijo:

  • - Olha, Obrigado também por confiares em mim …- acabei por concluir - … E por me teres proporcionado a melhor aula que eu jamais pensei participar - lá pensei eu com os meus botões…

    E você, amigo ouvinte:

    Não se sentiria orgulhoso se estivesse no meu lugar?

    Não concorda comigo?

    Até para a semana .

     Padre Júlio Grangeia

  • 19/06/96