Na Frequência da Vida
Gosto de coisas que ninguém gosta
Olá, amigo ouvinte!
Poderia chamar-se Sofia. Terá, agora, se calhar, 16... ou até,mesmo, dezassete anos, não sei. É uma rapariga bonita e... extremamente sensível! Foi minha aluna no 7º ano... e depois ..., bem, depois... perdia-a de vista; nunca mais a vi. Há 15 dias reencontrei-a numa artéria da cidade de Aveiro. Encontrei-a ou ela é que me encontrou, já nem sei bem...
Depois dos cumprimentos da ordem, e daqueles elogios que se fazem, elogios de circunstância em que ficamos sempre sem saber se aquilo que se diz é verdade ou se é apenas mera diplomacia, estivemos um bocadinho à conversa:
- Oi, professor, “ta” tudo bem? Há quanto tempo... ! Mas o senhor está, na mesma!!! ...
- Na mesma?! “Tô”, “tô”... – respondi, ironicamente mas também a sorrir pela simpatia da minha ex-aluna como se eu não tivesse olhos na cara...; como se os cabelos brancos que já começam a despontar como tufos, aqui e ali... e ali e acolá... não dessem já nas vistas....
- Então...e tu...? Que é feito de ti? Estás mais bonita...
- Ah, obrigada, stôr! – lá respondeu, assim, um pouco sem jeito, esta minha ex-aluna...
Já na altura em que a conhecia, a Sofia, era uma aluna de “ poucas falas”. Ela falava, sim, mas só quando era, mesmo, necessário. Era daquelas alunas aplicadas que levantava o braço quando sabia a resposta ... mas não se importava que fossem os outros a responder; quando os outros não sabiam... bom... era certo e sabido que a Sofia tinha a resposta, logo, e ali, na ponta da língua... Sim. Era esta a Sofia que eu conheci; um boa menina...
- Então, que é feito de ti? – lá perguntei eu.
- Eu continuo a estudar, “stôr”...; ando, também, a aperfeiçoar os meus conhecimentos musicais.; enfim, nada de novo ... - respondeu assim, sinteticamente, e com modéstia, a Sofia!
- Nada de novo?! Tudo na mesma?! “Na”.... Não acredito?! Pode lá ser? Então quer dizer que nem sequer há ...novidades... daquelas que eu estou a pensar... ?! – Interpelei, assim, de forma a provocar a confidência.
- Lá está o “stôr” com o seu jeito de “atirar barro à parede!” Nunca muda! É ver se “cola” é!?
- Claro que não! Só “cola” se quiseres que “cole”...- Mas há alguma coisa para...”colar” – perguntei eu a sorrir para de seguida, ir directo ao assunto:
-Uma rapariga bonita como tu tem que ter ... “novidades” - respondi assim, amigo ouvinte, claramente, para que não houvesse quaisquer duvidas do que estávamos a falar...
- Oh stôr... se quer que lhe diga... até nem sei! Às vezes sinto-me, mesmo, uma “ave rara”...
- Ave rara ?! Como assim? – perguntei, sem saber onde ela queria chegar.
- Olhe, não sei se a culpa é minha...se é deles! Se calhar é minha porque sou mesmo uma “ave rara”! Alguém me manda gostar de coisas que quase ninguém gosta?... – respondeu, assim, em jeito de lamento, para de seguida, desfiar um rol de gostos pouco próprios, segundo ela, para uma menina da sua idade:
- Olhe, “stôr”, gosto de música clássica, gosto de jazz, gosto de tocar violoncelo... ; gosto de pintura, de teatro, de escrever, de ler, de poesia; gosto de filosofia e de saber o porquê das coisas... Conhece muita gente da minha idade assim?
Lá perguntou a Sofia para, logo de seguida, sem me deixar responder, concluir:
- Sinto-me sozinha, mesmo estando acompanhada, entende? E sabe que mais? Como se tudo isto não bastasse, como se não bastasse gostar daquilo que poucos gostam... ainda por cima não gosto daquilo que todos os da minha idade apreciam... - Rematou, assim, com olhar triste, a Sofia.
Poderia chamar-se Sofia.Terá, para aí, uns 16-17 anos! É bonita ...mas sente-se uma “ave rara”: Gosta daquilo que poucos gostam e não gosta de discotecas. Como pessoa sensível que é, gosta de música clássica, de poesia...e toca música; anda a estudar violoncelo; um instrumento à altura da sua sensibilidade!...
Namoriscou com um rapaz da idade dela...mas não havia nada em comum; encontrou um outro que tinha tudo a ver – pensava ela. Só que não tinha : magoou-se! O que o rapaz queria, mesmo, era divertir-se um bocado... e deu-lhe com os “pés”. Ainda meio “zonza”... por causa do “tampo” que levou... apareceu, entretanto, outro rapaz! Como não gosta de se precipitar, a Sofia pediu-lhe tempo para pensar... mas quando ela queria foi ele que não quis...
- É por estas e por outras que fui aprendendo a ser feliz com a felicidade dos outros... – responde ela, a Sofia, com uma simplicidade bonita, própria só de pessoas especiais...
Poderia chamar-se Sofia. É jovem mas já é crescida; crescida demais para a idade que tem; com gostos diferentes dos da sua idade! É bonita, por dentro e por fora ... mas sente-se sozinha...mesmo estando acompanhada; chora, muitas vezes, no seu quarto, sozinha, porque sente o que sente ... e porque sente que é de outro tempo...! Não encontra nos colegas da sua idade quem a entenda. Por isso não é de estranhar: mais tarde ou mais cedo teria que acontecer! E aconteceu:
Apaixonou-se, agora, e a sério, por uma pessoa do tamanho da sua sensibilidade! Só que...mais velho; muito mais velho. É compreensivo, sensível, “bonito por dentro”, como ela, ...mas tem o dobro da idade: O seu professor de música que, ainda por cima, é casado! Ela gosta dele, pensa que é retribuída... só porque ele a olha de um jeito diferente! – Diz ela! Mais uma vez, sente-se como sempre se sentiu: uma “ave rara”!
- Diga-me lá stôr? – Estarei a cometer algum pecado”? É pecado gostar de alguém?! È pecado gostar de uma pessoa que poderia ser meu pai...? – Interpelou-me, assim, a Sofia, com um brilhozinho nos olhos. A tal que continua a ser o que sempre foi: uma “ave rara” ...
Pois é, amigo ouvinte, pois é!
Poderia chamar-se Sofia! Tem 17 anos! Gosta daquilo que poucos apreciam; detesta aquilo que a maioria gosta...
Não gosta de discotecas...mas adora música clássica e Jazz...
Não gosta de bares, onde há barulho e onde não se escuta o outro... mas, o que gosta, mesmo, é de pintura, poesia... e, claro, de Filosofia... para descobrir o porquê das coisas!
Agora, apaixonou-se pela pessoa certa, mas tudo aconteceu na altura errada... Aconteceu... apesar de, ainda, nada ter acontecido! Ele é sensível como ela... só que tem o dobro da sua idade e, como se isto não bastasse, é já casado...
- Pois é minha querida Sofia! Não é fácil! Eu sei! Mas, olha, parabéns por seres...diferente !... E por seres ...assim... assim, como és! Parabéns pela tua sensibilidade, por gostares do que gostas! E até de quem gostas!
Gostar de alguém não é nem nunca foi errado, e muito menos pecado. Pecado, se calhar, é fazer o que é mais fácil; É ferir os outros! Mas olha, se levares por diante esse teu amor não estarás, também, a contribuir, mais tarde ou mais cedo, para a infelicidade de “terceiros”... mas que chegaram ... “primeiro”?! Tu que aprendeste a ser feliz com a felicidade dos outros... ficarias bem contigo própria vendo a infelicidade de outros?
Sensível como és, não vais, concerteza, ser como uma outra qualquer; Vais “dar a volta por cima”! Com a tua sensibilidade, do tamanho do teu violoncelo, vais, concerteza, encontrar a pessoa certa na “clave” da tua vida! Não desanimes! Tu és uma pessoa especial ... e ainda bem!; és uma “ave rara”, sim, mas de sensibilidade...
Não te queiras, agora, transformar, por favor, em “ave de... arribação”...
Um beijinho para ti... porque sei que me estás a escutar!
Até para a semana, amigo ouvinte!
Padre Júlio Grangeia
28-10-2002