NA FREQUÊNCIA DA VIDA

COLAR DE OURO

Poderia chamar-se Rosa... mas aqui, e como sempre, o nome pouco importa! A  Rosa é aquilo que sempre foi: uma mulher simples! Simplesmente simples: É esta a sua grande virtude; é este, no entanto, o seu grande mal: ser simples!

A  Rosa, esta mulher simples, teve, no entanto,  uma vida complicada;   muito  complicada.

Foi casada e teve filhos… Sim  teve muitos   filhos: sete para ser mais preciso! Nem mais nem menos...São estes os que contam! Não  estou a  falar daquele que nasceu morto nem do aborto  espontâneo que as suas entranhas  não  conseguiram aguentar!

A Rosa, uma mulher cheia de vida, foi, assim, morrendo aos poucos; foi morrendo aos poucos ... para dar vida...a muitos, a muitos filhos; filhos que foram a sua grande riqueza … mas que são, agora, também, o seu grande mal…

Ela que deu   tanta vida... agora … só recebe ingratidão, desprezo, solidão…

Depois de uma vida de dificuldade , de labuta, de suor...ficou viúva! E foi ainda pior...;

Ele que nunca esteve bem… está agora mal; muito mal…

Ela   que  deu tanta vida... agora só recebe  "morte"; muita morte;

Ela  que tudo suportou por eles... agora nenhum deles a suporta; nenhum deles a atura…

Ela, agora, já nada tem; o pouco que tinha… tudo deu; tudo  deu  aos filhos; E  porque  lhes deu tudo...do pouco que  já  tinha  ...agora ninguém

ninguém a quer; ninguém quer quem já nada tem!

Ninguém está para a aturar...

Foi posta no lar...

Ela  que  venceu tantas batalhas na sua  luta  do  dia-a-dia …está, agora, sem forças e sozinha; mais sozinha! Sozinha e "pêrra"...

"Pêrra" das pernas que já não andam; "pêrra" da cabeça  que já não funciona;  "pêrra" do amor que vai  mendigando!...

Os  filhos  que tem... já não os tem; já nenhum a vai visitar ao Lar onde a despejaram…

A  Rosa, agora, está sozinha! Entregue à solidão!  

Ainda  continua  a pedir pelos seus  meninos..., os filhos ; filhos que o sendo já não o são; já nenhum se comporta como tal…

Ele  sabe…; Sabe ,mas finge não saber...;

Sim, ela sabe que os seus meninos, agora, são tudo menos meninos… e que já a esqueceram… mas ela continua a lembrar; a lembrar quem já a esqueceu. Continua  a mentir, e a dizer que gostam muito dela e que  a vão  visitar  muitas  vezes...

Só que eles os filhos …não são filhos e muito menos meninos; por isso a Rosa continua sozinha, no Lar, esquecida de todos a quem tudo deu e por quem se deu…

"Desde  que aqui entrou, senhor padre, nunca teve a   visita de nenhum filho! -Diz-me alguém que trabalha naquela casa; na casa onde despejaram a Tia Rosa …

Cada  mês  um  filho é "responsável"  por  ela... mas é  só  no "papel"! A Verdade é que nenhum a vai visitar. ..

A Rosa está agora sozinha!  E chora! Chora como uma criança. Como uma  criança  que agora passou a ser ainda mais!

Chora!   Vive   amargurada!

A   Rosa, viúva, é mãe de sete filhos, sete… só que agora é velha e nada mais tem para dar; por isso nada tem… nem os filhos que apesar de os ter… não os tem…

A Rosa morreu; morreu há tempos!...

Sozinha...pois claro!

Todos  os filhos foram ao funeral. Vieram todos  com  gravata e com luto carregada! Pois claro...

No dia da morte da Rosa, no dia da sua morte...teve o que há tempos não tinha; os filhos...

A Rosa teve finalmente os filhos ao lado dela…

Ainda  bem que a Rosa já não vive; ainda bem que não chegou a ouvir  a  pergunta que  os  filhos  fizeram ao responsável da casa onde a tinham

metido, onde a tinham despejado:

-"Onde é que está o colar de ouro que a minha mãe tinha?" - perguntou um deles…

A  mãe  já  morreu! Não sabe que agora os  filhos  andam  à bulha por causa de um colar; por causa da "porcaria" de um colar...;

Chama-se Rosa. Deu tudo aos filhos. Foi esquecida; Agora… agora é lembrada…por causa de um colar; por causa da porcaria de um colar.

Chamava-se Rosa!...

E o que é feito de tantas outras "Rosas" que ainda continuam à espera dos seus filhos?

04/12/96 

 Padre Júlio Grangeia