NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Pagamento de promessas…

E foi mesmo, ali, naquele café, enquanto tomava a segunda bica do dia, que eu fui abordado por aquele senhor de meia idade que me tocou no ombro, de uma forma familiar

Depois dos cumprimentos habituais, e de dizer, ao empregado do café que quem pagava a bica ao senhor padre era ele- o senhor de bigode-; depois de olhar para todos os lados, como que a certificar-se de que ninguém ouvia a nossa conversa, em tom de segredo, mas que todo o café escutava perfeitamente, disse logo, ali, em três tempos ao que vinha. Não importava muito se era café, cinema, ou igreja. Para ele tanto fazia. Apanhou o padre ali à mão; à mão de semear… e pronto. Para ele era o quanto bastava…

Ainda bem que o encontro, senhor padre. Tenho um problemazito comigo, há já um certo tempo, e gostava de ouvir a sua opinião.

Pois é amigo ouvinte. Neste mês de Maio, com tanta gente a ir a Fátima a pé, para cumprir promessas, lembrei-me deste caso. Não tenho nada contra as promessas desde que sejam sensatas; sensatas e também que as pessoas tenham saúde para as cumprir. Caso contrário não acredito que Maria de Nazaré fique muito agrada com tanto sofrimento que por vezes mais parece masoquismo do que propriamente fé.

Volto a repetir não tenho nada contra as promessas… mas será que todas são legítimas e sensatas? O facto de se estar em apuros justificará que se prometa o que muitas vezes se promete?

Por outro lado cumprir o que se prometeu, depois de se alcançar o que se pediu … onde é que está a fé? Não parecerá isto mais um negócio? Eu ofereço-te isto se tu me deres aquilo; se tu me deres o que te peço e faço o que te prometi. Sejamos realistas, amigo ouvinte! Que nome é que se dá a isto? Será fé… ou negócio?

Mostrar fé… mais do que cumprir a nossa parte … não será antes cumprir antes de saber o resultado? Não estará aqui, sim, uma atitude de fé e de confiança em Deus ? Não será esta a verdadeira promessa?

Cumprir só depois dos resultados alcançados… é fé…. Ou não será antes uma forma de ficarmos quites com Deus?

Não concorda comigo?

Até para a semana?

8 / 5 /96                      

 Padre Júlio Grangeia