A importância
das pequenas coisas!
Olá,
amigo ouvinte!
Vivemos
num mundo complicado. Complicado, impessoal e apressado . Há sempre muito que
fazer; nunca temos tempo para nada...
É
um tempo do “corre-corre”, em que o “stress” prevalece...
Vivemos
um tempo ...da “falta de tempo”; não há
tempo para nada; não temos tempo para
um simples “Olá”; para um “Olá”
autêntico e que saia, mesmo do
fundo do coração...
É
o tempo em que saudamos as pessoas com um
“Olá, tudo bem” ...mas em que nem sequer esperamos pela resposta,
pela resposta correspondente. Sim! Vivemos apressados. Não temos tempo para dar
uma palavra amiga. E às vezes basta apenas uma simples palavra para
que o dia corra melhor...
A
este propósito, gostaria, amigo ouvinte, de lhe contar um caso que se passou
comigo e que, apesar da simplicidade do mesmo, me fez pensar um bocado e que
vem na linha do que acabo de dizer.
Poderia chamar-se Helena. Não se chama assim
mas aqui passa a ter este nome. É professora.
Encontro-a quase todos os dias na Escola. Antes das aulas começarem,
trocamos muitas vezes “dois dedos” de conversa enquanto a campainha não toca...
Encontrei-a, outro dia, na sala dos Professores, antes da primeira aula. O relógio, esse, marcaria talvez umas 8 e 20h, mais coisa menos coisa! Estava ela e mais meia dúzia de colegas e falar de tudo e de nada. Daquelas coisas que se falam só para não se estar calado...
- Olá bom dia! Então, “tá” tudo bem? – Cumprimentei, assim, utilizando este chavão do “tá tudo bem”...
-
Bom dia! – Lá responderam, em coro,
os meus colegas retribuindo, assim, o meu cumprimento...
Depois
dos cumprimentos da praxe, e de uma ou outra palavra de circunstância, dei
conta que a professora Helena, naquele dia estava com um casaco diferente. Não
sei se era novo. Eu pelo menos nunca a tinha visto assim vestida, com aquele
casaco. Por isso, e até porque o casaco a favorecia, disse-lhe isso mesmo:
- Muito bem, Helena! Parabéns! Olha, esse casaco
fica-te muito bem, sabias? Fica-te,
mesmo, a “matar” –Acabei por dizer
exactamente o que estava a pensar.
- Lá está
o Júlio outra vez a meter-se comigo – respondeu, a rir, a Professora Helena, com um riso sem
jeito, se calhar, para disfarçar o
incómodo deste elogio diante dos outros colegas.
- A sério! Fica-te mesmo muito bem. Faz-te
mais nova – acabei por acrescentar.Com sinceridade!
-
Mais nova! Pois, pois, mais nova! – Repetiu ela as minhas palavras, mas
com ironia; como que a querer dizer que na fase do seu campeonato, isto é, da
sua idade, o problema já não se resolvia com casacos, ou com peças de roupa...
- A sério! Para a outra vez não te digo nada –
Respondi assim, com um ar aparentemente sério...
Entretanto, e como tinha chegado mais alguém à sala dos professores, com outro “bom
dia” pelo meio e com outro “Olá, tudo bem” ... a conversa com a professora
Helena acabou, mesmo, por ficar por aqui. Por aqui...ou por ali ... o que vai
dar ao mesmo. Aliás, mesmo que a
quiséssemos continuar também já não havia muito mais tempo! Pois é! O problema
sempre da falta de tempo! A campainha,
essa, tinha também acabado de tocar, e
agora era tempo, sim, de deixar a conversa dos casacos e de pegar no “livro de
ponto”. Estava na hora de outras... “costuras”: A sala 13 no pavilhão “A”, onde tinha aula de Educação Moral
Católica, esperava por mim ...
Entretanto, ou porque nos desencontrámos, ou porque não houve oportunidade, naquele dia nunca mais tive oportunidade de conversar com a Professora Helena, que só se chama assim nesta história...
O dia
foi passando, as aulas foram decorrendo... e chegámos ao fim de mais um
dia. Depois de ter colocado o livro dos sumários no cacifo respectivo, na sala dos professores, e de ter dado mais
uns poucos de “Até amanhã” a outros
tantos colegas que, entretanto, também tinham acabado as aulas ,peguei nas
minhas coisas e dirigi-me para o carro.
Por coincidência, ou se calhar, talvez não,
quando saía, encontrei a Professora Helena que se encontrava junto ao portão
principal da Escola.
- Então, até amanhã Helena! – despedi-me
assim.
- Até amanhã! Acabou também ela por responder,
para logo de seguida me perguntar:
- Então, achas mesmo...? – inquiriu ela.
- Acho mesmo... o quê? – perguntei, amigo
ouvinte, sem saber do que ela estava a falar.
- Achas mesmo que o casaco me fica bem? –
acabou ela por perguntar quase 8 horas
após a nossa conversa das 8.20 da
manhã...
- Ah... o casaco! O casaco...pois! – Acabei
por responder um pouco sem jeito por já não
recordar a conversa que tivera com ela e também surpreendido como é que
uma simples observação matinal tinha sido tão importante a ponto de a minha
colega não a ter esquecido no final do dia!
- Claro que sim! Claro que te fica bem; claro
que sim... – Respondi, para de seguida lhe perguntar, para compensar a minha
amnésia:
- Então... mas duvidas?!
Não respondeu! Mas foi a sorrir que me
desejou boa noite e se despediu com um “até amanhã”!
A história do casaco pelos vistos tinha
caído nela...como uma “luva”!
Pois é, amigo ouvinte! Pois é! Realmente, quem diria: uma simples palavra
simpática ... e a força que ela tem?
Custa alguma coisa, amigo ouvinte, dar uma palavra simpática, um sorriso
até...e dar conta do efeito positivo que provoca?
Pode ser uma palavra simpática acerca do
casaco que se veste, das calças que se usam ou dos sapatos que se calçam; pode
ser uma palavra sobre o
sorriso que se tem, sobre o penteado que se leva. Sei lá... Custa alguma coisa dizer em voz alta aquilo
que de bem e de bom vemos nos outros?
Pois é! Não custa nada...como não me
custou nada dizer que o casaco ficava bem à minha colega...mas foi, se calhar,
o suficiente para que o dia lhe tivesse corrido melhor...
Realmente,
já viu, amigo ouvinte, como é preciso ,
às vezes, tão pouco para tornarmos os outros mais felizes?
Não
concorda comigo?
Até
para a semana!
Padre Júlio
Grangeia
.23-09-2002