NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Estava longe; mesmo muito longe de imaginar que aquele dia iria ser diferente; que
aquela aula, aquela última aula daquela turma dos alunos mais velhos iria ser tão
especial
Como o amigo ouvinte deve imaginar - mesmo que não esteja muito dentro destas
andanças - a última aula, até porque é a última
- e está tudo dito! - é
sempre uma aula especial. O pessoal anda mais excitado, mais atordoado; tem a cabeça
virada para tudo
menos para ali
, para a sala de aulas
E foi, pois, já com esta predisposição que eu entrei naquela sala
; para
fazer uma ligeira auto-avaliação e as despedidas da praxe. Isto pensava eu; isto era
aquilo que eu tinha programado
Mal podia imaginar que aquela aula iria
transformar-se, se calhar na melhor aula que eu tive ocasião de participar, nestes
últimos doze anos- tantos quantos já lecciono esta disciplina de Moral
Depois de umas breves considerações, um aluno, já farto, por certo, de tantas
auto-avaliações, sai-se com esta
- Ó Stôr , antes de acabar , sempre queria saber a sua opinião sobre a
masturbação
- Rematou seco
- para usar uma linguagem futebolística já que
estamos no Europeu de Futebol
- Então, e o que é que queres saber?- perguntei, jogando à defesa
- Então
o que é que o Stôr pensa
acerca dessa coisa?
Como a melhor defesa é o ataque, ataquei, devolvendo a pergunta
- Então, e o que é que tu pensas que eu acho?
- O que é que vocês pensam que
eu penso? - Acabei por estender a pergunta, desta feita, a todo o pessoal da turma
- Quase que aposto que vai dizer que é pecado- lá dizia um
- Para mim é uma coisa normalíssima dizia outro
Como era só o pessoal masculino que estava a entrar na conversa, decidi, meter a
pessoal feminino ao barulho
- Então, e as meninas o que é que acham?
Depois dum curto silêncio - sim, porque quer queiramos quer não, falar destas
coisas ainda não é assim tão fácil como alguns possam pensar- alguém, muito segura de
si, para variar, abre as hostilidades, com uma opinião completamente contrária :
- Ó stôr se quer mesmo saber
o que eu acho mesmo é que isso é um
nojice
! Respondeu cheia de convicção esta aluna. Depois, ponderando melhor a
resposta que dera, acabou por corrigir:
- Bem
uma nojice
não
não é bem isso que eu quero dizer; O que eu
quis dizer é que uma pessoa não tem necessidade de fazer essas coisas
; eu pelo
menos não me estou a ver a fazer essas coisas
- Cuidado
Não digas nunca porque se calhar às vezes
- comecei por
responder à cautela
- Já lhe disse Stôr. E digo-lhe mais: Não preciso nada dessas coisas
- E não tens outras compensações
? - perguntei, arrependendo-me de ter feito a
pergunta imediatamente após de a ter feito. Só depois de a fazer é que me dei conta que
poderia ser uma pergunta indiscreta e altamente comprometedora
Pelos vistos, e felizmente, a nossa amiga, não pensou assim nem esteve com meias
medidas :
-
- Por acaso tenho
mas poderia não ter
- O quê? Tens compensações?! - voltei a perguntar convencido que não teria
percebido bem pergunta
Depois de ficar por momentos em silêncio, como que a pensar se deveria continuar ou
não, e de olhar fixamente para todos os colegas, como que a certificar-se se estes eram
dignos dessa confiança, remata deixando a turma num silêncio sepulcral; é que ninguém;
ninguém, mesmo estava à espera que saísse o que acabou por sair:
- Sabe, Stôr, eu também tenho confiança no stôr, não há problemas. Olhe, o que
lhe quero dizer é que já aconteceu "isso" que está a pensar; Foi há quinze
dias, que aconteceu a 1ª vez
Como todo o pessoal tivesse ficado sem jeito
lá me saí com aquelas respostas
que dizem tudo e não dizem nada:
- Ai sim? E então? Estás arrependida? - perguntei, procurando emprestar a maior
naturalidade
- apesar de estar um pouco surpreendido pela franqueza da resposta.
Afinal de contas não é todos os dias que uma rapariga do 12º ano diz em frente da turma
que fez amor
- Arrependida, não, stôr
Estou diferente
Entende?
E amigo ouvinte foi bonito de ver o que se passou a seguir. Algumas colegas com a
lágrima ao canto do olho por tamanha sinceridade, lamentavam-se de o ano estar a acabar e
de já não haver mais diálogo tão franco e tão aberto
- Porque será que agora é que o ano está a chegar ao fim?- perguntou retoricamente
uma colega
As barreiras estavam agora, e finalmente, todas derrubadas. Os tabus haviam
desaparecido. E falou-se sério, e muito a sério, mesmo, destas coisas que às vezes se
fazem a brincar; falou-se da prevenção; da responsabilidade do acto sexual na
adolescência e da preparação para o mesmo. Falou-se da maturidade e da imaturidade;
trocaram-se experiências; discutiu-se com calor e, desta vez, com experiência de causa,
os prós e contras; e concluiu-se que o melhor era esperar
e não fazer uma coisa
tão bonita
assim à pressa; assim sem mais
E, amigo ouvinte,
apesar de ser a última aula deu direito a mais dez minutos- o tempo que durou o
intervalo...
No fim, eu, padre e professor, chamei a aluna em questão e à frente dos colegas
deu-lhe um beijo:
- Olha é uma forma de te dar os parabéns. Não por aquilo que fizestes
porque
se calhar até nem foi bem aquilo que fizeste e, se calhar, ainda não era a altura certa;
mas, quero dar-te os parabéns pela sinceridade, e pela frontalidade com que assumistes o
que nem sempre se assume; o que nem todos assumem - repeti - alertando para a
responsabilidade de um acto que é bonito mas que deve trazer consigo, também
responsabilidade; muita responsabilidade
- Olha, Obrigado também por confiares em mim
- acabei
por concluir -
E por me teres proporcionado a melhor aula que eu jamais pensei
participar - lá pensei eu com os meus botões
E você, amigo ouvinte:
Não se sentiria orgulhoso se estivesse no meu lugar?
Não concorda comigo?
Até para a semana .
Padre
Júlio Grangeia
19/06/96