NA FREQUÊNCIA DA VIDA
Chave da capela mortuária
Olá, amigo ouvinte!
Pois, é! Já estou como o outro! Há coisas que só mesmo vistas! Contadas ninguém acredita!
E eu estou a dizer-lhe isto, sabe, porque, se calhar, depois de escutar o caso que eu hoje tenho para lhe contar - um caso verdadeiramente incrível ! - não me admiro nada se ficar na dúvida, ou se pensar, até, que é uma grande peta!!!
Mas, pode crer, verdade "verdadinha", que foi mesmo isto que aconteceu: sem tirar nem pôr
Mas não quero criar mais "suspense" e conto o caso já de seguida; aliás o caso é tão insólito e caricato como é simples de contar: conta-se, mesmo, e como se costuma dizer, em duas penadas
Não lhe sei dizer com exactidão que horas seriam. Um senhor, de meia idade, com ar sombrio, e taciturno, toca a campainha da residência Paroquial
Ao que parece, a minha pergunta, inofensiva, inofensiva e óbvia, embaraçou o nosso amigo, que não estava, pelos vistos, à espera da pergunta. Se calhar, estaria à espera que lhe desse a chave para a mão, sem lhe perguntar mais nada, não sei ; Por isso, muito naturalmente perguntei:
Embora contrariado, amigo ouvinte, lá emprestei a chave; a chave da capela mortuária, para o morto que ainda não estava morto
Só que, passou-se um dia nada!; passaram dois, três dias e do morto nem notícias; passaram 4 nada. Como o amigo ouvinte, deve imaginar, comecei a preocupar-me: até porque só tinha aquela chave; já viu, se entretanto, morria alguém e eu sem ter chave para abrir a capela mortuária?! Ou já imaginou, se eu tivesse que dar uma explicação:
Só que felizmente, amigo ouvinte, não passei por esta situação caricata: Depois de se terem passado seis dias, após a entrega da chave, lá chegou o nosso homem
Graças a Deus entende amigo ouvinte! Afinal a chave da casa mortuária não tinha sido necessária. A pessoa que estava a morrer, pelos vistos, não morrera; ainda não tinha sido desta vez Pois é: o nosso amigo estava, mesmo, com azar
Pois é, amigo ouvinte! Pois é!
Que pensar de toda esta esta situação, incrível mas verdadeira, verdadeiramente incrível? Que pensar deste Homem que vem buscar a chave da capela mortuária para alguém que está quase a morrer mas que ainda não morreu?!
Não é este um caso sintomático que nos faz pensar um bom bocado?
Quem é que disse que velhos são os trapos!? Não são muitas vezes os idosos, doentes e outros que tais, tratados pior do que trapos?
Este senhor veio buscar a chave, naquele momento, para não aborrecer, mais tarde o padre, como ele dizia ? ou para despachar, o mais rápido possível, aquele fardo, mas que era pessoa, mas que só dava trabalho e que já não era produtivo??!
Pois é! O melhor é procurar a chave da capela mortuária, antecipadamente para não incomodar o senhor padre, claro! Está-se mesmo a ver, pois claro!
Pois é! Pois é! Depois mete-se uma gravata preta, como manda o figurino social; pega-se no pratinho com as chaves da urma colocam-se uns óculos escuros para tapar o sofrimento; o sofrimento entende amigo ouvinte?! Manda-se celebrar umas Missitas prá coisa ficar mais composta Sim, porque a gente até se preocupa, antecipadamente, com as pessoas ; até vamos, antes do tempo, reservar a capela mortuária? Então amigo ouvinte?! Não me diga que isto não é amor verdadeiro?!
Pois é! Pois é! E o amigo ouvinte pensa que a culpa é só deste homem?
Então E que pensar de tantos outros que são defensores da eutanásia, por exemplo? Sim desses que argumentam que se deve matar quem pede para morrer, porque está a sofrer, para que deixem de sofrer que diferença fazem do homem que vem pedir a chave antes do tempo? Afinal O que é que mais nos preocupa: será a pessoa que está a sofrer ou é o facto de nós termos, também, que gramar com o sofrimento dos outros?
E que pensar, do aborto, e do eventual aumento de semanas para se poder abortar?
Reconheço que é uma questão complexa, delicada, mesmo Mas e há sempre um "mas", nestas coisas - quando se pede a mudança de legislação nesta matéria é mesmo a saúde do ser humano que está no ventre materno que nos preocupa ou não será antes uma forma sub-reptícia de, tal como o outro, pedir, antecipadamente, a chave da capela mortuária para nos livrar de um fardo que está a mais e que nos vem complicar o esquema?
Não concorda comigo, amigo ouvinte?
Até para a semana.
23/10/96