NA FREQUÊNCIA DA VIDA

Não sabia dar um beijo

Olá, amigo ouvinte!

Aqui estou eu, mais uma vez, e,desta feita, para lhe falar daquilo que nem sempre se fala! De facto, hoje, pensei fazer uma reflexão convosco sobre as...crianças!

O quê!? Acerca das crianças?! Mas não são as crianças os seres de quem mais se fala?! Talvez,sim...e talvez não! E se sim, ainda bem, pois tudo o que se puder dizer (ou fazer) pelas crianças... ainda é pouco; há gente bem menos importante que, não o sendo passa como tal...e tem todo o "tempo de antena" e mais algum!

No entanto, se pensei, hoje, falar sobre as crianças é porque considero que aquilo que muitos consideram muito, afinal,e na realidade, muito pouco é!

Mas cuidado! Eu não estou, nem quero falar -e não quero porque também não precisam - daquelas crianças que são amorosas, limpinhas,e que até já gravam discos em Editoras e tudo! Não quero falar daquelas que só usam fraldas e fraldinhas daquela marca que a gente sabe, e que até deixam o "rabinho sequinho"!

Nem tão-pouco daquelas que têm ursos e ursinhos de peluche, e bonecas que até dizem papá e mamã. Não estou, nem quero falar daquelas que até têm computadores e que já pegam nas máquinas de filmar na mão -daquelas que até cabem na palma da mão.

Não estou a falar delas... embora também sejam crianças! E, como crianças que são, não têm culpa de serem instrumentalizadas por todo uma sociedade de consumo.

Não vou falar daquelas que tem o carinho do pai e da mãe, nem daquelas outras que têm sempre a papinha a horas certas, como manda a boa prática de nutrição. E ainda bem que tal acontece - diga-se de passagem! Como seres indefesos que são, merecem, induvitavelmente, o melhor: ou seja: o nosso carinho e amor... pois tudo isto ainda será pouco...

Hoje vou falar daquelas que vivem em lares desfeitos, em lares onde não há amor... mas que nem por isso deixam de ser aquilo que são: crianças!

Hoje, vou deixar de lado, aquelas que aparecem na televisão a fazer reclame aos rolos fotográficos e aquelas que, ao que parece, até fazem "xixi, de forma diferente: se é menino é de uma maneira e se é menina é de outra!

Hoje vou falar de uma que me apareceu na casa paroquial, ao lado da mãe.

Estava a chover, vinha toda encharcada e,ainda por cima,vinha descalça. Aliàs, vinha descalça...por cima e por baixo! Trazia uma banana na mão e um carrinho de brincar na outra; carrinho que, qual objecto de estimação, levava várias vezes à boca! A sua carinha, essa, estava toda suja... muito diferente daquelas crianças que a televisão nos mostra! A mãe vinha pedir dinheiro:

- "É para comprar leite, senhor padre!"- Explicou a mãe. O marido não lhe dava o dinheiro para comprar leite... gastava-o, na bebida!; o que ele lhe dava era pancada...

Ai, o senhor padre não acredita,pois,não? Então veja! - disse-me a mãe, levantando-me a saia. E eu vi umas pernas bonitas, ...mas cheias de pisaduras...bem diferentes daquelas pernas bonitas que nos aparecem na televisão para vender mais carros e...mais Martini.

Embora seja apologista de que é preferível "ensinar a pescar" do que "dar o peixe"...acabei por dar o "peixe": isto é, dei-lhe o dinheiro...mas tão somente o necessário para poder comprar leite. E quis dar, na despedida,um beijinho à criança:

-Dás-me um beijinho, dás?! - dirigi-me eu à criança!

Para meu espanto,não me deu beijo algum; ficou parada, apática, mesmo! Dava a impressão que não sabia do que eu estava a falar...

Para dissipar dúvidas foi a mãe que me explicou o estranho comportamento:

-"Ah, o senhor padre não se admire; ela não sabe dar dessas coisas; lá em casa ninguém a ensinou a dar beijos; o pai acha que essa coisa de dar beijos são folestrias...

É de Águeda esta criança! Tinha um carrinho de brincar e uma banana na mão; não tem leite porque o pai gasta o dinheiro no vinho! Tem uma mãe com umas pernas bonitas mas pisadas das pancadas que leva. A criança não sabe dar beijos... porque lá em casa essa coisa são folestrias...

Destas crianças ninguem fala... nem aparecem na televisão...

Será preciso dizer mais alguma coisa?!

Não concorda comigo?

Atá para a semana!

03-10-90

 Padre Júlio Grangeia