NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Já tem a chave...
Olá, amigo ouvinte!
Poderia chamar-se Tânia. Terá uns 15...16 anos, se tanto. Frequenta o nono ano. É minha aluna de Moral.
Desde o primeiro instante que a vi... que desconfiei, logo que, ali, havia qualquer coisa que não "jogava bem"; que não "batia lá muito certo"...
Aquele rosto bonito, simpático e sorridente... que poderia enganar tudo e todos, não me convencia de todo!
- Bem... poderá ser impressão minha! - lá pensei eu, adiando a abordagem a esta aluna para mais tarde; poderia ser que não passasse de uma cisma minha , daquelas que brotam de um "sexto sentido" qualquer...
O tempo foi passando... só que a minha cisma, essa, foi aumentando...
Havia ali ... ou lá, no rosto bonito, mas triste, desta minha aluna... havia lá "um não sei quê" de enigmático que aumentava a minha suspeita...
E foi, então, que tudo aconteceu; foi naquele dia que eu tirei todas as dúvidas... e quando nada o faria prever...
Quando, naquele dia, cheguei à sala de aulas foi "bombardeado" com uma sessão de pedidos:
-Ó "Stôr", deixe-nos estudar - lá pediu a Alexandra toda aflita...
- Ande lá "Stôr", é um teste de Matemática... - Lá "engraxou" desta vez o Ricardo.
- Pois é! Vocês não estudam quando devem... andam só, "prá aí" a "abanar o capacete" e depois ...só se lembram de "Santa Bárbara quando troveja"; Assim "não dá"... - lá acabei eu por responder com o "sermão" que se impunha...
- Ó "Stôr" mas é um teste difícil... e é já a seguir...
A coisa estava a complicar-se. Como é que vou conseguir dizer alguma coisa de jeito com este pessoal a pensar só na Matemática...?! - Lá pensei eu com os meus "botões"...;
- Bom... Se Vocês se portarem bem... pode ser que vos dê um bocadinho da aula para estudar ... mas ninguém sai; se precisarem de estudar terá de ser mesmo aqui... - lá os adverti...para de seguida voltar a perguntar:
-Mas está, aqui, alguém que não precisa de estudar para Matemática?- Lá perguntei, amigo ouvinte, tentando ver, até que ponto, o pedido que me estavam a fazer correspondia, ou não, a uma necessidade da turma... ou se era, apenas, mais uma artimanha de um ou outro para não se dar o tema da aula...
- Oh... Eu não preciso de estudar - respondeu toda feliz a Tânia, enquanto baloiçava nas mãos um porta-chaves...
- Já estudaste tudo?- perguntei, admirado, para logo concluir - ...Ainda bem; estas coisas nunca se deixam para a "última hora"...
- Ai "estudou", "estudou" ... e nem o "Stôr" imagina o quê !?? - Respondeu a Filipa, que se encontrava ao lado da Tânia, com uma voz, toda ela cheia de ironia...
- Ai...é! - Hummm... já estou a ver... aí há coisa...- respondi, amigo ouvinte, com ar de "caso" para logo continuar:
- Não me digas que estão a falar do que eu estou a pensar? - Lá respondi com o "velho truque", fingindo estar por dentro do assunto quando, na realidade, estava completamente por fora...
- Se calhar é isso que o "Stôr" está a pensar! - respondeu com um risinho "maroto" a minha amiga Tânia... sem desconfiar da minha "jogada"!
- Não me digas que sempre fizeste..." isso"? - Lá perguntei eu, de novo, fingindo estar por dentro do assunto...
-Tinha que ser, "Stôr" ...; tinha que ser!... - respondeu a Tânia sem topar que eu não estava a perceber...mas, também, sem me adiantar novas pistas...
- Então... e os teus pais?... - Continuei eu com esta pergunta inocente, ainda sem nada entender...
- Os meus pais não se importam... - Não está a ver? - Respondeu a Tânia toda eufórica, enquanto me mostrava, com um ar triunfal, o bendito porta-chaves que transportava na mão direita como se de um troféu se tratasse...
- Não me digas...?- Comecei eu por perguntar, para, de seguida, interromper, drasticamente a pergunta quando finalmente me dei conta do que realmente se estava a passar...
- Então...?! ... E os teus pais deixam... ?! Não dizem nada!?- perguntei surpreendido!
- Os meus pais estão separados! E se a minha mãe não me deixar ... também não há "crise" porque já tenho a autorização do meu pai - respondeu a Tânia, toda convicta... rindo com satisfação.
E foi, então, amigo ouvinte, que as minhas suspeitas se concretizaram em certezas e fiquei finalmente dentro do assunto...
Sim. Ela, a Tânia, a minha aluna, que só se chama assim, aqui, na rádio, já tinha casa; a sua casa; casa que ela foi fazendo com o namorado.
Ontem já lá dormiram. Hoje, a Tânia, veio para a escola feliz...e com a chave na mão. A chave da casa; da sua casa!!! Toda a turma já o sabe. Eu fiquei, ontem, também a saber...
Poderia chamar-se Tânia. Tens uns 15... 16 anos se tanto. Ando no nono ano; no nono...ano! ...E já tem casa; casa própria. Foi ela, o namorado e o pai do namorado que a construíram...; Ela, a Tânia, lá foi dando uma "mãozinha"...
- "Acartei" muito cimento, para lá, com o meu João... o que é que o "Stôr" pensa...? - justifica com orgulho a minha aluna de 15/16 anos - como se de uma mulher crescida se tratasse.... O João, o namorado da Tânia, é já o "seu" João" e porque trabalha na construção civil, lá a foi construindo aos poucos com a ajuda do pai; é lá que ele, João, agora vive; com ela; com a Tânia de 15 anos, que carrega livros para a escola da mesma forma que transporta baldes de cimentos para a sua casa...
Poderia chamar-se Tânia. Tem 15...16 anos, se tanto! É solteira ...mas vive, já, como se fosse casada. É filha de pais separados...; fez-se mulher, num instante... ela que não passa de uma miúda!
É bonita, sorridente e simpática... mas tem um olhar triste; É madura, fruto dos pontapés que levou... mas é como se de um fruto desenxabido se tratasse. Um fruto maduro, sim, mas que amadureceu à pressa...e antes do tempo! Sim...cresceu depressa; depressa de mais!
A mãe, separada do pai e a viver com outro homem, não fala. Não diz nada à filha. Mesmo que falasse pouco teria a dizer; a sua vida passada falou demais para agora ter que estar calada! O que fez ...ou o que não fez, agora não lhe dá qualquer autoridade Moral para dizer o que quer que seja à filha; muito menos para lhe dizer que ainda não é altura para assumir um passo de tamanha importância...
Sim! A mãe não fala...; Não fala, não quer ou não pode! Está "atada de pés e mãos"; Agora é tarde! Se disser agora alguma coisa contra - como se impõe... ou como se impunha... - também de nada vai adiantar; A Tânia para o que "der e vier"... já tem a autorização do pai para fazer o que ela já faz! Para fazer aquilo que o pai sempre fizera...mesmo quando ainda estava casado com a mãe; com a mãe da Tânia...
Pois é amigo ouvinte!
Quem sempre fez de pai e de mãe para os irmãos - como foi o caso da Tânia; quem sempre trabalhou e tratou dos irmãos mais novos- como ela o fez! Quem andou, como ela, com a mãe, a tratar dos papéis do divórcio dos pais; quem sempre se sentiu rejeitada... também, se calhar, merece, agora, um pouquinho de tolerância; tolerância para algo que custa a entender...mas que, se calhar, tem de se aceitar...atendendo a todas estas vicissitudes...
É que, no fundo, no fundo, amigo ouvinte, o problema não é se ela, a
Tânia, tem ou não tem casa própria, se já vive ou não com o namorado, e se já é
mulher... mesmo sendo apenas uma miúda de... 15 anos. Uma miúda de 15 que anda no nono
ano!
É preocupante que isto aconteça, sim, mas, o problema, se calhar, é outro:
Não estará esta minha aluna de 15 anos a antecipar... e a viver antes do tempo aquilo que não teve no tempo próprio: O amor dos pais?
Não concorda comigo, amigo ouvinte!
Até para a semana
Crónica difundida, no dia 28 de Janeiro de 1998, na Rádio Soberania de Águeda (99.3 Mhz)
às 8.30 horas e 23.30 horas.