Culpada sem ter ...culpa!

 

O relógio marcaria aí umas 5, cinco e pouco da tarde, daquele Domingo, quando tocou a campainha da casa Paroquial.

-         É o Senhor padre?

-         Sim...quem fala? – lá perguntei eu pelo interfone

-         Olhe o Senhor já não nos deve conhecer. Podemos entrar? É por pouco tempo...

Como estava de volta de unas “nicas” lá os mandei entrar...

-         O Senhor já não nos conhece, pois não? – Lá perguntou a jovem esposa.

-         Tenho uma vaga ideia...mas francamente não sei de onde... – Lá acabei por responder, assim.

De facto, amigo ouvinte, aquele casal não me era estranho... agora saber de onde o conhecia... é que era o problema...

-         Não tem problemas! O Senhor lida com tanta gente... – Lá respondeu assim a minha interlocutora, compreensiva por esta minha amnésia, para, de seguida, me refrescar a memória...

-         Então, o Senhor padre não se lembra de um casal que o Senhor casou? – Lá perguntou assim, explicando com detalhe a capela e a localidade onde o eu tinha realizado o casamento...

-         Ah, sim, sim! – Lembro-me agora muito bem. Estão diferentes! Já nem vos conhecia!

-         Pois... A vida vai passando...e o tempo também... – Lá respondeu assim, meio resignada, enquanto o marido soltava um sorriso triste.

-          E então? O que vos traz por cá...?

-         Olhe Senhor padre, temos uma amiga que gostaria imenso que fosse o senhor a  fazer o casamento. Como ela não tem confiança com o Senhor, pediu-me a mim para eu lhe pedir a si!  Foi no nosso casamento que ela o conheceu...

Depois de me ter dito o dia, acabei por dar conta que não podia mesmo...

-         Olhem, tenho muito pena mas não “vai  dar”...

-         Não?!  Ah... que pena...! E ela que gostava tanto!

Continuámos a falar, acerca de tudo e de nada  mas fiquei com a “pulga atrás da orelha”: Estranhei que eles não tivessem insistido na história do casamento ...e também outra coisa me chamou a atenção: à medida que a conversa se foi desenrolando dei conta que só ela, a esposa, é que falava. Reparei também que o marido, sentado a seu lado, não só permanecia calado...mas algo triste! Tive, num ápice, a nítida sensação que ali havia qualquer coisa que não estava a “bater certo”...

-         Pois, é! Não posso fazer o casamento... – lá acabei por repetir para, acto contínuo, “jogar a minha cartada”, ou, se quiser, “atirar o barro à parede”:

-         ...Mas vocês não vieram aqui, por causa do casamento da vossa amiga, pois não? – Lá os interpelei, assim, como que a provocar a confidência...

Um silêncio pairou no escritório; um silêncio comprometido...

-  Então... algum problema, é...? – Perguntei, de novo ...

-         Sabe, Senhor padre, a nossa vida não tem estado nada bem... – começou ela a explicar, com a voz embargada, e com as lágrimas a deslizar pela face...

-         Então...? – Lá respondi, assim, com esta afirmação que funcionava, também, como se de uma pergunta se tratasse...

-         Sabe, Senhor padre, a nossa vida está agora muito complicada ... e a culpa é minha...;  é só minha! O meu marido está inocente...mas eu...  também não fiz de propósito!  Conheci uma pessoa, comecei a passar algum tempo com ele... entende?... e ...pronto!... Agora... estou confusa! – Respondeu, assim, limpando os olhos, com um lenço de papel, já todo desfeito pela humidade...

Depois, para que não houvesse qualquer dúvida, ainda afirmou:

-         Ainda não houve nada... mas isso também não interessa.... sinto-me culpada na mesma...  ... e confusa... entende? – lá voltou ela a repetir, para ,de seguida, acrescentar:

-          O meu marido não tem culpa...mas eu também não fiz de propósito...senhor padre! - Respondeu, assim, enquanto chorava compulsivamente...

 

É um jovem casal. Estão casados há cinco, seis anos atrás. Fui eu que os casei! Vieram procurar-me num Domingo. O pretexto foi  para eu fazer o casamento de uma amiga. Na pratica o que eles queriam, mesmo, era que eu  os ajudasse a consertar o... deles!...

Não estava fácil; Não está a ser nada fácil: "Stress" por um lado, muito trabalho pelo outro, pouco tempo para cada um, pouco tempo para os dois... E Pronto! Quando o amor não se alimenta todos os dias acontece , ou pode acontecer isto... E Aconteceu! Aconteceu... mesmo sem ainda nada ter acontecido! Sim! Não aconteceu, ainda, nada...mas, se calhar,  aconteceu  já tudo; é a desconfiança que está instalada! Ela encontrou alguém, perdeu tempo com ele, o tempo que não ganhou com o marido ... e, pronto! Está, agora, confusa ... ; muito confusa; Não sabe para que lado se há-de virar...

Foi, ao pé de mim, e junto dele, do marido, que ela disse, com as lágrimas a correr pela cara abaixo, que não tinha feito ... de propósito... e  que estava confusa...

 Ele gosta dela...; continua a gostar muito dela... mas, se calhar, o trabalho teve mais importância; mais importância do que aquela que deveria ter... E pronto! Ajudou, também, a agudizar a crise!

Ela, por seu lado, também se considera culpada; a mais culpada ... só que também – é ela mesmo quem o diz...- não fez de propósito!...

De propósito ou não está,  agora, confusa... ; muito confusa.... e chora...

Ele, por seu lado,  nada diz: Não diz...  não fala....  não chora... Sofre em silêncio...   e continua a gostar dela!

Este Natal não vai ser fácil! Não vai ser nada fácil!

Até para a semana  amigo ouvinte! E já agora, especialmente para si,   um bom Natal, um natal a sério, e mais a sério, para si e para todos os seus, e, já agora,  um ano novo de 2003 ... cheio de Natal, claro!

 

Padre Júlio Grangeia

23-12-2002