Na Frequência da Vida

AMIGOS... AMIGOS...

 A campainha havia tocado há instantes atrás o segundo toque naquela Escola Secundária. Depois de ter escrito o sumário no "livro do ponto" , virei-me para aquele aluno, que estava, mesmo, "à mão de semear",como sói dizer-se, e, "como quem não quer a coisa," lancei a boca:

- Marco, tens algum amigo?

Não sei se devido ao tom da pergunta, se devido ao facto de os meus alunos terem pensado que seria algum assunto fora do programa e portanto muito mais interessante...o que é certo é que o aluno interpelado, meio "apalermado" por pergunta tão "corriqueira",como inesperada, respondeu, também, de imediato, de chofre:

-Amigos?! Mas...amigos,como, stôr?

-Amigos...mas "amigos-amigos"?...

-Ah,-acabou por responder de pronto logo que percebeu o alcance da pergunta- "amigos desses só tenho uma amiga: a minha cadela"!

Claro está, amigo ouvinte, que foi uma risada geral. De que é que estava à espera? Eu, com franqueza, também levei a resposta na brincadeira. Por isso, coloquei uma cara mais séria, e voltei a perguntar:

-Não... responde lá a sério: Tens amigos em quem possas confiar?- voltei, de novo, a perguntar.

E, amigo ouvinte, foi então que ouvi,tal como toda a turma a resposta que,agora, não suscitava quaisquer dúvidas:

- JÁ LHE DISSE "S’Tôr"!. ESTOU A FALAR A SÉRIO! ANTES NÃO ESTIVESSE? Amigos,amigos, mesmo, só tenho uma ...a minha cadela!

E como se a resposta fosse a mais normal do mundo ainda concluiu:

-Não sei porque é que vocês estão tão admirados?

Acto contínuo,quase de imediato, sai uma "boca inevitável de um colega:

- Ó pá, não sejas palerma! Então, quando estás com problemas falas com a cadela, é isso? -perguntou o delegado, surpreendido por tal amizade canina... para logo concluir, sem esperar resposta:

-É uma tristeza...

Para tentar acalmar os ânimos, coloquei um pouco de água na fervura, como se costuma dizer e, enfim, lá tentei explicar, que, gostar de um animal não era assim uma coisa tão anormal quanto isso...

- S´tôr -lá voltou à carga o mesmo delegado de turma...- gostar de um animal é uma coisa... -mas dizer que a melhor amiga que ele tem é uma cadela é um bocado diferente..."né"?!...

Quando me preparava para ouvir a opinião dos outros alunos, para não ter que descalçar aquela bota que, convenhamos, estava a ficar um pouco apertada...- a vítima desta história,levanta-se,e de olhar inflamado,quase a chorar, exclama, deixando a turma, muda e queda, como se tivesse sido dada a pior notícia:

-Vocês falam,falam porque tem amigos...Vocês sabem lá o que eu sinto...

E com voz magoada lá completou o seu ponto de vista, agora, muito mais seguro de si:

- Falo com ela, sim sem senhor; qual é o problema!?; falo com ela e faço-lhe carinhos ...

Depois, num tom distante, como que a recordar cenas tão inolvidáveis como penosas, ainda exclama:

-Sabem que mais: Pelo menos a minha cadela...nunca me traiu...; Está,sempre, ao meu lado, quando preciso dela!!!

 Bem, amigo ouvinte, escusado será dizer, que aquela foi uma das melhores aulas que eu tive. Tinha sido criado, um bocado sem querer, é certo, o ambiente propício para a confidência e para a abertura: E então foi lindo! Foi lindo o que depois aconteceu. Aquele que antes era um palerma -...porque ninguém tinha cadelas como melhores amigos - arranjou, ali, pelo menos ali e naquele dia, um punhado de gente que o escutou! Estou convencido que muitas barreiras naquela aula foram transpostas...

É certo que, este aluno, ainda corre, agora, o risco de alguém, no recreio lhe mandar a "boca" de que ele é o "tal" que tem uma amiga e que a amiga, afinal, não passa de uma... cadela!!! O amigo ouvinte sabe como esta malta é! No entanto, e com toda a franqueza, este caso fez-me pensar um bom bocado. E estou certo, a todos os daquela turma! No final de contas, o velho adágio popular, veio mais uma vez ao de cima:

"QUEM VÊ CARAS NÃO VÊ CORAÇÕES"!

Afinal há por aí muita boa gente, cobrindo com sorrisos de falsa diplomacia, as lágrimas que teimam em brotar?...

Quantas se fazem, quantas transferências acontecem com animais e coisas...E tudo isto, muitas vezes porque nem sempre somos mais abertos, mais simpáticos, mais solidários, mais próximos, mais amigos...

Mas atenção, amigo ouvinte : Olhe que eu nem estou a falar daquela senhora, como noticiava, há tempos, o telejornal da RTP que todos os dias levava o cachorro à pastelaria para ele comer o seu pastelzinho! Não, isto se calhar, talvez seja necessário encontrar outra explicação...psiquiátrica, talvez, até!

Eu estou a falar naquele aluno, e, se calhar, em tantos como ele, que, porque vivem a solidão, e porque não têm aquilo que qualquer ser humano tem direito, vão mendigando e transferindo o amor e a amizade a que têm direito... mesmo para cima de um cão...um dos poucos, afinal, que sabe ouvir...e que raramente nos interrompe quando estamos a falar!

27/04/94  

 Padre Júlio Grangeia