NA FREQUÊNCIA DA VIDA
E foi mesmo, ali, naquele café, enquanto tomava a
segunda bica do dia, que eu fui abordado por aquele senhor de meia idade que me tocou no
ombro, de uma forma familiar
- Oi, Senhor, padre! Está bom?
Depois dos cumprimentos habituais, e de dizer, ao
empregado do café que quem pagava a bica ao senhor padre era ele- o senhor de bigode-;
depois de olhar para todos os lados, como que a certificar-se de que ninguém ouvia a
nossa conversa, em tom de segredo, mas que todo o café escutava perfeitamente, disse
logo, ali, em três tempos ao que vinha. Não importava muito se era café, cinema, ou
igreja. Para ele tanto fazia. Apanhou o padre ali à mão; à mão de semear
e
pronto. Para ele era o quanto bastava
Ainda bem que o encontro, senhor padre. Tenho um
problemazito comigo, há já um certo tempo, e gostava de ouvir a sua opinião.
- Sabe
- continuou o meu interlocutor- Há uns anos
atrás, o meu filho teve um problema de saúde. Andou de médico em médico,
nada;
nada nem ninguém conseguiu descobrir o mal que afligia o meu filho. Imagine- e o senhor
não me leve a mal- mas olhe que até fui à bruxa
; eu que até nem sou nada dessas
coisas acabei por fazer a vontade a uns vizinhos
Sabe como é
quando nos
encontramos com o rabo trilhado a gente recorre a tudo o que estiver à mão, está a
perceber? Mas
Concluindo
mais valia estar quieto. A mulher de virtude , depois
de fazer lá umas rezas e de me mandar assistir a quinze missas seguidas
lá acabou
por me mandar embora. Disse que não era nada
mas o senhor padre sabe como é: tive
que lá deixar uma nota das grandes
já naquele tempo, veja lá!... Só que o meu
filho continuava na mesma.
- Vai daí! Pensei agarrar-me a nossa Senhora de Fátima. E
pensei cá comigo: Se não for desta
- Então, e foi?- perguntei eu um tanto curioso
- Ah, pois foi. Só tenho pena é de não ter pensado em
Nossa Senhora há mais tempo. Só que agora
agora há um problemazito
- O quê? O seu filho voltou a ficar doente? - acabei por
perguntar
- Não, graças a Deus! Quanto a isso, que o diabo seja
surdo! Nunca mais voltou a ficar doente - respondeu o nosso homem acabando por colocar
Deus e o diabo no mesmo saco;
- Então
mas qual é o problema?
- O problema é que eu fiz uma promessa
É isso: Fiz
uma promessa e ainda não tive tempo de a cumprir!
- Então
mas ainda está a tempo
ou não?
-Perguntei, na minha melhor das intenções. Estava longe de imaginar o que dali iria
surgir
- Pois aqui é que está o problemazito, sabe!
- Ai é? Então porquê?
- Sabe é que eu prometi a nossa Senhora, se ele ficasse
bom, como ficou, que ficava com ele ao colo, durante uma missa
- Bem, poderia prometer outra coisa, uma coisa mais digna;
mais digna ou mais evangélica, acho eu
mas, pronto, prometeu
acho bem que
cumpra
pois prometer, quando se está enrascado
e depois fazer-se
esquecido
acho que não está muito correcto
- lá acabei eu por concluir na
minha melhor das intenções bem longe de imaginar o que tal promessa agora
implicava
- Pois, senhor padre
mas o problema está
precisamente aqui
não sei se está a ver o problema. Como eu prometi estar com ele,
ao colo durante a Missa, e como já passou um tempito o problema é que ele agora já é
um pouco crescido
- Um pouco crescido, como? Que idade tem o seu filho?
- Bem, ele agora já tem 24 anos!
- O quê, 24 anos?! - respondi quase sem acreditar no que
ouvia. Mas, amigo ouvinte, o melhor ainda estava mesmo para chegar
- Mas não há problema, senhor padre. Eu ainda posso com
ele ao colo
; Se o senhor padre não se importar eu fico com ele ao colo, durante a
missa, mesmo assim
- Por amor de Deus! Por amor de Deus; Nem pense em
semelhante disparate- acabei por responder
sem saber bem o que devia dizer
tão atónito fiquei com a solução encontrada
.
Pois é amigo ouvinte. Neste mês de Maio, com tanta
gente a ir a Fátima a pé, para cumprir promessas, lembrei-me deste caso. Não tenho nada
contra as promessas desde que sejam sensatas; sensatas e também que as pessoas tenham
saúde para as cumprir. Caso contrário não acredito que Maria de Nazaré fique muito
agrada com tanto sofrimento que por vezes mais parece masoquismo do que propriamente fé.
Volto a repetir não tenho nada contra as
promessas
mas será que todas são legítimas e sensatas? O facto de se estar em
apuros justificará que se prometa o que muitas vezes se promete?
Por outro lado cumprir o que se prometeu, depois de se
alcançar o que se pediu
onde é que está a fé? Não parecerá isto mais um
negócio? Eu ofereço-te isto se tu me deres aquilo; se tu me deres o que te peço e faço
o que te prometi. Sejamos realistas, amigo ouvinte! Que nome é que se dá a isto? Será
fé
ou negócio?
Mostrar fé
mais do que cumprir a nossa parte
não será antes cumprir antes de saber o resultado? Não estará aqui, sim, uma
atitude de fé e de confiança em Deus ? Não será esta a verdadeira promessa?
Cumprir só depois dos resultados alcançados
é
fé
. Ou não será antes uma forma de ficarmos quites com Deus?
Não concorda comigo?
Até para a semana?
8 / 5 /96
Padre
Júlio Grangeia