NA FREQUÊNCIA DA VIDA

SENTIMENTOS DE CÃO 

Olá,amigo ouvinte!

Hoje,nesta minha crónica, gostaria de ter consigo dois dedos de conversa acerca dos cães. E Lembrei-me de falar deste assunto tão trivial por várias razöes: primeiro porque foi, precisamente, na semana passada, que encontrei um cão,morto,na estrada que me fez pensar um bocado. Não tanto pelo facto de estar morto, e por ter sido atropelado, mas, mais, por outras circunstâncias que, mais à frente, irei referir. Por outro lado, assistimos com frequência,na televisão, a determinada publicidade que se faz aos ditos caninos que,e desculpe a franqueza, me põe os cabelos em pé. Estou a referir-me concretamente à publicidade daquele produto, PEDIGREPAL - julgo que é assim que se chama- e passe a publicidade. E esta publicidade, francamente, revolta-me: não por ser o produto que é mas por aquilo que na televisão diz dele: Essa coisa de se dizer- e isto só a título de exemplo, que "os restos de comida não servem para cães"- francamente, é, no mínimo, uma atoarda de todo o tamanho; eu diria até mais: não será um verdadeiro atentado à dignidade do Homem,de tanto Homem,de tanta criança que morre à fome? Pois é, e pelos vistos -segundo o dito reclame- " Os restos de comida não servem para cães"! Pois é! Ao que chegámos: Os restos de comida que servem para qualquer pessoa,pelos vistos já não servem para qualquer cão!!!

Ao que chegámos! É mesmo caso para dizer: Estamos num mundo-cão!

No entanto, amigo leitor,e como é evidente, eu ao dizer isto, até nem estou contra os cães, até porque eles não têm culpa que os Homens nem sempre se saibam comportar como Homens. E além do mais, mesmo até entre cães há desigualdades: Há uns que, embora ditos de estimação são quantas vezes abandonados, e outros têm até direito a termómetros de borla para tirar a temperatura; para não já falar naqueles que até têm direito a caixöes e a locais em cemitérios próprios. Pois é! Pelos vistos, neste nosso mundo cão, até os próprios cães dão a impressão que não vivem no mesmo mundo; há cães deste mundo e outros que, embora também aqui vivam, mais parecem seres de outro mundo...

Agora que eles nos ensinam muita coisa...ah lá isso ensinam. E desculpe, até, a franqueza: Oxalá que alguns Humanos tenham o mesmo sentir como aquele cão que eu falei no principio desta crónica. Aliàs, o caso,esse, também se conta em poucas palavras:

Na semana passada, quando seguia de automóvel, encontrei, da parte da manhã, estendido na estrada, um cão morto. Estava morto porque, ao que tudo indicava… - havia sido atropelado. No entanto, se é sempre uma cena deprimente enfrentar ocasiöes como esta, foi, no entanto, mais emocionante verificar que,junto do cão,atropelado, três outros cães, vivos, no meio da estrada, não arredavam pé,junto ao companheiro atropelado, e isto apesar da estrada ser muito movimentada. Segui viagem...e como estava a chegar ao destino não me alonguei nas minhas reflexöes. No entanto, amigo ouvinte, o insólito ainda estava para chegar. Mais para o fim da tarde, quando regressava a casa e passava pelo mesmo trajecto, não é que encontrei exactamente o mesmo panorama? Lá estava o mesmo cão morto,rodeado pelos companheiros que teimavam, ainda, em fazer companhia ao bicho defunto...enquanto um ainda lançava latidos de dor...

E eu, forçosamente, fiquei emocionado. Afinal neste Mundo cão, há cães que são,induvitavelmente melhor que as pessoas; dito de outra forma: no nosso mundo cão há pessoas que são piores do que certos cães na questão do sentimento. E eu eu dizer esta barbaridade, tenho presentes diversas situaçöes que confirmam,exactamente, o que acabei de dizer. Olhe... Há anos, estava eu na residência Paroquial quando alguém,pesaroso vinha pedir a chave da casa mortuária.

-" Então, mas quem morreu?"

-"Ó,senhor padre - respondeu essa dita pessoa- ... ainda não morreu, mas como está quase a morrer...é para a gente ir tratando destas coisas enquanto é tempo, porque depois há mais coisas a tratar!"

Pois é, amigo leitor! Foi assim, sem mais! Foi, assim, de chofre , que eu ouvi...e calei...perante tamanha desumanidade!

Pois é, e ainda se fala num mundo-cão! E o mundo desta pessoa, e de algumas como ela-como se chamará?

Os cães esperaram horas,junto do companheiro morto, antes de o abandonarem. Este familiar ainda tinha a pessoa viva...e já pedia a chave da casa mortuária para a despachar...a moribunda porque depois havia mais coisas para fazer...

- Olhe, amigo ouvinte, sem comentários...

No entanto, ainda lhe digo mais... para rematar esta história verídica: Passados dois dias essa pessoa veio entregar, envergonhada a chave; a pessoa afinal não morrera...!

- Que pena nem todas as pessoas terem sentimentos de cão!

 Padre Júlio Grangeia