Na Frequência da Vida...
Caso-me para a semana!
Olá, amigo ouvinte!
Não conheço a senhora de lado nenhum. Não sei, tão-pouco, se ela me conhece, pessoalmente. Penso que me conhecerá, talvez, e se calhar, por causa das minhas crónicas, aqui, na Rádio. Pela conversa que ela me apresentou, tudo leva a crer que sim, que se trata de uma ouvinte mas não tenho a certeza: Nunca lhe perguntei... nem ela nunca mo disse. Sabe como é: às vezes há perguntas que gostaríamos de fazer... só que nem sempre dá jeito perguntar; ou quando dá jeito nem sempre é oportuno ou conveniente!
O que sei é que já não é a primeira vez que me telefona. Seja por causa de assuntos banais, seja porque tem algumas dúvidas. E porque tem mais confiança comigo, como ela diz – apesar de não me conhecer- lá me vai telefonando de vez em quando...
- Está, está lá? É o senhor padre Júlio?
- Sim, quem fala?
- Olhe daqui fala a senhora que de vez em quando telefona para aí e que mora onde o senhor sabe...
- E Então? – lá perguntei, eu, assim, depois de saber quem era, ou por outra, depois de saber qual a terra onde residia...
- Óh senhor padre... preciso mesmo da sua ajuda...; nem tenho dormido!
- Então...?! – Lá perguntei, de novo, deste jeito. È quase uma muleta para mim esta pergunta. Dei-me conta que, com esta palavrinha apenas, se pode dizer tudo e, é, ao mesmo tempo, uma porta aberta para as questões mais complicadas...
- Oh, senhor padre, ando aflita; a minha vida está, agora, num inferno – Começou, assim, para de seguida concretrizar:
- Eu tenho uma filha que está agora com 23 anos. É uma boa rapariga, muito caseira, sai pouco... E por isso nunca pensei que isto me pudesse acontecer. O pai anda tão abalado que já nem come: anda amuado pelos cantos...
- E então..?
- Oh, senhor padre, então não é que a minha filha chegou ontem a casa, e sem mais nem menos diz, de “chapuz”, que vai casar?!
- Bem... idade para isso pelo menos ela já tem...- respondi, assim, ainda sem perceber, a fundo, todos os contornos do caso...
- Pois... senhor padre. Mas o problema é que ela diz que se não concordarmos com a sua decisão ... que sai de casa e que se casa na mesma...
- Sabe... quem se casa é ela... – Lá fui dizendo assim, por meias palavras, como que a dizer que a decisão cabia, em ultima análise, à filha...
- Está bem, senhor padre...mas o problema é que foi exactamente ontem que ficámos a saber que ela namorava... já viu?! A gente nem sabe quem é o rapaz, se é filho de boas famílias...; uma mãe preocupa-se sempre com os filhos... não é só “botá-los” no mundo...
- Pois! Também tem razão! – Respondi para, de seguida acrescentar:
- A cama que ela anda a fazer é a cama onde ela se vai deitar ... diga-lhe isso!– lá respondi assim...
- Pois... é exactamente isso que eu e o pai lhe andamos fartos de dizer...mas ela, qual quê?!; Não liga nada; diz que é maior e vacinada... e que a vida é dela, e que nós não temos nada a ver com isso... ; e por isso ou se casa a bem ou se casa a mal....
- ...
- Estamos fartos de lhe darmos bons conselhos... mas ... “canté”! Faz ouvidos de mercador...; pensa que casar é só dormir juntos...mas não é, senhor padre; não é nada disso! – respondeu esta mãe preocupada como se me estivesse a dar uma grande novidade...
- É complicado é! – Lá falei assim, comungando das preocupações desta mãe!
- Ah, pois é... E esta gente nova sabe lá o que é a vida! – Lamentou-se, para, acto contínuo, me dar outra novidade:
- E isto... ainda não é tudo; o Senhor padre ainda não “sabe a missa a metade”...
- Então?
- Pois, então, não é que ela, ontem, chegou-me a casa, diz que conhece um rapaz... e que se vai casar com ele, para a semana... ? – Rematou esta mãe, incrédula e estupefacta, para de seguida, largar a chantagem que a filha lhe fizera, a ela e ao pai:
- E ainda teve lata para dizer: Se concordarmos tudo bem... senão que ainda faz algum disparate... !!! Já viu o estado de nervos em que nós andamos?! Para quem pensava que a filha não conhecia ninguém, e de um momento para o outro, ficarmos a saber que já conhece um rapaz que a gente nunca o viu de lado nenhum e que se quer casar já para a semana ... senão ainda se mata!...
- ...
- Já viu, Senhor padre?! Nós não podemos dizer sim, de qualquer maneira, sem conhecer o rapaz, não acha? E se dissermos Não... ?! E se dissermos NÃO e ela fizer, depois, algum disparate... ai, minha Nossa Senhora “pro que a gente tava guardado!”
Não sei como se chama, nem se me conhece. Sei apenas onde mora... Penso tratar-se de uma ouvinte das minhas crónicas...
Volta e meia, liga para minha casa. Ontem voltou a fazê-lo. A sua vida está agora num inferno A sua filha de 23 anos, que era tão boa menina e tão caseira... disse-lhe ontem, a ela e ao pai, e de chofre, que conhece um rapaz e que quer casar com ele; E já para a semana! Assim! Sem mais nem menos! Está toda decidida! “É pegar ou largar”...; Quer a mãe queira quer não...
Se aceitar... tudo bem; se não aceitar... ainda faz algum disparate...
A mãe não sabe o que lhe há-de responder e passa as noites em “claro”! O pai, esse, não come nada e já não é o mesmo...
Como pode disser sim... se nem sequer conhece o rapaz? E se disser não... e a filha fizer algum disparate!?
Pois é amigo ouvinte!
Cá para mim, esta filha, até pode ter sido muito caseira ... mas, cá para mim, anda a ver muitos filmes! Ou muitas “histórias da vida real”, na TVI, se quiser... como se casar fosse uma coisa para se decidir num dia e fazer noutro...ou passada uma semana depois... o que vem dar ao mesmo! Não é nem legalmente se pode fazer isto! Onde é que isto se viu? Isto nem no big brother: Nem dá tempo para alugar a grua!
- “E se ela se matar?” – perguntava esta mãe! Não, minha senhora! Não se mata, esteja descansada! E mesmo que faça algum outro disparate... disparate maior é conhecer hoje alguém e casar com ele uma semanas depois, ou não será?
Sim, a culpa não é sua! E se calhar até nem é da sua filha! Se calhar, é de todos nós... quando, impávidos e serenos, assistimos a tudo, com a maior naturalidade do mundo... e fazemos muitas vezes, não aquilo que temos que fazer...mas aquilo que vemos os outros fazer ou dizer que fizeram... quando, na realidade, e se calhar, até nem fizeram nada!
Pois é! Continuo na minha! Cá para mim esta filha é muito caseira mas anda a ver ... muitos filmes! Não queira, você que é mãe, cair na mesma...”fita”!
Não concorda comigo, amigo ouvinte?
Até para a semana!
Padre Júlio Grangeia
06-01-2003