NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Chave da capela mortuária…

Olá, amigo ouvinte!

Pois, é! Já estou como o outro! Há coisas que só mesmo vistas! Contadas… ninguém acredita!

E eu estou a dizer-lhe isto, sabe, porque, se calhar, depois de escutar o caso que eu hoje tenho para lhe contar - um caso verdadeiramente incrível…! - não me admiro nada se ficar na dúvida, ou se pensar, até, que é uma grande peta!!!…

Mas, pode crer, verdade "verdadinha", que foi mesmo isto que aconteceu: sem tirar nem pôr…

Mas não quero criar mais "suspense"…e conto o caso já de seguida; aliás o caso é tão insólito e caricato…como é simples de contar: conta-se, mesmo, e como se costuma dizer, em duas penadas…

Não lhe sei dizer com exactidão que horas seriam. Um senhor, de meia idade, com ar sombrio, e taciturno, toca a campainha da residência Paroquial…  

Ao que parece, a minha pergunta, inofensiva, inofensiva e óbvia, embaraçou o nosso amigo, que não estava, pelos vistos, à espera da pergunta. Se calhar, estaria à espera que lhe desse a chave para a mão, sem lhe perguntar mais nada, não sei…; Por isso, muito naturalmente perguntei:

Embora contrariado, amigo ouvinte, lá emprestei a chave; a chave da capela mortuária, para o morto … que ainda não estava morto…

Só que, passou-se um dia… nada!; passaram dois, três dias… e do morto nem notícias; passaram 4… nada. Como o amigo ouvinte, deve imaginar, comecei a preocupar-me: até porque só tinha aquela chave; já viu, se entretanto, morria alguém e eu sem ter chave para abrir a capela mortuária?! Ou já imaginou, se eu tivesse que dar uma explicação:

Só que felizmente, amigo ouvinte, não passei por esta situação caricata: Depois de se terem passado seis dias, após a entrega da chave, lá chegou o nosso homem…

Graças a Deus… entende amigo ouvinte! Afinal… a chave da casa mortuária não tinha sido necessária. A pessoa que estava a morrer, pelos vistos, não morrera; ainda não tinha sido desta vez… Pois é: o nosso amigo estava, mesmo, com azar…

Pois é, amigo ouvinte! Pois é!

Que pensar de toda esta esta situação, incrível mas verdadeira, verdadeiramente incrível? Que pensar deste Homem que vem buscar a chave da capela mortuária para alguém que está quase a morrer …mas que ainda não morreu?!

Não é este um caso sintomático que nos faz pensar um bom bocado?

Quem é que disse que velhos são os trapos!? Não são muitas vezes os idosos, doentes e outros que tais, tratados pior do que trapos?

Este senhor veio buscar a chave, naquele momento, para não aborrecer, mais tarde o padre, como ele dizia… ?… ou para despachar, o mais rápido possível, aquele fardo, mas que era pessoa, mas que só dava trabalho e que já não era produtivo??!

Pois é! O melhor é procurar a chave da capela mortuária, antecipadamente… para não incomodar… o senhor padre, claro! Está-se mesmo a ver, pois claro!

Pois é! Pois é! Depois mete-se uma gravata preta, como manda o figurino social; pega-se no pratinho com as chaves da urma… colocam-se uns óculos escuros para tapar o… sofrimento; o sofrimento… entende amigo ouvinte?! Manda-se celebrar umas Missitas… prá coisa ficar mais composta… Sim, porque a gente até se preocupa, antecipadamente, com as pessoas…; até vamos, antes do tempo, reservar a capela mortuária? Então… amigo ouvinte?! Não me diga que isto não é amor verdadeiro?!

Pois é! Pois é! … E o amigo ouvinte pensa que a culpa é só deste homem?

Então… E que pensar de tantos outros que são defensores da eutanásia, por exemplo? Sim… desses que argumentam que se deve matar quem pede para morrer, porque está a sofrer, para que deixem de sofrer … que diferença fazem do homem que vem pedir a chave antes do tempo? Afinal… O que é que mais nos preocupa: será a pessoa que está a sofrer…ou é o facto de nós termos, também, que gramar com o sofrimento dos outros?

E que pensar, do aborto, e do eventual aumento de semanas para se poder abortar?

Reconheço que é uma questão complexa, delicada, mesmo…Mas…e há sempre um "mas", nestas coisas …- quando se pede a mudança de legislação nesta matéria é mesmo a saúde do ser humano que está no ventre materno que nos preocupa…ou não será antes uma forma sub-reptícia de, tal como o outro, pedir, antecipadamente, a chave da capela mortuária … para nos livrar de um fardo que está a mais e que nos vem complicar o esquema?

Não concorda comigo, amigo ouvinte?

Até para a semana.

23/10/96

 Padre Júlio Grangeia