Olá, amigo ouvinte!
Já não é a primeira vez que ela aqui vem. E quando aparece...é,
mesmo, quando quer desaparecer...; fugir ...de tudo e de todos e... dela própria...
Há três semanas atrás voltou a acontecer.
Apesar de nova, já é velha. Tem dois filhos: a razão do seu viver.
Não é casada...mas é como se fosse. O marido que não o é mas que
vive como ela como se o fosse... é ... um “alma de Deus”. Volta e meia –
volta e meia e meia volta - faz das suas; das suas, isto é, das dele... A
ultima, que não é a primeira, meteu-se numa “alhada” de todo o tamanho...
e foi preso...
A vida da Júlia – poderia assim ser chamada - que não é fácil ficou, agora e assim, mais complicada; muito mais difícil...
A renda que tem de pagar, e que sempre paga “à rasca”, agora nem “à
rasca” chega. Com o marido na cadeia, fica ela, também agora, noutra prisão:
Um está atrás das grades; ela, embora livre, vive acorrentada ao dinheiro que
tem de fazer aparecer...e que tem de chegar para tudo, quando antes não chegava
quase para ...”nada”...
Para a renda, para a escola, para a vida de todos os dias...
Faz, por isso, o que pode ...e o que não pode...
Trabalha de dia num café... e à noite...aí, mesmo, onde se pode
trabalhar ...à noite...
Chega a casa noite dentro. Chega estoirada para fazer ainda ...o que
ainda não está feito...
Para alem do trabalho que nunca acaba... mas que não
chega, mesmo assim, para o dinheiro
que é pouco - e que muitas vezes vem atrasado... - meteu-se, agora, numa
embrulhada; numa outra embrulhada efectiva e ...afectiva, pois então...
Com o marido fora... – fora porque está dentro, dentro das grades;
com as contínuas saídas em busca de mais “entradas” - de dinheiro e
de afecto... - encontra ... quem não deve encontrar; encontra quem lhe dá um
pouco... do muito que lhe faz falta... e pronto: a sua vida que é negra, como o
trabalho da noite que também faz, fica agora, e assim, mais tenebrosa; mais
complicada...
Como se tudo isto não bastasse, e como “um mal nunca vem só” ...
o marido, o tal que vive com ela como se o fosse, o tal que está fora,
porque está dentro ...dentro da cadeia... apesar de estar atrás......atrás
das grades... está agora, e também, e por causa disso mesmo, à frente... à
frente do mundo... do seu mundo que é o... “sub mundo”...
E atrás ...está a par do que se passa à frente...
No seu mundo que é sub mundo fica
a saber o que ela não quer que se saiba...
Ele sabe! Ela também sabe: sabe que ele sabe; sabe que não está bem
feito o que fez... mas sabe também
que aquilo que fez ...não o fez por fazer...
Veio cá. Veio cá outra vez! Veio falar! Falar do que não se fala...
mas que só se sente; falar do que fez...e do que faz...; falar do medo: do medo
que sente, da culpa que a persegue, da saída do marido que está eminente, do
dinheiro que continua a não chegar...mesmo quando chega...
Veio aqui! Para fugir... das “fugas”, para se encontrar com ela própria...e
para chorar :
Chorar da pouca sorte que tem, do marido que tem...mas que não tem; do
amigo que lhe deu um pouco do muito que lhe faltava... mas que nunca mais tornou
a ver; dos filhos que adora e que não merecem ter...aquilo que ela não
consegue dar...
Sim... veio cá... chorar...; sobretudo chorar: lágrimas de raiva e de
ódio, lágrimas do amor fortuito que teve, do medo que a persegue... e da vida
que parece que lhe anda sempre a pregar partidas...
Poderia chamar-se Júlia, juliana, Maria, Rosa ou um outro nome
qualquer...
É nova...apesar da pele cansada e macilenta; é solteira, apesar de...
“casada”; está com o marido que não o é...mas que vive com ela como se o
fosse...
Gosta do marido que não o é, ... adora as filhas que o são, e fez o
que não se faz, não por fazer, mas para sentir um pouco do muito que lhe faz
falta...
Há poucos dias estive a falar com ..os dois! Desta vez com os dois...;
com os dois juntos, ao pé de mim...
Com ela, a Júlia, e com ele... o marido que não o é mas que é, e que
agora está cá fora...
Foi uma conversa difícil ...
Aos berros muitas vezes...;
misturada com muitas lágrimas...
com algum arrependimento...
-
Eu passei fome, muita fome – diz ela dolorida.
-
Eu sempre me preocupei contigo e com os nossos filhos... e tu
sabes disso! – acrescenta ele...
categoricamente!
-
Sabes lá... o que eu tive que trabalhar para os nossos
filhos não passarem fome...– acrescenta de novo ela, lembrando, mais uma vez,
todo o sofrimento do passado recente...
-
Sim... “trabalhar”... pois... – responde ironicamente o
marido , aludindo ao facto de ela ter
feito ...também... o que não deveria fazer...
-
Eu só te meti os “cornos” uma vez...mas é a ti que eu
amo... – explode ela em lágrimas...e ranho
Foi uma conversa séria e profunda;
muito profunda: só para adultos; daquelas que tem “bolinha” no canto do ecrã...
Esclareceram-se muitas coisas... lavou-se muita roupa suja; muita
mesmo...
Mas alinhavaram-se alguns projectos...
Prometeram tentar mais uma vez...
Chama-se
Júlia...vive com o companheiro e com os filhos...
Estão agora a reaprender a caminhar...
...depois das quedas... de ambos os lados...
“Quem não tiver pecados que seja o primeiro a atirar a primeira
pedra”...- dizia Jesus Cristo, numa situação bem parecida com esta...
Jesus Cristo, o tal que
comeu com Zaqueu, o ladrão;
Jesus Cristo, o tal que era amigo dos marginalizados, o amigo de
Madalena... e da mulher adúltera...
Quem somos nós para os apontar a dedo?
Não teremos nós, também, e muitas vezes, telhados de vidro?
Não concorda comigo?
Até para a semana.
15
– 3 – 2000
Rádio
Soberania (99.3 Mhz)