Na frequência da Vida!
Cadelinha, meu amor!
Olá, amigo ouvinte!
Há coisas que, realmente, só mesmo vistas; contadas ninguém acredita! A história que, hoje, lhe quero contar, amigo ouvinte, apanhou-me completamente de surpresa; deixou-me, como se costuma dizer, de boca aberta! Ainda fechei e abri os olhos com força, a pensar que, se calhar, seria algum pesadelo, algum sonho mau... mas não! Não estava a sonhar, não! Por momentos ainda pensei que estivesse nos Estados Unidos – onde acontece de tudo e mais algum coisa e onde se batem “records”, para entrar no “guiness book”. Mas não! Também não estava nos “States”, na terra do tio Sam; nesse país... democrático, onde se defende o “petró...”, perdão...os direitos humanos. Mas também não, amigo ouvinte! A história que lhe irei contar – e que tem todos os ingredientes para ter lugar na América... - afinal não aconteceu na América! Aconteceu em Portugal, aqui...mesmo pertinho de nós!.
- Está lá, é o Padre Júlio?- Perguntava alguém, pelo telefone...
Depois de nos termos identificado, e dos cumprimentos da ordem, lá veio a razão do telefonema.
- Sabe... gostei imenso de o conhecer; O senhor padre não é como os outros; é uma pessoa aberta... uma pessoa “cinco estrelas”; sabe, teríamos muito gosto que fosse o nosso padre, e que fosse o senhor a casar-nos....
Eu, amigo ouvinte, dizer que fiquei surpreendido... não...não fiquei... até porque já não é a primeira vez que surgem convites destes e assim para realizar o casamento... mesmo de pessoas que eu não conheço de lado nenhum. Mas toda aquela serie de elogios levou-me a desconfiar...
- “Ná”! – Lá pensei eu, com os meus botões... – aqui, aqui há coisa!
Todos nós, amigo ouvinte, gostamos que nos elogiem... agora, assim, e com tantos elogios de uma só vez... dá para desconfiar.... Por isso, um pouquinho a “jogar à defesa” perguntei:
- Então... e porque é que não convidam o vosso pároco... uma vez que o casamento é aí, na vossa Paróquia?! – Perguntei.
- Sabe, nós gostávamos que fosse o Senhor padre... porque é uma pessoa mais aberta... e além do mais, queríamos também uma coisa no nosso casamento... e de certeza que o nosso padre não vai deixar...
- Uma coisa no vosso casamento? Que coisa é? – acabei por perguntar para de seguida ainda dizer:
- E quem vos garante que eu vou concordar com isso?!
- Como o senhor é uma pessoa mais aberta de certeza que não vai colocar problemas...
- Então e que coisa é essa que vocês querem no vosso casamento e que o vosso padre não deixa? Mas já lhe perguntaram?
- Não, senhor padre, ainda não lhe perguntámos ...mas é como se já o tivéssemos feito. Sabe... a gente já o conhece... e... Pronto! É assim! É melhor deixarmo-nos de coisas e ir logo ao que interessa... – lá respondeu assim este noivo deixando-me ainda mais com a “pulga atras da orelha”- como sói dizer-se...
- Sabe... a gente queria uma cerimónia familiar, com pouca gente...
- Então...mas isso não haverá qualquer problema... ; o vosso padre não irá colocar problemas por causa do número dos convidados... – acabei por responder longe de imaginar o que ainda estava para vir...
- Pois, está bem, mas aquilo que a gente queria era outra coisa... e não sabemos se é possível...
- Então...que coisa é essa? Não estou a perceber? – Perguntei eu já um pouco intrigado!
- Olhe, senhor padre, não sei se é possível...mas pronto, é assim: como eu gosto muito de animais, gostaria muito que fosse a minha cadelinha a levar as alianças...! Pode ser?
- Como? – perguntei eu verdadeiramente incrédulo perante aquilo que estava a ouvir...- Querem que seja uma cadela a levar as alianças ... do vosso casamento? – perguntei eu, de novo, repisando as palavras pausadamente, até para me certificar de que tinha mesmo ouvido bem o que acabara de escutar...
- Oh, senhor padre ... mas esteja descansado; é uma cadela muito... mansinha...; é como se fosse da minha família...
- Então...mas não está a pensar em levar a cadelinha para a Igreja, pois não? – lá perguntei eu.
- Então...mas...e por que não?! Por que é que não pode ser uma cadelinha a levar as alianças para a igreja no dia do meu casamento? – lá voltou a perguntar, intrigado, o noivo, para de seguida, ainda dizer:
- O senhor padre não vai ter qualquer problema ...pode estar descansado. Eu quando ela entrar...mando-a sentar... ela fica quietinha o tempo todo...não vai haver qualquer problema...- Lá respondeu, assim, com o ar mais normal do mundo este noivo... amante de cadelinhas, pelos vistos!
Pois é, amigo ouvinte, pois é! O que quer que lhe diga!
Que haja tanto desrespeito em certas bodas onde se assistem a leilões de gravatas ou de ligas nas pernas das noivas... ; Que se façam lanços para subir ou fazer descer o vestido da noiva... ; Que se promova uma qualquer “table dance” (acho que é assim que se diz...), ou um qualquer “streap tease” numa despedida de solteiro, onde se fazem autênticas orgias e onde se fica “bêbedo que nem um carro”... Sim, que se faça tudo isto, e com o maior desplante do mundo...isto a gente já sabe que se faz! Para não falar das ocasiões em que o noivo até se veste com a roupa da noiva e vice-versa... Sim! Tudo isto, infelizmente, também vai acontecendo...; vai acontecendo e vai sendo cada vez mais aplaudido com risos guturais e pré-históricos, à mistura, e acompanhados, claro está, com os talheres a bater na mesa, cada vez com mais força!
Agora por favor, há momentos e lugares para tudo!...
Que se casem de pára-quedas, ou no fundo do mar... tudo bem...basta ir aos States... onde se faz isso e muito mais ... e, quem sabe, com um pouco de sorte, até podem figurar no “Guiness book”...
Agora por favor, não confundamos as coisas: o casamento, o verdadeiro casamento, é diferente; tem outra dignidade. Não o estraguem, por favor!
Que se goste de animais ... tudo bem! Que uma cadelinha, num conforto do lar, até seja considerada um elemento da família num tempo impessoal como é o tempo em que vivemos... e em que canalizamos para os animais o que não somos capazes de fazer para as pessoas ...isso ainda posso entender... mesmo sem concordar!
Agora querer transformar um momento fundamental da vida humana de duas pessoas que se amam, que decidem unir as suas vidas para sempre... que querem diante de Deus partilhar um futuro a dois, para todo uma vida, e que as alianças, desta aliança de duas pessoas, sejam transportadas, ao pescoço, por uma cadelinha irracional ... por mais amorosa que ela seja... “alto e pára o baile!”
Será que a cadelinha também os vai acompanhar na noite de núpcias?
Até para a semana!
Padre Júlio Grangeia
18-11-2002