NA FREQUÊNCIA DA VIDA

  Exorcismo

A tarde começava a chegar ao fim! A noite caía...

De repente o telefone toca! Do outro lado do fio, uma voz angustiada, aflitiva...

-Senhor Padre, venha depressa a minha casa! Nem sei como lhe hei-de explicar!- Desabafa, do outro lado do fio telefónico alguém que, e a avaliar pelo tom de voz, encontrava-se arrasado...

-Mas, então, o que é que se passa?! - Acabei por perguntar.

-Ó senhor padre... só visto! Venha cá! Tenho cá uma miúda que adivinhou tudo aquilo que eu fiz no meu emprego...- Explicava a mesma pessoa...

Sinceramente, amigo ouvinte, percebi logo o que se tratava. Vi logo que ali havia coisa de "espíritos" , como se costuma dizer. Embora lhe tenha dito que não acreditava em nada dessas coisas, e de lhe fazer notar que tal práctica era contrária ao pensamento da Igreja Católica, acabei por lá ir. Pensei que poderia ser uma oportunidade excelente de desmascarar este tipo de situações que tanta angústia exercem sobre certas pessoas...

Peguei no carro e meti-me ao caminho!

Ao chegar ao destino, lá encontrei, à porta da casa, esperando ansiosamente a minha chegada, a pessoa que me havia telefonado...

-Ainda bem que veio depressa, Senhor padre... Entre, Entre! -Começou logo por descarregar; foi esta a sua saudação…

-Mas... então o que é que se passa?!

-Ó, Senhor, padre, olhe... mais do que lhe contar o que quer que seja... o melhor é o senhor ver com os seus próprios olhos; venha, venha depressa! Eu já nem sei o que hei-de pensar! Está ali uma miúda de dezasseis anos que ninguém a segura...-Acabou por explicar,desta forna inexplicável, o senhor que minutos antes me havia telefonado.

Como se encontrava no primeiro andar, subi as escadas e eis que me encontro no corredor que dava acesso ao quarto da doente! Enquanto me preparava Psicologicamente para o que "desse e viesse", não deixei de reparar em dois promenores que me deixaram, por assim dizer, algo apreensivo.

O primeiro detalhe que me desconcertou foi encontrar no corredor, encostada à parede, uma estante só com livros de Bruxaria. O livro de São Cipriano estava lá bem à vista assim como outros com caveiras na capa. E eu comecei a pensar comigo:

-Olha "cá está"! Mas para que é que tu vieste?! Estavas tão bem em casa...

No entanto, amigo ouvinte, um outro promenor me chamou também à atenção e me deixou mais apreensivo: No quarto, onde se encontrava a doente, havia uma lâmpada vermelha que ainda tornava o ambiente mais lúgubre e tétrico...

O problema no entanto estava ainda para acontecer. Mal sabia eu o que me esperava. Antes de entrar no quarto, onde me aguardava algumas pessoas que se encontravam em volta da cama da doente, alguém tem a infeliz ideia de me chamar padre- e já vai ver porque digo que foi uma ideia…infeliz:

-Entre, Entre, Senhor Padre!...

Meu Deus, o que ela foi dizer! Quando entro no quarto e deparo com uma miúda de 16 anos agarrada por cinco homens de peso, mal podia acreditar no que via. Mas mal sabia eu o que estava para acontecer. Quando entro no quarto e olho para a doente e esta para mim, Santo Deus, foi um autêntico terramoto o que aconteceu. Depois de resvirar os olhos, e de quase se levantar, apesar de estar fortemente agarrada (…por cinco homens …de peso!) , a doente explode em ódio e raiva, virada para mim, como gata assanhada:

- Vai-te!!! Vai-te!!! Vaiiiiii-teeee!!! - gritou furibunda, com olhar de ódio!!!

Fiquei calmo! Embora não o estivesse, apararentei uma calma que interiormente não possuia...! E, amigo ouvinte… aconteceu uma cena incrível... muita parecida àquela que talvez já tenha visto no filme "EXORCISTA" . A doente, quase a rebentar com a cama - tal a força que patenteava- continuava a explodir ódio enquanto vomitava uma ladainha de asneiredo de alto calibre...

- Seu filho deste, seu filho daquela,... Carvalhos e folhas...e vai não sei para onde...e não sei para quê- ou sei só que, como o amigo ouvinte deve calcular não posso aqui reproduzir linguagem tão porca como aquela que eu ouvi...

Bem, amigo ouvinte, e para resumir a história. Depois de chamar todos estes nomes à minha mãe e a mim próprio, depois de toda esta cena de arripiar cabelo, surge o (mais) incrível...

Talvez estivesse à espera que eu fizesses cruzes e que lhe deitasse água benta para cima ...não sei. O que sei é que não lhe fiz nada destas coisas... apenas dei um berro que até me admirou como é que o telhado não caíu, dada a força com que o grito saiu da minha garganta!:

-Já chega de parvoice! Já chega de espectáculo- E comecei a bater palmas...como que dando a entender que estava a aplaudir o espectáculo…

Amigo ouvinte: Foi remédio… "santo"! A doente, depois deste tratamento de choque,depois de respirar apressadamente... voltou finalmente a si...se é que alguma vez deixou de estar fora de si... e, então, é que foi lindo.

Dizia alguém, lá do quarto, armada em Psiquiatra de meia tigela:

-Sabe, Senhor padre, o que ela precisa, é de um bom padre. De um bom padre e de sapos cozidos na boca...

Eu, amigo ouvinte, depois de ouvir o que ouvi, fiquei ..."doente", aborrecido mesmo! Para já não falar no facto de ela ter dito que o que a doente precisava era de um bom padre; isso era a mesma coisa que dizer que o padre que estava ali não valia um carapau…

Mas dei comigo a pensar: Como é possível que haja alguém tão atrasado e tão ignorante que ainda acredite nestas coisas? E não é o problema de acreditar ou deixar de acreditar! O problema se fosse só esse...até nem era o mais grave! O problema é que estava a contribuir ainda mais para agravar o estado de saúde da doente. Por isso, meio chatiado,com tudo isto, ainda exclamei:

-Olhe, quando levarem a pequena a um bom psico-terapêuta (sim,acabei por rematar, porque é de um bom profissional o que ela mais precisa), marque também uma consulta para si, está bem?!...porque - acabei por dizer,- "pelo andar da carruagem", já nem sei quem é que mais precisa de médico...

Não gostou do que ouviu, pois claro. No entanto, e já de saída ainda exclamei:

-Olhe, a propósito, tire aqueles livros daquela estante e mude a lâmpada do quarto está bem?!: Vai ver que os espíritos desaparecem todos daqui que é um mimo -Acabei por responder,completamente persuadido do que dizia...

Mais tarde acabei por ter a confirmação: a moça havia tido um trauma sexual na sua infância... e agora, imagine, amigo ouvinte, culpavam os "espíritos"...

Pois é amigo ouvinte! Com tantos livros de São Cipriano, com tantas luzes vermelhas no quarto, com tantos sapos cozidos, com todo aquele ambiente tão exotérico e tão tétrico , com toda aquela credince...convenhamos...não há água benta que resista! Até o diabo se via "à rasca" com tal "aparato!"

 Padre Júlio Grangeia

02/02/94